quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ato I: A Reconquista VII

“A floresta que cerca Scottner tem uma grande extensão e curiosamente nunca recebeu um nome. Aparentemente, os antigos habitantes viam a floresta como parte da cidade, por isso não sentiam necessidade de atribuir um nome a ela. De fato, ela sempre foi de grande importância para a economia e o sustento do povo local, apesar dos perigos que esconde em sua infinidade verde.
Quente e úmida, a floresta propicia uma variedade grande de animais para a caça. Javalis, cervos, lebres, cobras, jacarés e mais uma infinidade de aves e peixes são encontrados em seu território. A caça é abundante e dificilmente alguém competente passaria fome por lá. Além disso, a diversidade da flora também é muito maior que a das outras florestas da ilha, indicando que o solo da região é propício ao cultivo de quase qualquer coisa. Em tempos antigos, os arredores da cidade eram usados para plantar variados frutos, que eram exportados para as outras cidades e giravam um capital muito grande.
Outro mercado onde a cidade era forte era o mercado de peles. Com a grande diversidade da fauna local, é muito comum conseguir peles e couros de grande qualidade, exportando para as outras cidades e tendo por muito tempo sendo reconhecido como o melhor couro possível da ilha. Por muito tempo acreditava-se que uma ou outra tribo que habitava a floresta até negociasse com os habitantes, fornecendo bens ainda mais exóticos encontrados só na parte mais profunda da floresta. ”
- Oghren Thorgaard, em “A Era Moderna”.

Capítulo 7

O grupo amanheceu no posto avançado na nascente do rio Baixo e tratou de se preparar para a viagem que tinha pela frente. Sem muita conversa eles se colocaram a caminhar o quanto antes. Elros, além da pesada mochila nas costas, ainda puxava o baú de Scott. A presença das crianças era outro fator que atrasava o grupo, acostumado a viajar leve e mais rápido. Arthur seguia tomando suas misturas ao mando de Celi e atraindo a atenção de alguns dos membros do grupo. Gwen caçava todos os dias, sempre trazendo alimento para todos.
Na primeira noite, após o tempo de transe que precisavam para recuperar as forças, Arannis e as crianças se afastaram para treinar, seguidos por Malaggar. O drow permaneceu escondido por algum tempo observando as instruções do eladrin e notava que as crianças realmente aprendiam as coisas. Em alguns meses elas já conseguiam segurar uma arma de maneira adequada e conseguiam repetir um ou outro movimento com precisão.
- Pode vir aqui se quiser. – Arannis se divertiu com o vingador escondido.
- Não, obrigado. – Desconversou o drow.
- É só um treinamento.
- Certo. Eu vou voltar para vigiar o acampamento. – Malaggar justificou antes de voltar, contrariado.
Lá ele notou que o patrulheiro continuava fazendo movimentos estranhos e repetitivos enquanto dormia. Ele se aproximava, rodeava e testava sua percepção, mas nada acontecia. Se lembrava que algumas horas antes Arannis até tentara jogar uma pedra pequena nele e nada acontecera. O humano realmente estava inconsciente e alheio ao que acontecia à sua volta.

...

O segundo dia depois do desembarque seguiu como o primeiro. O calor da região em pleno verão incomodava um pouco e Elros mais os gêmeos seguiam atrasando o ritmo do grupo. O baú era grande e desajeitado, criava sulcos no solo por onde era arrastado e parecia bastante pesado aos olhos de todos. O meio-elfo, coberto de armadura e com o escudo nas costas, se sentia extremamente aliviado quando paravam para comer e depois para acampar, encharcado de suor e com a pele irritadiça pelo sol que castigava o grupo.
As crianças também sentiam bastante o peso da viagem. Não estavam acostumadas a andar tanto e num terreno tão difícil. Sua interação com Arannis ou Alanna, com quem costumavam passar a maior parte do tempo, se tornara escassa. Eles aproveitavam cada brecha que tinham para se sentar e tomar água. Arthur continuava com dores e espasmos musculares devido às misturas que vinha tomando, observado de perto pelos companheiros.
Scott também se cansava facilmente, claramente desacostumado com tamanho esforço. Ele normalmente conversava com frequência, sempre interessado e amigável, mas agora também tinha um semblante sombrio. O calor minava a força de todos e a umidade deixava todos fedendo a suor. A mochila pesada às costas só piorava o humor do nobre, que não pensava duas vezes em soltar sua carga no chão cada vez que o grupo fazia uma pausa para que Gwen saísse para caçar.
Naquela segunda noite todos comeram um cervo que a elfa caçou e preparou, arrancando elogios. Estavam tão cansados de comer ração de viagem que a carne das caças acabava sendo um dos poucos pontos altos da viagem. As crianças, principalmente, comiam até não poder mais, felizes por se livrar do gosto neutro da ração que Arannis lhes dava. A carne animava até Scott durante as refeições e ele conseguia dormir um pouco mais disposto com a viagem, apesar do trajeto sempre minar esse ânimo durante o dia.
Durante a madrugada, o eladrin treinou os gêmeos novamente depois de seu período de descanso enquanto Malaggar vigiava o acampamento. Arthur continuava com seu sonambulismo e isso ia refletindo durante o dia, quando ele passava a maior parte do tempo cansado e indisposto. O drow notava que a cada noite seus movimentos mudavam, mas não conseguia entende-los como entendia a questão das ervas. Sabia que ele estava modificando seu metabolismo para a energia divina, mas os movimentos eram diferentes. Pelo menos um vingador ele provavelmente não se tornaria.

