quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Ato I: A Reconquista IV

“O que aconteceu com Scottner foi uma tragédia anunciada. Sendo a menor das cidades da ilha, não recebia muita atenção de suas irmãs. Graças à mata que cerca a cidade e as montanhas por toda costa oeste, os arredores de suas muralhas de madeira sempre foram cheios de perigo. Tribos de orcs, goblins, hobgoblins, gnolls, bugbears e até minotauros viviam nessas terras e sempre causavam problemas aos desavisados e até aos mais bem preparados.
Duque William Aaron Raynor sempre foi conhecido pela falta de empenho com a cidade, por vezes demais distraído pela bebida e pelo jogo. Foi em seu período de governo que a cidade caçula deixou de avançar em busca das irmãs mais velhas e, depois de negligência com suas muralhas e sua guarda, acabou sendo perdida para as tribos da redondeza. Eles se uniram, tomaram as ruas da cidade no meio da noite e expulsaram os habitantes que não foram mortos de imediato. Duque William, que depois ficou conhecido como o Duque Bêbado, acabou sendo morto enquanto deixava a taverna em que estava cambaleando.”
- Zachary Bartowski, em “Mandos e Desmandos”.

Capítulo 4

O grupo descansava na base da torre em ruínas, cada um com suas próprias preocupações ocupando a mente. Os corpos dos inimigos derrotados ainda jaziam no chão, intocados e todos estavam sujos de sangue e terra. Espalhados pelo campo de batalha, todos se olhavam sem dizer nenhuma palavra. Ao menos haviam sobrevivido, boa parte deles se sentia aliviada por isso.
- Devemos fazer algo com os corpos. – Sugeriu Arthur.
- O que? – A questão veio de Foostus.
- Vamos jogar na torre, pelo menos não ficam expostos. – Falou Arannis.
- Vamos ver se há algo aproveitável primeiro. – Pediu Alanna.
- Eles são poucos, talvez fossem uma espécie de patrulha. Nesse caso, outros virão em breve. – Continuou o patrulheiro.
- É melhor tomarmos nosso rumo logo então. – Gwen começava a se levantar.
Enquanto Shaisys, Alanna e Gwen verificavam os cadáveres, Arannis, Foostus, Arthur e Malaggar arrastavam os corpos para as ruínas e deixavam ao lado de uma das paredes que ainda estava de pé, parcialmente ocultos pelos escombros em sua volta. Conseguiram tirar dois robes de couro, dois bastões, quatro cotas de malha e quatro machados. O humano pegou dois dos machados para si.
Depois de deixarem as coisas da melhor maneira que puderam pensar, o grupo se dirigiu ao alçapão no piso da ruína, facilmente visível pelo tom de contraste da madeira com a pedra. Cautelosos, verificaram que o alçapão vinha sendo usado com frequência e só desceram depois de ter certeza de que não teriam nenhuma surpresa desagradável ao abri-lo.
As escadarias em espiral eram apertadas e a atmosfera do subterrâneo era bem desagradável. No escuro, o grupo resolveu acionar dois de seus bastões solares, um com Arannis, à frente do grupo, e outro com Arthur, último da fila. Os degraus eram traiçoeiros, tanto pela umidade como pelo estado de desgaste em que se encontrava. Procuraram agir com a maior cautela possível, receosos de inimigos na penumbra.

...

