“A floresta que cerca Scottner tem uma grande
extensão e curiosamente nunca recebeu um nome. Aparentemente, os antigos
habitantes viam a floresta como parte da cidade, por isso não sentiam
necessidade de atribuir um nome a ela. De fato, ela sempre foi de grande
importância para a economia e o sustento do povo local, apesar dos perigos que
esconde em sua infinidade verde.
Quente e úmida, a floresta propicia uma
variedade grande de animais para a caça. Javalis, cervos, lebres, cobras, jacarés
e mais uma infinidade de aves e peixes são encontrados em seu território. A
caça é abundante e dificilmente alguém competente passaria fome por lá. Além
disso, a diversidade da flora também é muito maior que a das outras florestas
da ilha, indicando que o solo da região é propício ao cultivo de quase qualquer
coisa. Em tempos antigos, os arredores da cidade eram usados para plantar
variados frutos, que eram exportados para as outras cidades e giravam um
capital muito grande.
Outro mercado onde a cidade era forte era o
mercado de peles. Com a grande diversidade da fauna local, é muito comum
conseguir peles e couros de grande qualidade, exportando para as outras cidades
e tendo por muito tempo sendo reconhecido como o melhor couro possível da ilha.
Por muito tempo acreditava-se que uma ou outra tribo que habitava a floresta
até negociasse com os habitantes, fornecendo bens ainda mais exóticos
encontrados só na parte mais profunda da floresta. ”
- Oghren
Thorgaard, em “A Era Moderna”.
Capítulo 7
O grupo amanheceu no posto avançado na nascente do rio
Baixo e tratou de se preparar para a viagem que tinha pela frente. Sem muita
conversa eles se colocaram a caminhar o quanto antes. Elros, além da pesada
mochila nas costas, ainda puxava o baú de Scott. A presença das crianças era
outro fator que atrasava o grupo, acostumado a viajar leve e mais rápido.
Arthur seguia tomando suas misturas ao mando de Celi e atraindo a atenção de
alguns dos membros do grupo. Gwen caçava todos os dias, sempre trazendo
alimento para todos.
Na primeira noite, após o tempo de transe que
precisavam para recuperar as forças, Arannis e as crianças se afastaram para
treinar, seguidos por Malaggar. O drow permaneceu escondido por algum tempo
observando as instruções do eladrin e notava que as crianças realmente
aprendiam as coisas. Em alguns meses elas já conseguiam segurar uma arma de
maneira adequada e conseguiam repetir um ou outro movimento com precisão.
- Pode vir aqui se quiser. – Arannis se divertiu com
o vingador escondido.
- Não, obrigado. – Desconversou o drow.
- É só um treinamento.
- Certo. Eu vou voltar para vigiar o acampamento. – Malaggar
justificou antes de voltar, contrariado.
Lá ele notou que o patrulheiro continuava fazendo
movimentos estranhos e repetitivos enquanto dormia. Ele se aproximava, rodeava
e testava sua percepção, mas nada acontecia. Se lembrava que algumas horas
antes Arannis até tentara jogar uma pedra pequena nele e nada acontecera. O
humano realmente estava inconsciente e alheio ao que acontecia à sua volta.
...
O segundo dia depois do desembarque seguiu como o
primeiro. O calor da região em pleno verão incomodava um pouco e Elros mais os
gêmeos seguiam atrasando o ritmo do grupo. O baú era grande e desajeitado,
criava sulcos no solo por onde era arrastado e parecia bastante pesado aos
olhos de todos. O meio-elfo, coberto de armadura e com o escudo nas costas, se
sentia extremamente aliviado quando paravam para comer e depois para acampar,
encharcado de suor e com a pele irritadiça pelo sol que castigava o grupo.
As crianças também sentiam bastante o peso da
viagem. Não estavam acostumadas a andar tanto e num terreno tão difícil. Sua
interação com Arannis ou Alanna, com quem costumavam passar a maior parte do
tempo, se tornara escassa. Eles aproveitavam cada brecha que tinham para se
sentar e tomar água. Arthur continuava com dores e espasmos musculares devido
às misturas que vinha tomando, observado de perto pelos companheiros.
Scott também se cansava facilmente, claramente
desacostumado com tamanho esforço. Ele normalmente conversava com frequência,
sempre interessado e amigável, mas agora também tinha um semblante sombrio. O
calor minava a força de todos e a umidade deixava todos fedendo a suor. A
mochila pesada às costas só piorava o humor do nobre, que não pensava duas
vezes em soltar sua carga no chão cada vez que o grupo fazia uma pausa para que
Gwen saísse para caçar.
