“O inverno na ilha é bastante variado. A pior
região é a de Scottner, onde o calor impera na maior parte do tempo e faz muita
falta quando chega o inverno. A umidade diminui consideravelmente, dificultando
a presença da neve, que vez ou outra até aparece. A floresta recebe isso muito
mal e muitas plantações são perdidas quando este fenômeno acontece. Seus
habitantes se preparam estocando lenha para manter suas lareiras sempre acesas
ante o mau tempo.
Markham e Travisen quase não sentem a queda
da temperatura. Estando mais ao sul, apenas suas águas ficam mais geladas,
atrasando um pouco algumas das atividades em alto mar. Tomhills, no alto das
colinas, é atacada por ventos gelados e desoladores. Seus habitantes evitam ao
máximo sair do conforto de seus lares, construídos quase todos de pedra e bem
isolados, ao contrário das residências de Scottner.
Já nas regiões rurais, o povo sofre com o
frio. Famílias inteiras dormem num único cômodo, usando toda cobertura que puderem,
aproveitando o calor próprio para manter todos numa temperatura agradável. Suas
casas são feitas com lareiras para manter o fogo quente e agradável durante
todas as noites, enquanto sopas e outras comidas quentes costumam ser
preparadas para ajudar a enfrentar as noites congelantes ”
- Trevor
McNevan, em “”Costumes da Ilha”.
Capítulo 8
2015: Maerr 19. A taverna ainda nem tinha um nome e
era bastante desarrumada. Era um grande improviso, mas nada disso importava
naquele momento. A maioria gastou suas moedas com grande prazer para poder
finalmente comer e beber algo decente depois de tantos dias na estrada. Estavam
aliviados e um tanto pensativos, cada um refletindo sobre onde se encaixariam
na cidade. Comeram rápido, mas na maior parte do tempo em silêncio.
Depois do almoço, cada um tomou seu lado. Malaggar
foi até o templo que improvisara numa caverna nos arredores da cidade e
aproveitou o tempo livre para arrumá-lo depois da longa ausência. Gwen passou a
tarde na taverna bebendo e estudando. Shaisys deu um passeio pela cidade e se
limitou a observar o trabalho da guilda e os novos contratados. Arthur foi até
a tenda reservada para o grupo e passou a tarde descansando.
Alanna e Arannis levaram as crianças até o rio nas
imediações das muralhas. Notaram que já haviam iniciado um desvio para trazer a
água ainda mais perto da cidade. A tarde passou rapidamente, ambos cuidando
para que os gêmeos descansassem e se recuperassem bem da jornada. O eladrin
chegou até a fazer um pouco de massagem nos pés dos pequenos. A chuva havia
dado uma trégua e o calor típico de verão tornava a água ainda mais agradável.
A noite chegou e todos se encontraram à porta da
mansão Raynor. Um dos serviçais do nobre atendeu ao grupo e o levou até seu
anfitrião. Conforme passaram pela sala de recepção e em seguida para a sala de
jantar, notaram que o interior havia sido arrumado de maneira cuidadosa e já
tinha ares de uma residência nobre. Tapeçarias estavam nas paredes, as janelas
todas bem limpas e cuidadas, móveis de qualidade por todos os cantos e até um
lustre podia ser visto na sala de estar.
Scott estava de pé ao lado da mesa, com uma taça de
vinho. Ele vestia um traje requintado com tantas peças vermelhas quanto
brancas. A postura denotava o cansaço da viagem, mas ele parecia em bom ânimo,
familiarizado com o local onde viveu na infância. No momento que o serviçal
abriu a porta para a passagem do grupo, ele se virou para os mesmos, com um sorriso
estampado no rosto.
- Boa noite, sejam bem-vindos.
Todos se cumprimentaram e trocaram algumas palavras
enquanto iam se ajeitando na mesa. Algumas dúvidas e sugestões surgiam enquanto
a mesa começava a ser posta, mas Scott e Lizbeth pareciam ter total controle da
situação. Conforme alguns membros do grupo haviam visto mais cedo, eles estavam
levantando uma muralha externa para impedir outros avanços das tribos da
floresta, mas dessa vez erguiam com pedras e não apenas madeira.
