quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Biblioteca: O Bardo de Mármore

O Bardo de Mármore


Essa é uma história que eu faço questão de dividir. Estive passando alguns meses no pequeno reino de Yorunn. Mais precisamente, na capital Lozunn. Eu ainda era jovem e costumava viajar bastante, mas ali eu consegui vivenciar a corte como em nenhum outro lugar, por isso fiquei um bom tempo. Lá eu reencontrei um grande amigo, o bardo anão Dhrak Zokharinn. Ele estava agindo como conselheiro do agora falecido, mas na época ainda bastante ativo, rei Alberik Graçois Errdun Asthus I. Sua doce rainha, Jasmine Allas Asthus, era muito ligada à arte e recebia muito bem qualquer amante da música em seu castelo. Dhrak era um tipo de bardo diferente do que eu estava acostumado. Ele usava seus dons com as palavras e cortesias para conseguir informações e se infiltrar em altos círculos da sociedade. Ainda assim, era um grande amigo.
Nós passamos vários meses juntos e trocando experiências sobre morais e história. Suas conversas eram sempre agradáveis e eu sou muito grato por tudo que ele me ensinou, verde como ainda era naquela época. Com certeza sonhava em chegar onde cheguei, mas não sei se acreditava nisso, apesar da confiança ignorante típica dos jovens. De qualquer forma, isso é uma homenagem ao meu amigo Dhrak, que descobri ser uma espécie de conselheiro do casal real naquela época. A maioria das pessoas achava que ele era apenas uma espécie de mascote na corte, mas seus ouvidos estavam sempre atentos aos sussurros do castelo real.
A questão é: havia uma conspiração. Eu não tinha ideia, é claro, mas meu amigo estava marcado por alguns nobres que queriam tomar o controle do reino para si, afinal o rei já era bastante experiente e chegava na época de começar a pensar na sucessão. Seu filho mais velho ainda era um rapaz e poucos pareciam confiar em seu discernimento. A rainha sabia, e astuta como era, tornara o anão responsável por ter um espião em cada sombra do castelo, um ouvido para cada conversa sussurrada na discrição da noite, olhos dissimulados na taverna dos prazeres. Ele sabia de tudo. Ou pelo menos acreditava nisso.
Numa noite ele me surpreendeu aparecendo em meu quarto na taverna próxima ao castelo. Lembrando disso hoje, percebo que ele deveria estar bastante nervoso, mas eu era jovem e a quantidade certa de hidromel pode deixar a gente alheio aos detalhes que estão ao nosso redor. Ele trocou algumas palavras comigo, que não desconfiava de nada do que acontecia. Deu-me uma música.
- As coisas estão complicadas, são tempos difíceis e você é um grande amigo, apesar de um crápula. Posso lhe pedir um favor? – Ele perguntou com seu jeito brincalhão de sempre.
- E o que seria? – Perguntei, estranhando um pouco a cordialidade de suas palavras. Dhrak não era tão sutil entre amigos da plebe e eu achei isso estranho. Mas novamente devo lembrar, o hidromel é capaz de muita coisa.
- Eu só posso confiar isso a um amigo e sabemos que nessa vida de estrume não temos tantos. Somos bardos, não?
- Bem diferentes, meu caro. Mas somos bardos, sim.
- Quando eu bater as botas.... Você vai estar presente em meu funeral, não vai? Apesar de ser um filho de uma porca, sei que vai estar.
- Eu faria o possível, sim. Eu viajo, você sabe.... Posso estar muito longe. Mas se eu puder, eu vou. – Respondi desconfiado da conversa.
- Então é simples. Se você for ao meu funeral, quero que use esses seus dedos tortos para arranhar aquele remendo que você chama de alaúde e toque isto. – Sorriu entregando um pergaminho surrado.
- Você compôs algo? – Falei atônito.
- Acha que não sei fazer música? Posso não viver disso hoje em dia, mas todos já fomos jovens.
- Claro, claro.
Eu guardei o pergaminho sem me dar conta do quanto ele significaria para mim. Nos despedimos e ele partiu, sumindo nas sombras da noite, onde ele parecia invulnerável. Dormi o sono tranquilo dos embriagados e fui acordado com uma notícia chocante: Dhrak estava morto. Eu não sabia o que fazer. Ficava imaginando se ele sabia que isso estava para acontecer, entre o mundo real e o mundo dos sonhos. Hoje eu tenho certeza que ele sabia, é claro. Então veio seu funeral. Eu levei seu pergaminho e meu alaúde até o local de solenidade e recebi sinais de encorajamento de Sua Majestade, em prantos, mas provavelmente ciente do último desejo de seu conselheiro.
Era uma melodia nova para mim. Mas eu era jovem e confiante, achava que tinha talento e enfrentei o desafio sem titubear. O resultado da performance foi único. Acostumado a aplausos ou indiferença, vi algo novo acontecendo e me dei conta de que havia mergulhado em algo muito maior do que uma simples canção. Após ouvir a música, o rei, emocionado, fuçou nos bolsos do cadáver e retirou vários papéis. Vi no canto um dos servos, o mesmo que eu havia visto ajeitando as vestes de meu amigo defunto, sorrindo enquanto o rei examinava o que parecia um maço de cartas. Então o rei saiu em passos decididos e com uma severidade incomum estampada no rosto. Não demorou muito até que guardas invadissem o funeral e levassem alguns dos nobres que fingiam tristeza na cerimônia.
Meu amigo Dhrak, grande bardo, experiente e inteligente, que levou seu dever como poucos fazem nesse mundo. Ele investigava uma conspiração a mando de sua rainha e havia encontrado provas irrefutáveis. Mas teve que apostar para conseguir seu trunfo e acabou pagando um alto preço pelo sucesso. Os conspiradores, um grupo de nobres que tentava usurpar o poder da família real, foram presos e executados poucas horas depois. Suas famílias caíram em desgraça, perdendo títulos e propriedades.
Sendo o primeiro bardo a tocar a música em público me tornou um pouco famoso. Muitas coisas boas vieram dali. Foi onde percebi que eu deveria repensar o meu modo de vida e aprender a ser humilde, valorizar o que a experiência tem a nos dizer. Mas nada traduz melhor a grandeza dessa música que a estátua de mármore no jardim central do castelo da bela Lozzun. Imponente e com expressão de sabedoria, a personificação de meu amigo Dhrak nos observa do alto, atento e terno, familiar e protetor. Seu rosto e seu conhecimento estão na história, imortalizados em pedra.