...

Na manhã seguinte o grupo se preparava para iniciar mais um dia de jornada. Elros, que dormia usando o baú como apoio, levantava cheio de dores e fazia alongamentos para tentar melhorar. O fato de dormir com armadura também atrapalhava bastante. O restante do grupo conseguia dormir de maneira um pouco mais confortável, exceto por Arthur, que parecia não ter descansado absolutamente nada. Cada dia ele se sentia mais cansado.
- Eu poderia lhe ajudar a carregar o baú. – Se ofereceu Alanna.
- Eu agradeceria. – Se animou Elros.
- Posso levar a mochila? – Arannis se aproximou.
- Claro. – O meio-elfo entregou a carga.
- Você acha mesmo necessário dormir de armadura? – O eladrin comentava enquanto pegava a mochila e ajeitava no seu corpo.
- Colocar de novo leva muito tempo. – Respondeu o meio-elfo, puxando as correntes que prendiam o baú e olhando para a ardent.
- Você vai se cansar muito mais assim. Ninguém reclamaria se você levasse um tempinho a mais para colocar a armadura.
- Obrigado pela preocupação, mas assim é melhor. Eu também quero chegar logo à cidade, ficar atrasando o grupo todos os dias não parece uma boa perspectiva.
- Você é quem sabe. – Concluiu o bladesinger antes de se aproximar das crianças para retomar a viagem.
Depois desse rápido diálogo todos seguiram a caminhada e o dia foi como todos os outros. Calor, cansaço e muita transpiração. Ânimo renovado com a comida caçada e preparada pela elfa, mesmo quando ela errava um pouco na preparação. Para a sorte de todos, uma chuva fina caiu no meio da tarde, aliviando o tempo quente e refrescando o dia. Já na pausa para a janta o grupo notou que estava bem próximo da entrada para a floresta e levantou acampamento em sua borda. Os treinamentos madrugada afora continuaram enquanto a maioria do grupo descansava.

...

Entrar na floresta definitivamente complicou as coisas no sentido da progressão. A garoa, fraca, mas constante, já começava a incomodar a todos. Gwen havia desistido de caçar na floresta, insegura devido aos perigos que o verde da mata escondia. Por mais que estivesse acostumada à vida silvestre, sabia que se fosse pega por alguma tribo da floresta provavelmente não teria chances de escapar. De volta à ração o ânimo de todos afundava, como suas botas na lama que se formava no solo úmido do caminho que traçavam.
Este primeiro dia na floresta serviu para mostrar que a viagem seria ainda mais cansativa, devido ao terreno de difícil locomoção. As crianças com frequência precisavam de ajuda com alguns obstáculos e arrastar o baú pelo solo acidentado se provou bastante exaustivo. A chuva ainda servia para amenizar o calor, mas até seu som começava a irritar o grupo. Todos caminhavam pela tarde torcendo para que a elfa voltasse a caçar e lhes trouxesse pelo menos mais carne.
Durante a noite, nada mais de treinamentos. Eles acenderam uma fogueira que tentavam proteger da chuva com o que tinham, mas ajudava a amenizar o desconforto da água que pingava e escorria por seus corpos e equipamentos. Arannis, sem precisar treinar as crianças, acabou ficando em vigia com Malaggar. Os pequenos, vendo graça nos movimentos de Arthur, se colocavam ao seu lado e ficavam imitando-o com um sorriso no rosto.

...

