quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Ato I: A Reconquista VIII

“O inverno na ilha é bastante variado. A pior região é a de Scottner, onde o calor impera na maior parte do tempo e faz muita falta quando chega o inverno. A umidade diminui consideravelmente, dificultando a presença da neve, que vez ou outra até aparece. A floresta recebe isso muito mal e muitas plantações são perdidas quando este fenômeno acontece. Seus habitantes se preparam estocando lenha para manter suas lareiras sempre acesas ante o mau tempo.
Markham e Travisen quase não sentem a queda da temperatura. Estando mais ao sul, apenas suas águas ficam mais geladas, atrasando um pouco algumas das atividades em alto mar. Tomhills, no alto das colinas, é atacada por ventos gelados e desoladores. Seus habitantes evitam ao máximo sair do conforto de seus lares, construídos quase todos de pedra e bem isolados, ao contrário das residências de Scottner.
Já nas regiões rurais, o povo sofre com o frio. Famílias inteiras dormem num único cômodo, usando toda cobertura que puderem, aproveitando o calor próprio para manter todos numa temperatura agradável. Suas casas são feitas com lareiras para manter o fogo quente e agradável durante todas as noites, enquanto sopas e outras comidas quentes costumam ser preparadas para ajudar a enfrentar as noites congelantes ”
- Trevor McNevan, em “”Costumes da Ilha”.