Não é minha Última Canção
Dhrak Zokharinn

Eu estou olhando ao redor, deitado no meu caixão
Vejo rostos com lágrimas em seus olhos
Mas, hey não é aquela garota?
E não vejo também o cara que me odiava tanto?

E eu não preciso de luto e lamentos
Para ser sincero, você pode é beijar minha bunda!
Se você tivesse algo a me dizer,
Eu não posso fazer nada, agora já morri

Estou cantando orgulhoso minha última canção
Dedicada aos que ainda vivem
Cantando bem alto minha última canção
Para aqueles que tem ouvidos

Você não acha que isso é sarcástico?
Você é considerado respeitável
Mas ninguém aperta sua mão?
Eu não quero acabar como aqueles que morrem
Sem saber no que se tornaram

Então escute, eu não quero suas lágrimas quando eu me for
Por favor, sorria para mim enquanto ainda sou amável
Me chame de cínico, passei de todos os limites
Mas agora eu estou aqui...

Cantando orgulhoso minha última canção
Dedicada aos que ainda vivem
Cantando alto minha última canção
Para aqueles que tem ouvidos

Esta não é minha última canção
Mais palavras e cartas estão em meus bolsos
Esta não é minha última canção
Há mais histórias para contar

A vida oferece inúmeras surreais circunstâncias
Um teatro de almas, um circo de danças
Tudo acontece por uma razão real
Eu não sei ao certo, sou vítima da traição

Essa marcha funeral começou a ficar chata
Este caixão é estreito, este traje é muito sóbrio
Passe meu chapéu e meu alaúde quebrado
E cante comigo esta canção final bizarra

- “As Maravilhas de Cefteros”, Joshua Michael Homme III



Música Original: “Not My Final Song”
Álbum: "Two Tragedy Poets (...And A Caravan Of Weird Figures)", Elvenking (2008)
Compositor: Aydan (Federico Baston)
Não detenho quaisquer direitos sobre a música.



3 comentários:

  1. Li tudo... põe um acento em sabia no terceiro parágrafo, porque faltou... a rainha é sábia...

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    1. Não, é sabia do verbo saber mesmo. Ela tinha consciência da falta de confiança do povo no príncipe. =P

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    2. Bem louco assim qnd jogadores chegarem a Lozzun....e notarem aquela estatua, ja terão bagagem local....bom modo de aprofundar os enredos de uma localidade

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