O quinto dia desde o desembarque também foi molhado e cansativo. Dessa vez Gwen acabou arriscando sair para caçar e todos se sentiram gratos por isso. Um javali foi o prato do dia, bem preparado com os temperos e ervas naturais encontrados na própria floresta. Mais uma vez se deliciaram e os ânimos voltaram a subir. Não só estavam comendo bem como já estavam bem próximos de seu destino.
O baú ainda era um problema sério. As raízes constantes e em grande número atrapalhavam demais a locomoção do grupo. Elros e Alanna se esforçavam bastante para conseguir arrastá-lo por sobre os obstáculos, mas não era incomum Scott acabar dando uma força em uma raiz ou outra que insistia em se enroscar. As crianças seguiam no meio do grupo um pouco impressionadas com o tamanho de algumas árvores. A novidade do lugar fez bem a elas.
A noite chegou tranquila e o grupo conseguiu descansar tão bem quanto a chuva permitia. Elros ainda se esparramava ao lado do baú de armadura e tudo enquanto os outros se ajeitavam sob as árvores em busca de cobertura. As chamas da fogueira eram tímidas por causa da água, mas ela estava razoavelmente protegida, por isso vivia. O patrulheiro seguia com seus exercícios esquisitos enquanto as crianças tomavam algum tempo para imitá-lo com deboche, arrancando risos de Arannis.

...

O sexto dia seguia como o quinto, até que algumas horas depois do almoço o grupo conseguiu ouvir movimentações ao seu redor. A chuva havia dado uma pausa, mas o solo ainda estava bastante lamacento e as folhas das árvores ainda pingavam por toda floresta. Ao notar o barulho, Gwen fez um sinal que colocou todos em alerta. As crianças e Scott foram deslocados para o centro do grupo, juntos do baú, e todos sacaram suas armas apreensivos.
Em meio à vegetação, o grupo começou a avistar hobgoblins. Suas peles eram avermelhadas, suas faces eram semelhantes à de primatas com grandes presas se destacando. Seus olhos amarelos encaravam o grupo com uma intenção assassina bem inerente à raça, adepta da carnificina e crente em sua superioridade racial. Pouco a pouco eles iam se posicionando ao redor do grupo, que entrava numa formação circular de defesa em volta do baú e seus protegidos.
Seis dos hobgoblins vestiam armaduras surradas de couro e se aproximavam cautelosos com escudos pesados de madeira e espadas longas em mãos. Outros dois hobgoblins eram mais esguios que estes e tinham um olhar mais concentrado. Vestiam as mesmas armaduras de couro e traziam suas espadas longas presas à cintura. Nas mãos, um arco longo cada, onde já preparavam as flechas que traziam da aljava nas costas. Mais fortes e robustos, outros dois hobgoblins pareciam mais agressivos, cobertos por uma armadura de escamas de metal, escondendo-se atrás de seus escudos enquanto giravam um mangual. Havia ainda um provável líder, maior que seus comparsas, coberto de metal em forma de escamas. Ele também trazia um escudo de madeira com as bordas de metal enquanto apontava sua lança curta para o grupo.
Preparados para o combate, Gwen e Arthur iniciaram a ação. A elfa disparou contra um dos seis hobgoblins que traziam espadas longas, atravessando seu pescoço. O humano rapidamente se colocou à frente de uma das criaturas com mangual, acertando-a com uma rápida cutilada enquanto o segundo machado passava reto. Elros avançou para interceptar o líder dos goblinoides, estacando à sua frente e o desafiando batendo seu martelo contra o escudo pesado de metal. As cinco criaturas de espada longa atacaram com vontade, tirando sangue de alguns membros do grupo, que faziam o possível para contra-atacar.
Shaisys aproveitou-se da confusão para disparar contra o hobgoblin de mangual que sobrara, acertando-o com sua energia negra enquanto os arqueiros disparavam de uma posição recuada, suas flechas nas direções de Malaggar e Gwen. O drow então avançou, marcando o arqueiro próximo enquanto usava seu machado para empurra-lo para trás, acompanhando seu movimento para que o separasse do combate.
O líder dos hobgoblins avançou contra o meio-elfo, vendo sua lança ser defletida pelo pesado escudo de metal enquanto uma energia psíquica envolvia o corpo do psiônico para protege-lo dos próximos ataques. Alanna aproveitou a distração de uma das criaturas para golpear com sua alabarda, decepando sua cabeça com facilidade. Os hobgoblins de mangual também avançaram, um errando seu ataque em Arthur enquanto o outro atingia Shaisys num rápido giro da arma. Arannis aproveitava a proximidade de um dos inimigos para tentar golpeá-lo, mas viu sua espada parar num escudo de madeira.
A ação seguia feroz, os hobgoblins mais fracos sendo abatidos rapidamente enquanto os arqueiros e soldados lutavam sem descanso. As crianças se encolhiam atrás do baú sem tirar os olhos da batalha, vibrando a cada criatura derrotada. Scott observava de maneira tranquila ao lado das crianças, a batalha sendo mantida longe deles, confiante na vitória do grupo. Gwen seguia trocando flechas com um dos arqueiros enquanto o outro era acuado e fazia o possível para se livrar do machado impiedoso do drow. Arthur cravava seus machados nos inimigos que circulavam em sua volta enquanto evitava o mangual de seu desafiante.
Shaisys havia sido acuada por duas das criaturas, até que Arannis prestou auxílio, lançando fogo num de seus agressores depois de fazer sua espada cantante cortar fundo na pele do líder do bando inimigo, que seguia num duelo burocrático com Elros. A ardent seguia próxima aos protegidos, atacando as criaturas que se aproximavam para então avançar e ajudar a seeker contra o arqueiro esguio. Nesse ritmo a batalha seguia impressionando os gêmeos, principalmente quando os arqueiros e soldados caíram, deixando apenas o líder de pé, cercado por adversários.
Elros havia sido pressionado pelo inimigo, mas os poderes de Alanna recuperaram sua força enquanto Arannis e Arthur se aproximavam para ajudar a derrubá-lo. Apesar do poder físico, a falta de seus companheiros pesou e sem uso para seu senso de liderança, ele acabou caindo depois de alguns golpes do grupo. Mais um combate chegava ao fim, dessa vez sem grandes complicações. A maioria deles havia sobrevivido sem grandes ferimentos, exceto por Shaisys e Malaggar, além do próprio Elros, que já havia se recuperado em meio à batalha.
Todos se sentaram em volta do baú depois do combate, descansando e recuperando o ânimo. Extasiados, os gêmeos corriam pelo campo de batalha olhando os cadáveres das criaturas enquanto o grupo trocava olhares de cumplicidade e confiança. O pequeno garoto se aproximou de um dos inimigos caídos e o chutava, divertindo-se. Arannis foi até ele e apontou para o corpo.
- Isso é escória. Merece a morte. – Disse com autoridade.