Capítulo 8

2015: Maerr 19. A taverna ainda nem tinha um nome e era bastante desarrumada. Era um grande improviso, mas nada disso importava naquele momento. A maioria gastou suas moedas com grande prazer para poder finalmente comer e beber algo decente depois de tantos dias na estrada. Estavam aliviados e um tanto pensativos, cada um refletindo sobre onde se encaixariam na cidade. Comeram rápido, mas na maior parte do tempo em silêncio.
Depois do almoço, cada um tomou seu lado. Malaggar foi até o templo que improvisara numa caverna nos arredores da cidade e aproveitou o tempo livre para arrumá-lo depois da longa ausência. Gwen passou a tarde na taverna bebendo e estudando. Shaisys deu um passeio pela cidade e se limitou a observar o trabalho da guilda e os novos contratados. Arthur foi até a tenda reservada para o grupo e passou a tarde descansando.
Alanna e Arannis levaram as crianças até o rio nas imediações das muralhas. Notaram que já haviam iniciado um desvio para trazer a água ainda mais perto da cidade. A tarde passou rapidamente, ambos cuidando para que os gêmeos descansassem e se recuperassem bem da jornada. O eladrin chegou até a fazer um pouco de massagem nos pés dos pequenos. A chuva havia dado uma trégua e o calor típico de verão tornava a água ainda mais agradável.
A noite chegou e todos se encontraram à porta da mansão Raynor. Um dos serviçais do nobre atendeu ao grupo e o levou até seu anfitrião. Conforme passaram pela sala de recepção e em seguida para a sala de jantar, notaram que o interior havia sido arrumado de maneira cuidadosa e já tinha ares de uma residência nobre. Tapeçarias estavam nas paredes, as janelas todas bem limpas e cuidadas, móveis de qualidade por todos os cantos e até um lustre podia ser visto na sala de estar.
Scott estava de pé ao lado da mesa, com uma taça de vinho. Ele vestia um traje requintado com tantas peças vermelhas quanto brancas. A postura denotava o cansaço da viagem, mas ele parecia em bom ânimo, familiarizado com o local onde viveu na infância. No momento que o serviçal abriu a porta para a passagem do grupo, ele se virou para os mesmos, com um sorriso estampado no rosto.
- Boa noite, sejam bem-vindos.
Todos se cumprimentaram e trocaram algumas palavras enquanto iam se ajeitando na mesa. Algumas dúvidas e sugestões surgiam enquanto a mesa começava a ser posta, mas Scott e Lizbeth pareciam ter total controle da situação. Conforme alguns membros do grupo haviam visto mais cedo, eles estavam levantando uma muralha externa para impedir outros avanços das tribos da floresta, mas dessa vez erguiam com pedras e não apenas madeira.
Debateram algumas questões sobre a logística dessa construção e Malaggar logo se prontificou a trabalhar na defesa dos operários do exterior, pois não queria nenhuma função indigna de seu posto. Conversaram sobre as minas abandonadas ao norte, de onde voltariam a extrair metais logo que conseguissem solidificar a posição da cidade da nascente do rio Baixo até suas muralhas, para então expandir naquele rumo.
Gwen se demonstrou interessada em ajudar no externo da cidade, de preferência nas patrulhas pela floresta, mantendo inimigos distantes e ajudando na captação de recursos para os trabalhadores. O jantar foi agradável e o assunto, como não podia deixar de ser, foi o futuro. Todos tinham ideias, dúvidas e considerações. Scott ouviu a todas e dialogou abertamente com cada um deles.
Ao final do jantar, ele continuou debatendo com o grupo. Então, quando todos terminaram, ele solicitou aos empregados que deixassem a mesa livre e pediu ao grupo para esperar mais um pouco. No momento seguinte outros serviçais surgiram carregando cautelosamente uma espécie de rolo de tecido, que Scott prontamente abriu na mesa, oferecendo ao grupo.
- Como agradecimento por terem tornado isso possível, trouxe estes presentes para vocês. Sintam-se à vontade. – Apontando para a mesa.
Expostos na mesa estavam: uma armadura de couro, simples, de cor marrom, sem nenhum ornamento ou característica que chamasse a atenção; uma alabarda de metal escuro com seu cabo envolto por um couro negro; um cinto feito de couro de cobra cinza esverdeado; um par de luvas simples feitas de retalhos de variados tecidos; uma corrente simples de prata com um pingente em forma de olho; e por último, um manto longo com capuz, negro com bordas vermelhas. Arannis ficou com o corselete de couro, Alanna pegou a alabarda e Arthur ficou com o cinto. Shaisys pegou as luvas e Malaggar recolheu a corrente enquanto Gwen pegava o manto.
Agradecendo a Scott e animados com os presentes, o grupo se despediu e partiu para a tenda que havia sido reservada a eles. As crianças acompanhavam, empanturradas. O espírito do grupo estava leve conforme iam escolhendo seus sacos de dormir na tenda. Todos dormiram rapidamente, enquanto mais uma vez o eladrin e o drow ficavam de olho nos movimentos estranhos do humano. O vingador até tentou pregar uma peça no patrulheiro, mas sem sucesso.

...

2015: Maerr 20. Quando todos iam acordando, Arannis já estava concentrado em identificar os itens mágicos que receberam de seu patrono. Shaisys logo se juntou a ele e ambos trabalharam incessantemente enquanto os outros providenciavam água, comida e outros pequenos confortos. As crianças, que haviam passado o restante da noite imitando os movimentos de Arthur, agora ficavam concentradas, observando. O humano preparava suas misturas e se retorcia de dor enquanto esperava.
Por volta da hora do almoço o trabalho foi concluído. O bladesinger e a bruxa logo começaram a explicar aos outros o que cada um dos itens fazia. O eladrin até arriscou um flerte com a meio-elfa enquanto explicava sobre as propriedades da alabarda, mas o efeito não foi bem o desejado. O grupo então pariu para almoçar na taverna e os debates sobre o futuro voltaram. Cada um já tentava se imaginar na reconstrução da cidade. Com o fim do almoço, cada um tomou seu rumo em busca do que mais lhe agradaria nessa nova fase da vida.

...