Debateram algumas questões sobre a logística dessa
construção e Malaggar logo se prontificou a trabalhar na defesa dos operários do
exterior, pois não queria nenhuma função indigna de seu posto. Conversaram
sobre as minas abandonadas ao norte, de onde voltariam a extrair metais logo
que conseguissem solidificar a posição da cidade da nascente do rio Baixo até
suas muralhas, para então expandir naquele rumo.
Gwen se demonstrou interessada em ajudar no externo
da cidade, de preferência nas patrulhas pela floresta, mantendo inimigos
distantes e ajudando na captação de recursos para os trabalhadores. O jantar
foi agradável e o assunto, como não podia deixar de ser, foi o futuro. Todos
tinham ideias, dúvidas e considerações. Scott ouviu a todas e dialogou
abertamente com cada um deles.
Ao final do jantar, ele continuou debatendo com o
grupo. Então, quando todos terminaram, ele solicitou aos empregados que
deixassem a mesa livre e pediu ao grupo para esperar mais um pouco. No momento
seguinte outros serviçais surgiram carregando cautelosamente uma espécie de
rolo de tecido, que Scott prontamente abriu na mesa, oferecendo ao grupo.
- Como agradecimento por terem tornado isso possível,
trouxe estes presentes para vocês. Sintam-se à vontade. – Apontando para a
mesa.
Expostos na mesa estavam: uma armadura de couro,
simples, de cor marrom, sem nenhum ornamento ou característica que chamasse a
atenção; uma alabarda de metal escuro com seu cabo envolto por um couro negro;
um cinto feito de couro de cobra cinza esverdeado; um par de luvas simples
feitas de retalhos de variados tecidos; uma corrente simples de prata com um
pingente em forma de olho; e por último, um manto longo com capuz, negro com
bordas vermelhas. Arannis ficou com o corselete de couro, Alanna pegou a
alabarda e Arthur ficou com o cinto. Shaisys pegou as luvas e Malaggar recolheu
a corrente enquanto Gwen pegava o manto.
Agradecendo a Scott e animados com os presentes, o
grupo se despediu e partiu para a tenda que havia sido reservada a eles. As
crianças acompanhavam, empanturradas. O espírito do grupo estava leve conforme
iam escolhendo seus sacos de dormir na tenda. Todos dormiram rapidamente,
enquanto mais uma vez o eladrin e o drow ficavam de olho nos movimentos
estranhos do humano. O vingador até tentou pregar uma peça no patrulheiro, mas
sem sucesso.
...
2015: Maerr 20. Quando todos iam acordando, Arannis
já estava concentrado em identificar os itens mágicos que receberam de seu
patrono. Shaisys logo se juntou a ele e ambos trabalharam incessantemente
enquanto os outros providenciavam água, comida e outros pequenos confortos. As
crianças, que haviam passado o restante da noite imitando os movimentos de
Arthur, agora ficavam concentradas, observando. O humano preparava suas
misturas e se retorcia de dor enquanto esperava.
Por volta da hora do almoço o trabalho foi concluído.
O bladesinger e a bruxa logo começaram a explicar aos outros o que cada um dos
itens fazia. O eladrin até arriscou um flerte com a meio-elfa enquanto
explicava sobre as propriedades da alabarda, mas o efeito não foi bem o
desejado. O grupo então pariu para almoçar na taverna e os debates sobre o
futuro voltaram. Cada um já tentava se imaginar na reconstrução da cidade. Com
o fim do almoço, cada um tomou seu rumo em busca do que mais lhe agradaria
nessa nova fase da vida.
...
2015: Noverais 8. Ela seguia por um túnel escuro,
onde não via quase nada. Mesmo com sua visão sobre-humana, a escuridão parecia
engolir qualquer fagulha de luz que aquelas criaturas produziam. Pareciam
lesmas grandes e impregnavam as cavernas. Por onde passavam, deixavam uma
secreção que luzia esverdeada na escuridão total daquele abismo desolado.