Na base da escadaria, o bladesinger pôde ver iluminação por tochas nas paredes do corredor à sua frente, que se abria brevemente à frente antes de prosseguir. À sua direita um novo corredor estreito partia desta parte mais aberta. Lá, um goblin já esperava, machado em mãos e postura de combate. Apesar de toda cautela, o grupo não conseguiu chegar despercebido e, depois de notar os grunhidos do goblin à frente e ouvir outros em resposta, teve a certeza de que seria necessário lutar pela sobrevivência novamente. Sem perder tempo, ele ia sacando sua espada enquanto alertava os companheiros que se aproximavam.
Gwen foi a primeira a agir. Desceu pela escadaria disparando uma flecha no golbin que chamara os outros, cercando-o de pequenos espíritos para distraí-lo. Arthur e Shaisys vieram em seguida, mas sem conseguir agir, apenas se posicionando na saída dos degraus depois de contornar os companheiros. Alanna veio em seguida, alabarda pronta para cortar o mesmo inimigo com energia psiônica, mas foi defletida pela criatura.
Então surgiu um goblin do fundo do corredor, cajado em mãos, lançando energia escura na meio-elfa, deixando-a cega. Arannis se teleportou para as costas do goblin com machado, atingindo com um corte diagonal de sua espada enquanto disparava fogo no mesmo, levantando o cheiro de carne queimada no corredor estreito. O goblin do machado se virou para o eladrin e no giro de corpo acabou abrindo um talho fundo em seu braço, onde sangue logo veio à superfície.
Outros dois goblins portando machado vieram do corredor à direita de quem observava da escadaria, um atingindo o torso do patrulheiro que protegia a saída dos degraus e outro atingindo a ardent nas costas, já que estava cega pelo poder do inimigo. Foostus abriu caminho pelos companheiros e se engajou com as duas criaturas recém-chegadas, desafiando-as enquanto golpeava invocando os espíritos da terra, explodindo seu malho no peito de um infeliz.
Com passos rápidos um quinto goblin se juntou ao combate no corredor, estocando com sua espada curta, cortando pela armadura do minotauro, tirando sangue dele. Malaggar, sem muito espaço, se apertava por entre os amigos na esperança de conseguir se aproximar dos inimigos, sem sucesso. Sua tentativa de atingi-los à distância acabou falhando.
A seeker continuava disparando flechas enquanto o patrulheiro chegou até o goblin mandingueiro, forçando sua retirada depois de cegar seu perseguidor com a mesma magia de antes. Alanna tateava no meio do combate, tentando evitar ser atingida, sem conseguir se livrar da escuridão que tomava seus olhos. A halfling bruxa havia se posicionado de maneira a conseguir criar uma garra de fogo num dos goblins de machado, arrastando-o pelo corredor. Arannis seguia atacando o mesmo goblin, cortando seu peito e deixando-o furioso.
As criaturas atacaram sem piedade em retaliação. Arannis foi ao chão depois de receber uma machadada no peito, enquanto o minotauro era atingido pelos outros dois, vendo sangue brotar em cortes no peito e na coxa. Irritado, o guardião girou novamente seu malho, dessa vez sem conseguir atingir seu alvo. O goblin ágil mais uma vez perfurou sua pele, agora nas costelas. O drow se juntou à confusão, machado descendo na direção das diminutas criaturas, fazendo sangue jorrar pelo corredor mal iluminado.
As trocas de golpes seguiram na bagunça apertada do corredor, enquanto o mandingueiro espalhava uma fumaça mágica por toda área do corredor, ajudando a ocultar seus companheiros. Gwen era encurralada num dos cantos e obrigada a deixar seu arco, sacando a espada que carregava na cintura, sem conseguir coloca-la em uso. Alanna, se livrando da cegueira, conseguiu reestabelecer o bladesinger, que havia caído antes.
Arthur agora era quem lutava contra a escuridão, incerto de onde atacar. Shaisys tirava proveito do tamanho para se reposicionar, ficando mais segura enquanto recuperava o fôlego depois de receber alguns golpes. O malho de Foostus enfim derrubou um dos goblins, transformando sua cabeça numa massa desforme e sangrenta de carne e osso.
O machado do drow cortara uma das criaturas, separando diagonalmente seu torso e espalhando sangue e pedaços de órgãos por toda sala. O patrulheiro, recuperado da cegueira e com uma brutalidade incomum, via o corpo do mandingueiro se debater enquanto sua vida escorria pelos ferimentos no torso, onde havia fincado suas duas espadas. Foostus havia ido ao chão novamente, mas a meio-elfa havia sido rápida em prestar ajuda, recobrando seu espírito de luta enquanto inspirava todos aliados para a vitória. A halfling havia desnorteado os inimigos com suas rajadas, enquanto Arannis separava a cabeça de um dos goblins de seu pescoço num rápido movimento de sua espada cantante.
Único sobrevivente, o goblin mais encorpado de todos lutava como um animal acuado enquanto o cerco se fechava à sua volta. Suas estocadas quase sempre encontravam o alvo, tirando sangue e raspando em osso conforme atacava. Mesmo assim, sozinho não podia fazer nada e acabou massacrado pela vantagem numérica do grupo, que deu fim à batalha exaurido.

...