2015: Noverais 8. Ela seguia por um túnel escuro, onde não via quase nada. Mesmo com sua visão sobre-humana, a escuridão parecia engolir qualquer fagulha de luz que aquelas criaturas produziam. Pareciam lesmas grandes e impregnavam as cavernas. Por onde passavam, deixavam uma secreção que luzia esverdeada na escuridão total daquele abismo desolado. Conforme avançava, confusa, pelo túnel, começou a ouvir sons de batalha. Ela apressou os passos, curiosa com o que se passava.
Não demorou muito para chegar até um salão natural. Nele havia fogo e até alguns móveis rusticamente esculpidos em pedra. Ao seguir pela nova descoberta, começou a encontrar cadáveres. O primeiro era um humano já idoso, uma pequena machadinha de pedra nas mãos, morto com um golpe poderoso no abdômen que havia deixado um grande buraco. Mais à frente, outros humanos e elfos estavam mortos, todos obliterados por um único ferimento mortal, todos com armas rústicas em mãos.
Adentrando um pouco mais o salão, ela começou a ver. Se assustou com um corpo passando ao seu lado, jogado num giro de marreta de uma criatura enorme de pele violeta cheia de inscrições arcanas. A criatura parecia não notar sua presença enquanto se jogava na direção de outro elfo, acuado num dos cantos. O coitado não teve nenhuma chance, esmagado pelo martelo do gigante. Ele sorria e olhava em volta, procurando um novo alvo.
Mais ao fundo ela podia ouvir mais sons do massacre. Elfos, humanos e meio-elfos morriam enquanto os gigantes brincavam com eles. A cada pegada e palavra de deboche dos gigantes, ela tinha uma sensação de familiaridade, mas não conseguia determinar esta razão. O salão maior estava todo bagunçado e parecia revirado. Os gigantes estavam ali em busca de alguma coisa. Em pouco tempo as cavernas ficaram silenciosas e os gigantes partiram, abrindo uma espécie de portal violeta, por onde começaram a partir. O último deles, com uma longa barba roxa, olhou em sua direção e ela tremeu no momento em que seus olhares se encontraram.
Alanna acordou de súbito, assustada. O inverno já castigava Scottner e ela dormia num quarto da casa que fora cedida ao grupo enquanto estivessem na cidade. Seus membros tremiam e ela suava frio, apesar do tempo gelado. Ao olhar para o lado, viu que as crianças já haviam se levantado e deixado o quarto. Tentando entender o sonho, ela permanecia deitada encarando o teto do quarto.

...