Naquela segunda noite todos comeram um cervo que a
elfa caçou e preparou, arrancando elogios. Estavam tão cansados de comer ração
de viagem que a carne das caças acabava sendo um dos poucos pontos altos da
viagem. As crianças, principalmente, comiam até não poder mais, felizes por se
livrar do gosto neutro da ração que Arannis lhes dava. A carne animava até
Scott durante as refeições e ele conseguia dormir um pouco mais disposto com a
viagem, apesar do trajeto sempre minar esse ânimo durante o dia.
Durante a madrugada, o eladrin treinou os gêmeos
novamente depois de seu período de descanso enquanto Malaggar vigiava o
acampamento. Arthur continuava com seu sonambulismo e isso ia refletindo
durante o dia, quando ele passava a maior parte do tempo cansado e indisposto.
O drow notava que a cada noite seus movimentos mudavam, mas não conseguia
entende-los como entendia a questão das ervas. Sabia que ele estava modificando
seu metabolismo para a energia divina, mas os movimentos eram diferentes. Pelo
menos um vingador ele provavelmente não se tornaria.
...
Na manhã seguinte o grupo se preparava para iniciar
mais um dia de jornada. Elros, que dormia usando o baú como apoio, levantava
cheio de dores e fazia alongamentos para tentar melhorar. O fato de dormir com
armadura também atrapalhava bastante. O restante do grupo conseguia dormir de
maneira um pouco mais confortável, exceto por Arthur, que parecia não ter
descansado absolutamente nada. Cada dia ele se sentia mais cansado.
- Eu poderia lhe ajudar a carregar o baú. – Se ofereceu
Alanna.
- Eu agradeceria. – Se animou Elros.
- Posso levar a mochila? – Arannis se aproximou.
- Claro. – O meio-elfo entregou a carga.
- Você acha mesmo necessário dormir de armadura? – O
eladrin comentava enquanto pegava a mochila e ajeitava no seu corpo.
- Colocar de novo leva muito tempo. – Respondeu o
meio-elfo, puxando as correntes que prendiam o baú e olhando para a ardent.
- Você vai se cansar muito mais assim. Ninguém
reclamaria se você levasse um tempinho a mais para colocar a armadura.
- Obrigado pela preocupação, mas assim é melhor. Eu
também quero chegar logo à cidade, ficar atrasando o grupo todos os dias não
parece uma boa perspectiva.
- Você é quem sabe. – Concluiu o bladesinger antes
de se aproximar das crianças para retomar a viagem.
Depois desse rápido diálogo todos seguiram a
caminhada e o dia foi como todos os outros. Calor, cansaço e muita
transpiração. Ânimo renovado com a comida caçada e preparada pela elfa, mesmo
quando ela errava um pouco na preparação. Para a sorte de todos, uma chuva fina
caiu no meio da tarde, aliviando o tempo quente e refrescando o dia. Já na
pausa para a janta o grupo notou que estava bem próximo da entrada para a
floresta e levantou acampamento em sua borda. Os treinamentos madrugada afora
continuaram enquanto a maioria do grupo descansava.
...
Entrar na floresta definitivamente complicou as
coisas no sentido da progressão. A garoa, fraca, mas constante, já começava a
incomodar a todos. Gwen havia desistido de caçar na floresta, insegura devido
aos perigos que o verde da mata escondia. Por mais que estivesse acostumada à
vida silvestre, sabia que se fosse pega por alguma tribo da floresta
provavelmente não teria chances de escapar. De volta à ração o ânimo de todos
afundava, como suas botas na lama que se formava no solo úmido do caminho que
traçavam.
Este primeiro dia na floresta serviu para mostrar
que a viagem seria ainda mais cansativa, devido ao terreno de difícil locomoção.
As crianças com frequência precisavam de ajuda com alguns obstáculos e arrastar
o baú pelo solo acidentado se provou bastante exaustivo. A chuva ainda servia
para amenizar o calor, mas até seu som começava a irritar o grupo. Todos caminhavam
pela tarde torcendo para que a elfa voltasse a caçar e lhes trouxesse pelo
menos mais carne.
Durante a noite, nada mais de treinamentos. Eles
acenderam uma fogueira que tentavam proteger da chuva com o que tinham, mas
ajudava a amenizar o desconforto da água que pingava e escorria por seus corpos
e equipamentos. Arannis, sem precisar treinar as crianças, acabou ficando em
vigia com Malaggar. Os pequenos, vendo graça nos movimentos de Arthur, se
colocavam ao seu lado e ficavam imitando-o com um sorriso no rosto.
...
O quinto dia desde o desembarque também foi molhado
e cansativo. Dessa vez Gwen acabou arriscando sair para caçar e todos se
sentiram gratos por isso. Um javali foi o prato do dia, bem preparado com os
temperos e ervas naturais encontrados na própria floresta. Mais uma vez se
deliciaram e os ânimos voltaram a subir. Não só estavam comendo bem como já
estavam bem próximos de seu destino.