Conforme avançava, confusa, pelo túnel, começou a ouvir sons de batalha. Ela
apressou os passos, curiosa com o que se passava.
Não demorou muito para chegar até um salão natural.
Nele havia fogo e até alguns móveis rusticamente esculpidos em pedra. Ao seguir
pela nova descoberta, começou a encontrar cadáveres. O primeiro era um humano
já idoso, uma pequena machadinha de pedra nas mãos, morto com um golpe poderoso
no abdômen que havia deixado um grande buraco. Mais à frente, outros humanos e
elfos estavam mortos, todos obliterados por um único ferimento mortal, todos
com armas rústicas em mãos.
Adentrando um pouco mais o salão, ela começou a ver.
Se assustou com um corpo passando ao seu lado, jogado num giro de marreta de
uma criatura enorme de pele violeta cheia de inscrições arcanas. A criatura
parecia não notar sua presença enquanto se jogava na direção de outro elfo,
acuado num dos cantos. O coitado não teve nenhuma chance, esmagado pelo martelo
do gigante. Ele sorria e olhava em volta, procurando um novo alvo.
Mais ao fundo ela podia ouvir mais sons do massacre.
Elfos, humanos e meio-elfos morriam enquanto os gigantes brincavam com eles. A
cada pegada e palavra de deboche dos gigantes, ela tinha uma sensação de
familiaridade, mas não conseguia determinar esta razão. O salão maior estava
todo bagunçado e parecia revirado. Os gigantes estavam ali em busca de alguma
coisa. Em pouco tempo as cavernas ficaram silenciosas e os gigantes partiram,
abrindo uma espécie de portal violeta, por onde começaram a partir. O último deles,
com uma longa barba roxa, olhou em sua direção e ela tremeu no momento em que
seus olhares se encontraram.
Alanna acordou de súbito, assustada. O inverno já
castigava Scottner e ela dormia num quarto da casa que fora cedida ao grupo
enquanto estivessem na cidade. Seus membros tremiam e ela suava frio, apesar do
tempo gelado. Ao olhar para o lado, viu que as crianças já haviam se levantado
e deixado o quarto. Tentando entender o sonho, ela permanecia deitada encarando
o teto do quarto.
...
2015: Noverais 13. Arannis seguia treinando as
crianças no frio inverno de Scottner. O tempo havia ficado mais seco, mas o
frio era forte, considerando o calor que normalmente fazia na região. Eles
estavam num dos pátios de treinamento que vinham usando nos últimos tempos e as
crianças gostavam de estar ali. Mesmo quando ele não as estava treinando, era
comum ver elas ali enquanto cumpria com seus trabalhos, fosse na companhia de Lizbeth,
Amgram, Elros, Erben ou das damas de vermelho, Kathria e Yaren, com quem o
eladrin já estava bastante familiar.
No momento ele apenas supervisionava o treinamento
dos pequenos, que já não eram tão pequenos. De maneira estranha, as crianças
cresciam num ritmo bastante acelerado. Elas já tinham o tamanho de uma criança
de oito anos, apesar de terem se juntado ao grupo dez meses antes parecendo ter
cerca de cinco. Ninguém conseguia explicar aquilo e com o tempo foram se
acostumando com a ideia. O fato era que as crianças aprendiam muito bem e
absorviam cada conhecimento com facilidade. Mesmo assim, elas ainda não
falavam.
Numa das brincadeiras de sempre dos treinamentos, o bladesinger
foi até o local do treinamento e pedia para que os garotos o atacassem até
derrubá-lo. Eles iniciaram suas investidas, enquanto Elros se aproximava do
cercado da arena improvisada para observar, sinalizando positivamente com a
cabeça para cada manobra inteligente que os pupilos aplicavam. Numa delas,
Arannis foi surpreendido e derrubado pelo garoto, que caiu por cima dele com
força. Ao sentir o toque do medalhão que pendia no pescoço do garoto, ele se
sentiu estranho.
Arannis estava caminhando pela floresta animado.