2015: Noverais 13. Arannis seguia treinando as crianças no frio inverno de Scottner. O tempo havia ficado mais seco, mas o frio era forte, considerando o calor que normalmente fazia na região. Eles estavam num dos pátios de treinamento que vinham usando nos últimos tempos e as crianças gostavam de estar ali. Mesmo quando ele não as estava treinando, era comum ver elas ali enquanto cumpria com seus trabalhos, fosse na companhia de Lizbeth, Amgram, Elros, Erben ou das damas de vermelho, Kathria e Yaren, com quem o eladrin já estava bastante familiar.
No momento ele apenas supervisionava o treinamento dos pequenos, que já não eram tão pequenos. De maneira estranha, as crianças cresciam num ritmo bastante acelerado. Elas já tinham o tamanho de uma criança de oito anos, apesar de terem se juntado ao grupo dez meses antes parecendo ter cerca de cinco. Ninguém conseguia explicar aquilo e com o tempo foram se acostumando com a ideia. O fato era que as crianças aprendiam muito bem e absorviam cada conhecimento com facilidade. Mesmo assim, elas ainda não falavam.
Numa das brincadeiras de sempre dos treinamentos, o bladesinger foi até o local do treinamento e pedia para que os garotos o atacassem até derrubá-lo. Eles iniciaram suas investidas, enquanto Elros se aproximava do cercado da arena improvisada para observar, sinalizando positivamente com a cabeça para cada manobra inteligente que os pupilos aplicavam. Numa delas, Arannis foi surpreendido e derrubado pelo garoto, que caiu por cima dele com força. Ao sentir o toque do medalhão que pendia no pescoço do garoto, ele se sentiu estranho.
Arannis estava caminhando pela floresta animado. Voltava da aula de magia que sempre gostara. Seus passos eram ágeis e precisos, já acostumado com o trajeto diário para a academia. Acreditava que um dia se tornaria um grande mago e daria orgulho aos seus pais. Ele se lembrava do quanto admirava os arcanos desde pequeno e agora se sentia feliz em poder seguir a mesma carreira.
Mais à frente os outros elfos brincavam. Eles brandiam espadas e lanças de madeira, brincando de guerra como qualquer criança gostaria. Mesmo ele, que tanto admirava a magia, gostava de brincar de guerra. Ele acelerou o passo, queria chegar logo em casa para deixar seus livros e voltar para a brincadeira. Acelerou tanto, que se descuidou.
Conforme ia contornando a brincadeira dos amigos, que sorriam para ele quando passava, deixou de notar uma lança de madeira vindo certeira em sua direção. Aparentemente o amigo, de costas para ele, não o havia notado quando iniciara o movimento de giro de lança. Por mais que tivessem tentado alertá-los, nenhum dos dois foi capaz de evitar o golpe.
Desnorteado, ele começou a se recuperar em alguns segundos, caído do lado do lago. Os amigos estavam à sua volta, observando receosos. Balançando a cabeça, ele começou a se situar novamente e já olhava em volta em busca dos livros. Os amigos ficaram aliviados e começaram a se virar para voltar à brincadeira quando ele estacou.
Enquanto as mãos tateavam pelos livros no chão, seu olhar encontrou seu reflexo na água. Ele não poderia ficar mais perplexo. Quem estava ali na sua frente não era ele. A água do lago refletia um jovem elfo de pele escurecida pelo sol, cabelos verdes e olhos castanhos. Arannis não sabia o que pensar. Ele olhou desesperadamente para suas mãos e seus pés, notando a pele bronzeada que não era sua. Ele começou a entrar em desespero, então tudo ficou molhado.
O eladrin se dera conta novamente de onde estava. A garota estava com um balde em mãos, observando-o preocupada, enquanto o garoto trazia Elros para perto. O meio-elfo não viu nada de anormal e apenas brincou com o bladesinger sobre a esperteza das crianças para derrubá-lo. Os gêmeos ficaram desconfiados, mas se voltaram ao treinamento novamente depois dos incentivos do psiônico. Arannis se levantou, limpando o corselete e tentando entender o que havia acabado de acontecer.

...

2015: Noverais 29. Shaisys estava sozinha em seu quarto enquanto se preparava para dormir. Vinha ajudando nos trabalhos no interior das muralhas com frequência. Seus trabalhos eram leves e simples, fáceis demais se comparados com a vida que teve antes das aventuras. Ainda se surpreendia as vezes pelo fato de finalmente ter um teto sobre a cabeça nas noites frias de inverno. A sensação de calor costumeira se aproximava e ela sabia que seu patrono buscava se comunicar de novo. Mais uma vez, as palavras da criatura ecoavam em sua mente.
- Está tudo indo muito bem, minha querida, está sim... – Sibilou a criatura.
- Conforme lhe solicitei, noto que estais a cuidar bem daquelas crianças. Bravo! – Debochou a voz espectral. – Me aflige ainda não saber o que são, mas hei de descobrir!
- Estás num grupo deveras interessante, minha criança. – Ele continuava. – Alguns não sabem quem são, outros mexem com coisas proibidas.... Sinto que irão se meter em algo grande, sim...
Uma pausa se seguiu, o calor relutante em abandoná-la. Já aprendera que quando isto acontecia, seu patrono estava refletindo. Sabia que deveria esperar que tomasse a palavra novamente até ser finalmente dispensada.
- Segues com eles, sim? Fazeis o possível para manter todos em seus rumos. As coisas em breve ficarão interessantes, se minhas divinações estiverem corretas. Continue aproveitando a nova vida, minha querida. Continue...
A voz ecoava em sua mente enquanto o calor se esvaia, encerrando a conexão. O frio voltou com força, forçando a halfling a se enrolar ainda mais nos cobertores que jaziam sobre seu corpo. Essas visitas de seu patrono eram um tanto perturbadoras, mas era um preço muito pequeno a pagar por uma vida digna. Só esperava que os pedidos continuassem nessa mesma proporção.