O baú ainda era um problema sério. As raízes
constantes e em grande número atrapalhavam demais a locomoção do grupo. Elros e
Alanna se esforçavam bastante para conseguir arrastá-lo por sobre os obstáculos,
mas não era incomum Scott acabar dando uma força em uma raiz ou outra que
insistia em se enroscar. As crianças seguiam no meio do grupo um pouco
impressionadas com o tamanho de algumas árvores. A novidade do lugar fez bem a
elas.
A noite chegou tranquila e o grupo conseguiu
descansar tão bem quanto a chuva permitia. Elros ainda se esparramava ao lado
do baú de armadura e tudo enquanto os outros se ajeitavam sob as árvores em
busca de cobertura. As chamas da fogueira eram tímidas por causa da água, mas
ela estava razoavelmente protegida, por isso vivia. O patrulheiro seguia com
seus exercícios esquisitos enquanto as crianças tomavam algum tempo para
imitá-lo com deboche, arrancando risos de Arannis.
...
O sexto dia seguia como o quinto, até que algumas
horas depois do almoço o grupo conseguiu ouvir movimentações ao seu redor. A
chuva havia dado uma pausa, mas o solo ainda estava bastante lamacento e as
folhas das árvores ainda pingavam por toda floresta. Ao notar o barulho, Gwen
fez um sinal que colocou todos em alerta. As crianças e Scott foram deslocados
para o centro do grupo, juntos do baú, e todos sacaram suas armas apreensivos.
Em meio à vegetação, o grupo começou a avistar
hobgoblins. Suas peles eram avermelhadas, suas faces eram semelhantes à de primatas
com grandes presas se destacando. Seus olhos amarelos encaravam o grupo com uma
intenção assassina bem inerente à raça, adepta da carnificina e crente em sua
superioridade racial. Pouco a pouco eles iam se posicionando ao redor do grupo,
que entrava numa formação circular de defesa em volta do baú e seus protegidos.
Seis dos hobgoblins vestiam armaduras surradas de
couro e se aproximavam cautelosos com escudos pesados de madeira e espadas
longas em mãos. Outros dois hobgoblins eram mais esguios que estes e tinham um
olhar mais concentrado. Vestiam as mesmas armaduras de couro e traziam suas
espadas longas presas à cintura. Nas mãos, um arco longo cada, onde já
preparavam as flechas que traziam da aljava nas costas. Mais fortes e robustos,
outros dois hobgoblins pareciam mais agressivos, cobertos por uma armadura de
escamas de metal, escondendo-se atrás de seus escudos enquanto giravam um
mangual. Havia ainda um provável líder, maior que seus comparsas, coberto de
metal em forma de escamas. Ele também trazia um escudo de madeira com as bordas
de metal enquanto apontava sua lança curta para o grupo.
Preparados para o combate, Gwen e Arthur iniciaram a
ação. A elfa disparou contra um dos seis hobgoblins que traziam espadas longas,
atravessando seu pescoço. O humano rapidamente se colocou à frente de uma das
criaturas com mangual, acertando-a com uma rápida cutilada enquanto o segundo
machado passava reto. Elros avançou para interceptar o líder dos goblinoides,
estacando à sua frente e o desafiando batendo seu martelo contra o escudo
pesado de metal. As cinco criaturas de espada longa atacaram com vontade,
tirando sangue de alguns membros do grupo, que faziam o possível para
contra-atacar.
Shaisys aproveitou-se da confusão para disparar
contra o hobgoblin de mangual que sobrara, acertando-o com sua energia negra
enquanto os arqueiros disparavam de uma posição recuada, suas flechas nas
direções de Malaggar e Gwen. O drow então avançou, marcando o arqueiro próximo
enquanto usava seu machado para empurra-lo para trás, acompanhando seu
movimento para que o separasse do combate.
O líder dos hobgoblins avançou contra o meio-elfo, vendo
sua lança ser defletida pelo pesado escudo de metal enquanto uma energia
psíquica envolvia o corpo do psiônico para protege-lo dos próximos ataques.
Alanna aproveitou a distração de uma das criaturas para golpear com sua
alabarda, decepando sua cabeça com facilidade. Os hobgoblins de mangual também
avançaram, um errando seu ataque em Arthur enquanto o outro atingia Shaisys num
rápido giro da arma. Arannis aproveitava a proximidade de um dos inimigos para
tentar golpeá-lo, mas viu sua espada parar num escudo de madeira.
A ação seguia feroz, os hobgoblins mais fracos sendo
abatidos rapidamente enquanto os arqueiros e soldados lutavam sem descanso. As
crianças se encolhiam atrás do baú sem tirar os olhos da batalha, vibrando a
cada criatura derrotada. Scott observava de maneira tranquila ao lado das
crianças, a batalha sendo mantida longe deles, confiante na vitória do grupo.