Voltava da aula de magia que sempre gostara. Seus passos eram ágeis e precisos,
já acostumado com o trajeto diário para a academia. Acreditava que um dia se
tornaria um grande mago e daria orgulho aos seus pais. Ele se lembrava do
quanto admirava os arcanos desde pequeno e agora se sentia feliz em poder
seguir a mesma carreira.
Mais à frente os outros elfos brincavam. Eles
brandiam espadas e lanças de madeira, brincando de guerra como qualquer criança
gostaria. Mesmo ele, que tanto admirava a magia, gostava de brincar de guerra.
Ele acelerou o passo, queria chegar logo em casa para deixar seus livros e
voltar para a brincadeira. Acelerou tanto, que se descuidou.
Conforme ia contornando a brincadeira dos amigos,
que sorriam para ele quando passava, deixou de notar uma lança de madeira vindo
certeira em sua direção. Aparentemente o amigo, de costas para ele, não o havia
notado quando iniciara o movimento de giro de lança. Por mais que tivessem tentado
alertá-los, nenhum dos dois foi capaz de evitar o golpe.
Desnorteado, ele começou a se recuperar em alguns
segundos, caído do lado do lago. Os amigos estavam à sua volta, observando
receosos. Balançando a cabeça, ele começou a se situar novamente e já olhava em
volta em busca dos livros. Os amigos ficaram aliviados e começaram a se virar
para voltar à brincadeira quando ele estacou.
Enquanto as mãos tateavam pelos livros no chão, seu
olhar encontrou seu reflexo na água. Ele não poderia ficar mais perplexo. Quem
estava ali na sua frente não era ele. A água do lago refletia um jovem elfo de
pele escurecida pelo sol, cabelos verdes e olhos castanhos. Arannis não sabia o
que pensar. Ele olhou desesperadamente para suas mãos e seus pés, notando a
pele bronzeada que não era sua. Ele começou a entrar em desespero, então tudo
ficou molhado.
O eladrin se dera conta novamente de onde estava. A
garota estava com um balde em mãos, observando-o preocupada, enquanto o garoto
trazia Elros para perto. O meio-elfo não viu nada de anormal e apenas brincou
com o bladesinger sobre a esperteza das crianças para derrubá-lo. Os gêmeos
ficaram desconfiados, mas se voltaram ao treinamento novamente depois dos
incentivos do psiônico. Arannis se levantou, limpando o corselete e tentando
entender o que havia acabado de acontecer.
...
2015: Noverais 29. Shaisys estava sozinha em seu
quarto enquanto se preparava para dormir. Vinha ajudando nos trabalhos no
interior das muralhas com frequência. Seus trabalhos eram leves e simples,
fáceis demais se comparados com a vida que teve antes das aventuras. Ainda se
surpreendia as vezes pelo fato de finalmente ter um teto sobre a cabeça nas
noites frias de inverno. A sensação de calor costumeira se aproximava e ela
sabia que seu patrono buscava se comunicar de novo. Mais uma vez, as palavras
da criatura ecoavam em sua mente.
- Está tudo indo muito bem, minha querida, está
sim... – Sibilou a criatura.
- Conforme lhe solicitei, noto que estais a cuidar
bem daquelas crianças. Bravo! – Debochou a voz espectral. – Me aflige ainda não
saber o que são, mas hei de descobrir!
- Estás num grupo deveras interessante, minha
criança. – Ele continuava. – Alguns não sabem quem são, outros mexem com coisas
proibidas.... Sinto que irão se meter em algo grande, sim...
Uma pausa se seguiu, o calor relutante em
abandoná-la. Já aprendera que quando isto acontecia, seu patrono estava
refletindo. Sabia que deveria esperar que tomasse a palavra novamente até ser
finalmente dispensada.
- Segues com eles, sim? Fazeis o possível para
manter todos em seus rumos. As coisas em breve ficarão interessantes, se minhas
divinações estiverem corretas. Continue aproveitando a nova vida, minha
querida. Continue...