...

2015: Dezerarth 13. Gwen acordou no meio da noite com uma nova mensagem. Como das outras vezes, uma música invadia seus sonhos e se acoplava fundo em sua mente, lembrando-a quase que diariamente que algo estava por vir. O mesmo sentimento de urgência e preocupação a tomava enquanto sua mente trabalhava para juntar todas as peças da música para que fizesse sentido.

Go your way,
I'll take the long way 'round,
I'll find my own way down,
As I should.

And hold your gaze
There's coke in the Midas touch
A joke in the way that we rust,
And breathe again.

And you'll find loss
And you'll fear what you found
When weather comes
Tearing down

There'll be oats in the water
There'll be birds on the ground
There'll be things you never asked her
Oh how they tear at you now

Idioma antigo, mais uma vez. E a situação se tornava ainda mais urgente. Ela tinha certeza que a profecia da música anterior ainda não se concretizara. Portanto, o mais lógico era que se tratava de algo maior, que precisava de mais de uma música para ser anunciado. A elfa se sentou em sua cama enquanto refletia, temerosa, sobre o que estava por vir. Precisaria expandir ainda mais seus conhecimentos sobre a língua antiga, antes que fosse tarde demais.

...

2015: Dezerarth 29. Malaggar ia novamente até o ponto de comunicação da ordem. Os Mestres dos Sussurros já tinham um representante em Scottner há seis meses e o drow seguia esperando pela recompensa pelas suas informações. Sabia que a demora era resultado de uma reflexão de seus superiores sobre o que lhe revelar, mas não podia deixar de ficar ansioso.
Havia trabalhado em missões de escolta durante todo esse tempo, fosse acompanhando os operários nas muralhas externas ou os demarcadores que abriam as trilhas e criavam postos avançados no caminho até o porto. Havia treinado as crianças sempre que conseguia um tempo livre a sós com elas. A garota parecia levar bem mais jeito para seu estilo de combate, mas o garoto era muito esforçado e fazia por merecer sua atenção. Esperava que se tornassem sacerdotes no futuro, apesar da concorrência com as damas de vermelho, que sempre estavam por perto. Ao chegar no local do compartimento secreto, ficou animado ao notar que havia uma correspondência em seu nome.

“Caro irmão Malaggar, devemos dizer que a ordem está muito satisfeita com seus serviços. Suas informações com certeza são muito importantes e nos deixam em alerta para os tempos vindouros. Ficamos felizes em saber que Scottner voltou a ser uma cidade civilizada e esperamos obter toda a influência possível nela. Para isso também contamos com sua dedicação.
Sobre seu amigo, Arthur, antigo aluno da Universidade Centenária de Tomhills, temos algumas revelações que lhe serão úteis. Como nos avisou, sabemos que o mesmo está ausente da cidade nos últimos meses, mas nossos informantes revelam que em breve ele se juntará a seu grupo novamente para um novo trabalho.
Pesquisamos em nosso acervo sobre o que acontece com ele e chegamos à conclusão de que ele está se convertendo a uma religião proibida. Sacerdotes azuis viveram em nossa ilha antes da queimada das bibliotecas, mas foram caçados e mortos. Os que sobreviveram, eventualmente se separaram de sua fé no deus perdido.
O azul representava o Lorde das Tempestades e Senhor da Vingança. Seu culto foi exterminado e nós ficamos perplexos ao notar que alguém está o revivendo. Talvez tenhamos sido descuidados demais ao não notar que este culto jamais morreu, ou seu amigo está sob influência de alguém que detém um conhecimento muito além do que uma pessoa comum deveria ter. Em ambos os casos, fique de olho e aja com cautela. Quase ninguém sabe dos azuis e é melhor que continue assim até termos certeza de onde estamos pisando. Que o Lorde Estelar guie seus passos.