Gwen seguia trocando flechas com um dos arqueiros enquanto o outro era acuado e
fazia o possível para se livrar do machado impiedoso do drow. Arthur cravava
seus machados nos inimigos que circulavam em sua volta enquanto evitava o
mangual de seu desafiante.
Shaisys havia sido acuada por duas das criaturas,
até que Arannis prestou auxílio, lançando fogo num de seus agressores depois de
fazer sua espada cantante cortar fundo na pele do líder do bando inimigo, que
seguia num duelo burocrático com Elros. A ardent seguia próxima aos protegidos,
atacando as criaturas que se aproximavam para então avançar e ajudar a seeker
contra o arqueiro esguio. Nesse ritmo a batalha seguia impressionando os
gêmeos, principalmente quando os arqueiros e soldados caíram, deixando apenas o
líder de pé, cercado por adversários.
Elros havia sido pressionado pelo inimigo, mas os
poderes de Alanna recuperaram sua força enquanto Arannis e Arthur se
aproximavam para ajudar a derrubá-lo. Apesar do poder físico, a falta de seus
companheiros pesou e sem uso para seu senso de liderança, ele acabou caindo depois
de alguns golpes do grupo. Mais um combate chegava ao fim, dessa vez sem
grandes complicações. A maioria deles havia sobrevivido sem grandes ferimentos,
exceto por Shaisys e Malaggar, além do próprio Elros, que já havia se
recuperado em meio à batalha.
Todos se sentaram em volta do baú depois do combate,
descansando e recuperando o ânimo. Extasiados, os gêmeos corriam pelo campo de
batalha olhando os cadáveres das criaturas enquanto o grupo trocava olhares de
cumplicidade e confiança. O pequeno garoto se aproximou de um dos inimigos
caídos e o chutava, divertindo-se. Arannis foi até ele e apontou para o corpo.
- Isso é escória. Merece a morte. – Disse com
autoridade.
...
Sentado um pouco mais afastado do grupo, como era
seu costume, Malaggar viu a garota se aproximando e observando seu machado com
grande interesse. Ela o rodeava enquanto o drow observava interessado. Ela
ameaçava tocar a arma, mas hesitava e voltava a encarar o vingador, que ficava
um pouco desconsertado, sem saber como agir.
- Você gostou? – Ele perguntou, notando a resposta
positiva gestual dela.
- Quer aprender a usar? – Mais uma vez ela respondeu
que sim.
- Certo. Vou lhe ensinar quando ninguém mais estiver
olhando. Vai ser nosso segredo, certo?
A garota sorriu e concordou com o drow. Alegre, ela
se afastou saltitando, aproximando-se de Alanna, que estava próxima de Elros
encarando-o. A chegada da garota a fez questionar por onde ela havia andado até
então. Ninguém do grupo parecia ter notado sua ausência, então a ardent
descartou a preocupação e aconchegou a pequena eladrin junto a si enquanto
esperavam que todos estivessem dispostos a retomar a caminhada.
...
Mais um dia havia se passado e quando se aproximava
a hora do almoço, as muralhas da cidade surgiram no horizonte verde. O ânimo
atingiu seu ápice conforme todos apertavam os passos para enfim terminar sua
jornada e poder descansar. Todos exigiam mais e mais de seus corpos, mal podiam
esperar para encontrar uma boa comida e um pouco de conforto. Conforme se
aproximavam, conseguiram sentir o cheiro de comida e logo atravessaram um dos
portões da cidade.
- Vocês estão convidados para um jantar na mansão.
Conto com a presença de vocês. – Sorriu Scott.
O nobre então partiu, enquanto Elros pegava a outra
mochila com Arannis e voltou a arrastar o baú sozinho, acompanhando o patrão
deles. Eles viram que a cidade já estava começando a ser reconstruída, havia
recebido suprimentos e tinha até uma taverna improvisada. Algumas casas
começavam a ser levantadas pelo trabalho e se dirigiam para a taverna, enquanto
Arannis oferecia às crianças a chance de ir brincar no rio, facilmente
descartada devido ao cansaço dos pequenos. O grupo se reuniu em torno de uma
das mesas e finalmente poderia descansar.
Rick a introdução me deu uma ideia para falar com Scott no jantar, claro que eu acho que essa ideia ele ja deve ter em mente, mais não custa tentar.
ResponderExcluirUltimo golpe no lider foi meu, mais errei 70% dos meus ataques, também tenho que falar com o grupo.
Palavras de Arannis: Obrigado minha Deusa Fleara, pelas nossas vitórias, pelas proteções em combate não so minha mais de todo meu grupo, que continue me protegendo e saiba que minhas espadas são suas!!