A sala que encontraram depois da dobra do corredor era de um tamanho razoável. Em seu centro havia uma grande mesa com alguns ossos e restos de comida, certamente era utilizada pelos goblins. Era o móvel em melhor estado na sala, visto que as estantes e escrivaninhas nas paredes estavam quase podres, bastando um toque mais firme para ver suas estruturas ruírem.
No meio de tanta madeira inútil, apenas alguns pergaminhos além de qualquer chance de serem decifrados, capas de tomos que pareciam ter sido exageradamente pesados quando inteiros e alguns frascos quebrados. Cada membro do grupo estava jogado num dos cantos da sala, costas nas paredes e imersos no silêncio que sempre segue a batalha. Cada um parecia refletir, enquanto observavam seus amigos cobertos de poeira, sangue e ferimentos pelo corpo.
- Ficar aqui para descansar seria bom... – Falou consigo mesmo o eladrin.
- É, não podemos continuar assim. – Concordou Gwen, desanimada com a condição das flechas que recuperou depois do combate.
- Pois é, mas se eles fazem rondas, podem nos encontrar. – Interviu o patrulheiro.
- Nós definitivamente precisamos descansar. – A halfling resolveu se pronunciar.
- Um descanso faria bem sim. – Concordou a psiônica.
Ninguém mais fez qualquer objeção. Alguns se juntaram para arrastar a mesa até a entrada da sala, onde fizeram uma espécie de barricada utilizando ela como base e a madeira restante das estantes como apoio. Logo estavam fechados na sala, enfim a tensão começava a passar. Uma das tochas havia sido levada para a sala, onde aproveitaram para acender as que estavam nas paredes dali.
Isolado num canto, Arannis estava sentado com as costas apoiadas na parede, os braços ao redor dos próprios joelhos. Pensava nas crianças e na falta que já sentia delas. Era nas crianças que estava a mente da ardent também, sentada do outro lado da sala, alabarda ao lado, também na parede. A seeker, teimosa, dedicava sua atenção às flechas, tentando arrumá-las sem qualquer sucesso.
O minotauro parecia perdido nos próprios pensamentos, enquanto Arthur só observava o ambiente, um olhar minucioso, mas cínico. A bruxa também pensava nas crianças e em seu patrono, no súbito interesse que ele havia demonstrado por elas. O vingador pensava apenas em Emnos, sua divindade patrona, orando em sua glória de costas para os demais na sala. Depois de comerem a ração de viagem que traziam, foram ficando cada vez mais sonolentos, até que os sonhos chegaram.

...

Algumas horas se passaram até que todos estivessem prontos para continuar a jornada. O eladrin já esperava no corredor, tendo atravessado a barreira de madeira com seu teleporte. Se sentiam aliviados por não serem atacados durante o descanso, mas se apressavam em deixar a sala, já que um ataque ainda poderia acontecer. Quanto mais tempo passassem ali, maior a chance de serem encontrados. Então desfizeram a barreira e começaram a caminhar.
Na sequência do corredor em que haviam lutado estava uma sala, aparentemente do mesmo tamanho que a do acampamento improvisado. A sala estava visivelmente abandonada e já não tinha nada para averiguar além de teias de aranha, restos de comida e poeira. Sem motivo para adiar, eles resolveram seguir pelo único caminho possível, descendo a escadaria de degraus longos e pouca iluminação, tochas em mãos para a escuridão que aguardava logo abaixo.

...

O grupo já caminhava há algumas horas. Eventualmente o solo de pedra deu lugar à terra irregular, com estruturas de madeira segurando o formato do túnel por toda sua extensão. O local era úmido e o cheiro de bolor tomou conta do ambiente. Pequenas aranhas fugiam conforme o fogo se aproximava oscilando nas tochas. O odor forte do lugar junto do cheiro de sangue impregnado nas vestes do grupo, naquele ambiente de ar parado, tornava a experiência bastante desagradável.
Caminhando em fila indiana para evitar que se atrapalhassem, o grupo seguia apreensivo. Apesar da repulsa que o musgo no teto causava, tiveram que se alimentar nos túneis depois de algumas horas. A confinação num espaço tão pequeno deixava todos ansiosos, o único mais tranquilo era Malaggar, talvez por pertencer a uma raça acostumada à escuridão dos subterrâneos. Torciam para que não encontrassem problemas, já que num espaço tão reduzido seria muito complicado planejar qualquer coisa.

...