A voz ecoava em sua mente enquanto o calor se
esvaia, encerrando a conexão. O frio voltou com força, forçando a halfling a se
enrolar ainda mais nos cobertores que jaziam sobre seu corpo. Essas visitas de
seu patrono eram um tanto perturbadoras, mas era um preço muito pequeno a pagar
por uma vida digna. Só esperava que os pedidos continuassem nessa mesma proporção.
...
2015: Dezerarth 13. Gwen acordou no meio da noite
com uma nova mensagem. Como das outras vezes, uma música invadia seus sonhos e
se acoplava fundo em sua mente, lembrando-a quase que diariamente que algo
estava por vir. O mesmo sentimento de urgência e preocupação a tomava enquanto
sua mente trabalhava para juntar todas as peças da música para que fizesse
sentido.
Go
your way,
I'll
take the long way 'round,
I'll
find my own way down,
As
I should.
And
hold your gaze
There's
coke in the Midas touch
A
joke in the way that we rust,
And
breathe again.
And
you'll find loss
And
you'll fear what you found
When
weather comes
Tearing
down
There'll
be oats in the water
There'll
be birds on the ground
There'll
be things you never asked her
Oh
how they tear at you now
Idioma antigo, mais uma vez. E a situação se tornava
ainda mais urgente. Ela tinha certeza que a profecia da música anterior ainda
não se concretizara. Portanto, o mais lógico era que se tratava de algo maior,
que precisava de mais de uma música para ser anunciado. A elfa se sentou em sua
cama enquanto refletia, temerosa, sobre o que estava por vir. Precisaria
expandir ainda mais seus conhecimentos sobre a língua antiga, antes que fosse
tarde demais.
...
2015: Dezerarth 29. Malaggar ia novamente até o
ponto de comunicação da ordem. Os Mestres dos Sussurros já tinham um
representante em Scottner há seis meses e o drow seguia esperando pela
recompensa pelas suas informações. Sabia que a demora era resultado de uma
reflexão de seus superiores sobre o que lhe revelar, mas não podia deixar de
ficar ansioso.
Havia trabalhado em missões de escolta durante todo
esse tempo, fosse acompanhando os operários nas muralhas externas ou os
demarcadores que abriam as trilhas e criavam postos avançados no caminho até o
porto. Havia treinado as crianças sempre que conseguia um tempo livre a sós com
elas. A garota parecia levar bem mais jeito para seu estilo de combate, mas o
garoto era muito esforçado e fazia por merecer sua atenção. Esperava que se
tornassem sacerdotes no futuro, apesar da concorrência com as damas de
vermelho, que sempre estavam por perto. Ao chegar no local do compartimento
secreto, ficou animado ao notar que havia uma correspondência em seu nome.
“Caro irmão Malaggar, devemos dizer
que a ordem está muito satisfeita com seus serviços. Suas informações com
certeza são muito importantes e nos deixam em alerta para os tempos vindouros.
Ficamos felizes em saber que Scottner voltou a ser uma cidade civilizada e
esperamos obter toda a influência possível nela. Para isso também contamos com
sua dedicação.
Sobre seu amigo, Arthur, antigo
aluno da Universidade Centenária de Tomhills, temos algumas revelações que lhe
serão úteis. Como nos avisou, sabemos que o mesmo está ausente da cidade nos
últimos meses, mas nossos informantes revelam que em breve ele se juntará a seu
grupo novamente para um novo trabalho.
Pesquisamos em nosso acervo sobre o
que acontece com ele e chegamos à conclusão de que ele está se convertendo a
uma religião proibida. Sacerdotes azuis viveram em nossa ilha antes da queimada
das bibliotecas, mas foram caçados e mortos. Os que sobreviveram, eventualmente
se separaram de sua fé no deus perdido.
O azul representava o Lorde das
Tempestades e Senhor da Vingança. Seu culto foi exterminado e nós ficamos
perplexos ao notar que alguém está o revivendo. Talvez tenhamos sido
descuidados demais ao não notar que este culto jamais morreu, ou seu amigo está
sob influência de alguém que detém um conhecimento muito além do que uma pessoa
comum deveria ter. Em ambos os casos, fique de olho e aja com cautela. Quase
ninguém sabe dos azuis e é melhor que continue assim até termos certeza de onde
estamos pisando. Que o Lorde Estelar guie seus passos.