...

Sentado um pouco mais afastado do grupo, como era seu costume, Malaggar viu a garota se aproximando e observando seu machado com grande interesse. Ela o rodeava enquanto o drow observava interessado. Ela ameaçava tocar a arma, mas hesitava e voltava a encarar o vingador, que ficava um pouco desconsertado, sem saber como agir.
- Você gostou? – Ele perguntou, notando a resposta positiva gestual dela.
- Quer aprender a usar? – Mais uma vez ela respondeu que sim.
- Certo. Vou lhe ensinar quando ninguém mais estiver olhando. Vai ser nosso segredo, certo?
A garota sorriu e concordou com o drow. Alegre, ela se afastou saltitando, aproximando-se de Alanna, que estava próxima de Elros encarando-o. A chegada da garota a fez questionar por onde ela havia andado até então. Ninguém do grupo parecia ter notado sua ausência, então a ardent descartou a preocupação e aconchegou a pequena eladrin junto a si enquanto esperavam que todos estivessem dispostos a retomar a caminhada.

...

Mais um dia havia se passado e quando se aproximava a hora do almoço, as muralhas da cidade surgiram no horizonte verde. O ânimo atingiu seu ápice conforme todos apertavam os passos para enfim terminar sua jornada e poder descansar. Todos exigiam mais e mais de seus corpos, mal podiam esperar para encontrar uma boa comida e um pouco de conforto. Conforme se aproximavam, conseguiram sentir o cheiro de comida e logo atravessaram um dos portões da cidade.
- Vocês estão convidados para um jantar na mansão. Conto com a presença de vocês. – Sorriu Scott.

O nobre então partiu, enquanto Elros pegava a outra mochila com Arannis e voltou a arrastar o baú sozinho, acompanhando o patrão deles. Eles viram que a cidade já estava começando a ser reconstruída, havia recebido suprimentos e tinha até uma taverna improvisada. Algumas casas começavam a ser levantadas pelo trabalho e se dirigiam para a taverna, enquanto Arannis oferecia às crianças a chance de ir brincar no rio, facilmente descartada devido ao cansaço dos pequenos. O grupo se reuniu em torno de uma das mesas e finalmente poderia descansar.

Um comentário:

  1. Rick a introdução me deu uma ideia para falar com Scott no jantar, claro que eu acho que essa ideia ele ja deve ter em mente, mais não custa tentar.
    Ultimo golpe no lider foi meu, mais errei 70% dos meus ataques, também tenho que falar com o grupo.
    Palavras de Arannis: Obrigado minha Deusa Fleara, pelas nossas vitórias, pelas proteções em combate não so minha mais de todo meu grupo, que continue me protegendo e saiba que minhas espadas são suas!!

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