Mais algumas horas se passaram até que a estreita passagem começasse a se abrir num pequeno salão escavado na pedra. A umidade continuava presente e as rochas das paredes pareciam escorregadias, apesar de estar quase totalmente coberta por teias de aranha. Haviam notado um grande aumento na quantidade delas conforme se aproximavam da caverna e não foi surpresa nenhuma que encontrassem aranhas ao chegar no salão.
De imediato, seis aranhas saltaram na direção do grupo, vindas de pequenas fissuras nas paredes ou buracos no solo. Elas eram grandes, suas prossoma e opistossoma, juntas, com mais massa que um torso de um humano atlético. Eram cobertas por uma rala pelugem marrom, suas pernas eram longas e grossas. Seus pedipalpos eram mais finos enquanto as quelíceras tinham o triplo da espessura.
Aproveitando a surpresa que causavam, algumas aranhas conseguiram chegar ao grupo antes que conseguissem agir, saltando sobre seus alvos e mordendo com suas quelíceras venenosas. Foostus, Shaisys e Alanna foram os primeiros atingidos. Arannis usou do teleporte novamente para se desvencilhar da bagunça nos corredores, chegando até a área mais aberta da caverna, onde viu sua espada penetrar fundo no corpo do artrópode, escorrendo seu sangue transparente para logo em seguida atear fogo na mesma.
Gwen se via encurralada no corredor com uma das aranhas e teve que se virar com sua espada, enquanto as outras duas restantes se aproximavam do grupo. Shaisys aproveitou a proximidade para invocar energias de fogo na criatura mais próxima, arrastando-a para a direção oposta da que se encontrava. Arthur avançou entre os companheiros, cravando seus machados recém-adquiridos pelas pernas e na opistossoma da aranha que a halfling afastara.
A ardent e o vingador avançaram juntos, alabarda e machado grande tirando sangue das criaturas, que seguiam determinadas a deter o grupo. Foostus também avançou, atraindo a atenção das aracnídeas enquanto girava o malho e esmagava a perna de uma delas. Ainda famintas, as aranhas seguiram atacando, aplicando veneno por suas quelíceras mortais enquanto saltavam sobre seus alvos de maneira graciosa. O grupo reagia avançando e empurrando os aracnídeos, enquanto a meio-elfa tentava manter o ímpeto dos companheiros com seus poderes psiônicos.
Depois que as aranhas se afastaram, os mais ansiosos tomaram a caverna para confronta-las em combate aberto. O eladrin, isolado pelo uso do teleporte, foi o primeiro a cair, seguido então pelo minotauro. A elfa já havia retornado ao uso do arco e disparava nas criaturas, tentando diminuir sua eficiência com os espíritos imbuídos em cada ataque. A bruxa fazia chover fogo e destruição pela caverna, detendo o ímpeto assassino das predadoras, enquanto o drow se enfiava entre as várias pernas peludas e cortava tudo que se mexia.
Renovados pela energia de Alanna, o bladesinger e o guardião se levantaram enquanto o vingador caía, trocando golpes com as criaturas, mas ainda bastante debilitados pelos efeitos do veneno. O patrulheiro lutava incansável, machados sempre em movimento, espalhando o sangue transparente dos inimigos em todos que se aproximavam. As aranhas ganhavam terreno quando a primeira delas tombou e uma segunda fugiu, gravemente ferida.
Arannis e Foostus também caíram, enquanto a psiônica se colocava na desbocada do corredor, protegendo as aliadas às costas, intransponível. As trocas de golpes seguiram, até que o veneno tirou Arthur do combate também. Flechas e rajadas mágicas atingiam os artrópodes sem parar e começaram a fraquejar. Duas caíram numa sequência rápida de disparos, sem tempo para fugir. A última sobrevivente ainda ensaiava sua fuga quando a alabarda da meio-elfa atingiu seu pedicelo, separando seus dois tagmas e dando um banho de sangue na mesma.
Combate encerrado, começaram a tratar dos feridos mais gravemente e a se livrar do veneno que enfraquecia seus corpos. Os dons psiônicos de Alanna foram providenciais mais uma vez e os cuidados das outras sobreviventes foram cruciais para que todos se recuperassem rapidamente. A tristeza caiu sobre o grupo ao constatarem que os ferimentos, agravados pelo veneno, acabaram por tomar a vida de Foostus.

...

Mais uma vez o grupo se escorava nas paredes após um banho de sangue. Estavam todos exaustos, assustados e tomados pelo sentimento de perda. Apesar de terem conhecido o guardião apenas recentemente, estavam viajando juntos há meses e não tinha como permanecer insensíveis à perda de alguém que esteve sempre pronto a se colocar na frente dos inimigos para protege-los. Todos estavam cabisbaixos e pensativos, enquanto Arthur parecia estar em outro mundo. A sensação de proximidade preenchendo sua mente mais uma vez.
- Não deveria ser assim. O minotauro e a meio-elfa são de extrema importância para a sua jornada. – A voz feminina novamente ecoava em sua mente, sem resposta.

- Pois bem. Eu não deveria arriscar, mas não me adianta de nada se você morrer logo. – Continuou a voz, decidida. - Eu posso trazer o minotauro de volta, mas nada é de graça. Está disposto a pagar o preço, Arthur?

3 comentários:

  1. Ficou muito bom, e gostei desse final, ai vem coisa kkkkkkk

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  2. Puta.... To merda da vida em ter caído tantas vezes.
    Bom espero que esse descanso recupere os pulsos de cura se não mais pra frente vamos cair feio.
    Palavras de Arannis: Sem nosso colega minotauro para segurar nossos inimigos a frente junto comigo não sei o que vai ser. Um a menos vai ser complicado, se ja foi difícil aqui imagina mais a frente!!
    Vamos torcer para que a sorte esteja do nosso lado na próxima meus colegas e que Fleara me ajude!

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