A noite é nosso campo de batalha. As sombras, nossa armadura. E os segredos, nossas armas. ”

Intrigado, o drow releu a carta pelo menos três vezes antes de finalmente queimá-la. O poder de um segredo trazia uma sensação de euforia que ele não experimentava havia bastante tempo. Animado com o que acabara de descobrir, fez o reporte normal que se esperava dele. Deixou o compartimento secreto no armazém da cidade e caminhou a passos largos para a casa onde vivia com os outros membros do grupo. Arthur ficava cada vez mais interessante e ele já conseguia vislumbrar um cargo maior na ordem.

...

2016: Janasys 8. Arthur estaria novamente em Scottner em poucas horas. Havia passado os últimos seis meses em Porto Baixo, o posto avançado na nascente do rio Baixo, que acabou virando um vilarejo. Lá os suprimentos iam e vinham de e para a cidade recém reconquistada. Todo esse tempo vivendo num lugar onde ninguém o conhecia havia sido bastante útil.
Conforme havia prometido, Celi transformou ele em um paladino. Como nada era de graça, ele acabou perdendo várias coisas de sua vida anterior. Pouco se lembrava das matérias que estudou na universidade em Tomhills e quase nada de seus métodos de rastreamento e sobrevivência na natureza pareciam familiares agora. A entidade sempre dissera que ele deveria perder aqueles costumes bárbaros em busca da verdadeira iluminação e ele ainda se surpreendia em como ela conseguira fazer isso.
Sua armadura já não estava reluzente como costumava manter, mas ainda estava apresentável. Seu cinto mágico prendia um tabardo azul e liso, sem nenhum símbolo, incomum para os paladinos. Não era membro de nenhuma ordem e, apesar de ser disciplinado e doutrinado pela companheira incomum, ainda se sentia um pouco perdido sobre sua divindade. Sua mente já havia sido forjada para o culto, dizia Celi, mas ele ainda tinha dúvidas. Entorpecido pelo cavalgar suave enquanto acompanhava um dos carregamentos de aveia para a cidade, sentiu que ela buscava comunicação.
- Certo Arthur, acho que depois de tanto tempo, preciso ser mais específica com você. – A entidade admitiu, num tom conciliador. – Você deve evitar falar de sua fé, pois se trata de uma fé proibida. As pessoas deixaram de cultuar o nosso deus há muitos séculos, perdidas em sua ignorância sem fim.
- Somos devotos do Lorde das Tempestades, do grande Senhor da Vingança. Vivemos como a tempestade, da calmaria à catástrofe furiosa em segundos. Nós lutamos por glória, buscamos a maestria no que fazemos e temos tantas facetas quanto o clima que nosso senhor comanda. Sempre defenda sua honra, vingue-se daqueles que lhe fazem mal e faça seu grito de batalha ecoar como o trovão que antecipa a tempestade.
- Tenha orgulho da cor azul, que é o grande símbolo de sua fé. O lobo é outro símbolo de nossa religião esquecida, feroz e ardiloso nas florestas, esperando por suas presas. Nunca deixe de lutar. - Um arrepio percorreu sua espinha, enquanto uma brisa agitava seus cabelos, agora azuis por causa da mutação.
- Saiba que, a partir de hoje, você é mais um raio na tempestade, o prenúncio da destruição. Você é o lobo que comanda a matilha, o mestre da batalha que regozija em glória por cada oponente destruído por seu machado. A partir de hoje, seu senhor supremo e absoluto é Thoriann, o Lorde das Tempestades.



Um comentário:

  1. A minha parte estou um pouco confuso e tentando entender.
    A parte do Arthur, Malaggar e da Alanna ficaram mto top!
    Algumas coisas não entendi, mais deixo a critério do mestre. Ansioso para a próxima!!

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