A noite é nosso campo de batalha. As
sombras, nossa armadura. E os segredos, nossas armas. ”
Intrigado, o drow releu a carta pelo menos três
vezes antes de finalmente queimá-la. O poder de um segredo trazia uma sensação
de euforia que ele não experimentava havia bastante tempo. Animado com o que
acabara de descobrir, fez o reporte normal que se esperava dele. Deixou o
compartimento secreto no armazém da cidade e caminhou a passos largos para a
casa onde vivia com os outros membros do grupo. Arthur ficava cada vez mais
interessante e ele já conseguia vislumbrar um cargo maior na ordem.
...
2016: Janasys 8. Arthur estaria novamente em
Scottner em poucas horas. Havia passado os últimos seis meses em Porto Baixo, o
posto avançado na nascente do rio Baixo, que acabou virando um vilarejo. Lá os
suprimentos iam e vinham de e para a cidade recém reconquistada. Todo esse
tempo vivendo num lugar onde ninguém o conhecia havia sido bastante útil.
Conforme havia prometido, Celi transformou ele em um
paladino. Como nada era de graça, ele acabou perdendo várias coisas de sua vida
anterior. Pouco se lembrava das matérias que estudou na universidade em
Tomhills e quase nada de seus métodos de rastreamento e sobrevivência na
natureza pareciam familiares agora. A entidade sempre dissera que ele deveria
perder aqueles costumes bárbaros em busca da verdadeira iluminação e ele ainda
se surpreendia em como ela conseguira fazer isso.
Sua armadura já não estava reluzente como costumava
manter, mas ainda estava apresentável. Seu cinto mágico prendia um tabardo azul
e liso, sem nenhum símbolo, incomum para os paladinos. Não era membro de
nenhuma ordem e, apesar de ser disciplinado e doutrinado pela companheira
incomum, ainda se sentia um pouco perdido sobre sua divindade. Sua mente já
havia sido forjada para o culto, dizia Celi, mas ele ainda tinha dúvidas.
Entorpecido pelo cavalgar suave enquanto acompanhava um dos carregamentos de
aveia para a cidade, sentiu que ela buscava comunicação.
- Certo Arthur, acho que depois de tanto tempo, preciso
ser mais específica com você. – A entidade admitiu, num tom conciliador. – Você
deve evitar falar de sua fé, pois se trata de uma fé proibida. As pessoas
deixaram de cultuar o nosso deus há muitos séculos, perdidas em sua ignorância
sem fim.
- Somos devotos do Lorde das Tempestades, do grande
Senhor da Vingança. Vivemos como a tempestade, da calmaria à catástrofe furiosa
em segundos. Nós lutamos por glória, buscamos a maestria no que fazemos e temos
tantas facetas quanto o clima que nosso senhor comanda. Sempre defenda sua
honra, vingue-se daqueles que lhe fazem mal e faça seu grito de batalha ecoar
como o trovão que antecipa a tempestade.
- Tenha orgulho da cor azul, que é o grande símbolo
de sua fé. O lobo é outro símbolo de nossa religião esquecida, feroz e ardiloso
nas florestas, esperando por suas presas. Nunca deixe de lutar. - Um arrepio percorreu
sua espinha, enquanto uma brisa agitava seus cabelos, agora azuis por causa da
mutação.
- Saiba que, a partir de hoje, você é mais um raio
na tempestade, o prenúncio da destruição. Você é o lobo que comanda a matilha,
o mestre da batalha que regozija em glória por cada oponente destruído por seu
machado. A partir de hoje, seu senhor supremo e absoluto é Thoriann, o Lorde
das Tempestades.
A minha parte estou um pouco confuso e tentando entender.
ResponderExcluirA parte do Arthur, Malaggar e da Alanna ficaram mto top!
Algumas coisas não entendi, mais deixo a critério do mestre. Ansioso para a próxima!!