O Bardo de Mármore
Essa é uma história que eu faço questão de dividir.
Estive passando alguns meses no pequeno reino de Yorunn. Mais precisamente, na
capital Lozunn. Eu ainda era jovem e costumava viajar bastante, mas ali eu
consegui vivenciar a corte como em nenhum outro lugar, por isso fiquei um bom
tempo. Lá eu reencontrei um grande amigo, o bardo anão Dhrak Zokharinn. Ele
estava agindo como conselheiro do agora falecido, mas na época ainda bastante
ativo, rei Alberik Graçois Errdun Asthus I. Sua doce rainha, Jasmine Allas
Asthus, era muito ligada à arte e recebia muito bem qualquer amante da música
em seu castelo. Dhrak era um tipo de bardo diferente do que eu estava
acostumado. Ele usava seus dons com as palavras e cortesias para conseguir
informações e se infiltrar em altos círculos da sociedade. Ainda assim, era um
grande amigo.
Nós passamos vários meses juntos e trocando
experiências sobre morais e história. Suas conversas eram sempre agradáveis e
eu sou muito grato por tudo que ele me ensinou, verde como ainda era naquela
época. Com certeza sonhava em chegar onde cheguei, mas não sei se acreditava
nisso, apesar da confiança ignorante típica dos jovens. De qualquer forma, isso
é uma homenagem ao meu amigo Dhrak, que descobri ser uma espécie de conselheiro
do casal real naquela época. A maioria das pessoas achava que ele era apenas
uma espécie de mascote na corte, mas seus ouvidos estavam sempre atentos aos
sussurros do castelo real.
A questão é: havia uma conspiração. Eu não tinha
ideia, é claro, mas meu amigo estava marcado por alguns nobres que queriam
tomar o controle do reino para si, afinal o rei já era bastante experiente e
chegava na época de começar a pensar na sucessão. Seu filho mais velho ainda
era um rapaz e poucos pareciam confiar em seu discernimento. A rainha sabia, e
astuta como era, tornara o anão responsável por ter um espião em cada sombra do
castelo, um ouvido para cada conversa sussurrada na discrição da noite, olhos
dissimulados na taverna dos prazeres. Ele sabia de tudo. Ou pelo menos
acreditava nisso.
Numa noite ele me surpreendeu aparecendo em meu
quarto na taverna próxima ao castelo. Lembrando disso hoje, percebo que ele
deveria estar bastante nervoso, mas eu era jovem e a quantidade certa de
hidromel pode deixar a gente alheio aos detalhes que estão ao nosso redor. Ele
trocou algumas palavras comigo, que não desconfiava de nada do que acontecia.
Deu-me uma música.
- As coisas estão complicadas, são tempos difíceis e
você é um grande amigo, apesar de um crápula. Posso lhe pedir um favor? – Ele
perguntou com seu jeito brincalhão de sempre.
- E o que seria? – Perguntei, estranhando um pouco a
cordialidade de suas palavras. Dhrak não era tão sutil entre amigos da plebe e
eu achei isso estranho. Mas novamente devo lembrar, o hidromel é capaz de muita
coisa.
- Eu só posso confiar isso a um amigo e sabemos que
nessa vida de estrume não temos tantos. Somos bardos, não?
- Bem diferentes, meu caro. Mas somos bardos, sim.
- Quando eu bater as botas.... Você vai estar
presente em meu funeral, não vai? Apesar de ser um filho de uma porca, sei que
vai estar.
- Eu faria o possível, sim. Eu viajo, você sabe....
Posso estar muito longe. Mas se eu puder, eu vou. – Respondi desconfiado da
conversa.
- Então é simples. Se você for ao meu funeral, quero
que use esses seus dedos tortos para arranhar aquele remendo que você chama de
alaúde e toque isto. – Sorriu entregando um pergaminho surrado.
- Você compôs algo? – Falei atônito.
- Acha que não sei fazer música? Posso não viver
disso hoje em dia, mas todos já fomos jovens.
- Claro, claro.
Eu guardei o pergaminho sem me dar conta do quanto
ele significaria para mim. Nos despedimos e ele partiu, sumindo nas sombras da
noite, onde ele parecia invulnerável. Dormi o sono tranquilo dos embriagados e
fui acordado com uma notícia chocante: Dhrak estava morto. Eu não sabia o que
fazer. Ficava imaginando se ele sabia que isso estava para acontecer, entre o
mundo real e o mundo dos sonhos. Hoje eu tenho certeza que ele sabia, é claro.
Então veio seu funeral. Eu levei seu pergaminho e meu alaúde até o local de
solenidade e recebi sinais de encorajamento de Sua Majestade, em prantos, mas
provavelmente ciente do último desejo de seu conselheiro.
Era uma melodia nova para mim. Mas eu era jovem e
confiante, achava que tinha talento e enfrentei o desafio sem titubear. O
resultado da performance foi único. Acostumado a aplausos ou indiferença, vi
algo novo acontecendo e me dei conta de que havia mergulhado em algo muito
maior do que uma simples canção. Após ouvir a música, o rei, emocionado, fuçou
nos bolsos do cadáver e retirou vários papéis. Vi no canto um dos servos, o mesmo
que eu havia visto ajeitando as vestes de meu amigo defunto, sorrindo enquanto
o rei examinava o que parecia um maço de cartas. Então o rei saiu em passos
decididos e com uma severidade incomum estampada no rosto. Não demorou muito
até que guardas invadissem o funeral e levassem alguns dos nobres que fingiam
tristeza na cerimônia.
Meu amigo Dhrak, grande bardo, experiente e
inteligente, que levou seu dever como poucos fazem nesse mundo. Ele investigava
uma conspiração a mando de sua rainha e havia encontrado provas irrefutáveis.
Mas teve que apostar para conseguir seu trunfo e acabou pagando um alto preço
pelo sucesso. Os conspiradores, um grupo de nobres que tentava usurpar o poder
da família real, foram presos e executados poucas horas depois. Suas famílias
caíram em desgraça, perdendo títulos e propriedades.
Sendo o primeiro bardo a tocar a música em público
me tornou um pouco famoso. Muitas coisas boas vieram dali. Foi onde percebi que
eu deveria repensar o meu modo de vida e aprender a ser humilde, valorizar o
que a experiência tem a nos dizer. Mas nada traduz melhor a grandeza dessa
música que a estátua de mármore no jardim central do castelo da bela Lozzun.
Imponente e com expressão de sabedoria, a personificação de meu amigo Dhrak nos
observa do alto, atento e terno, familiar e protetor. Seu rosto e seu
conhecimento estão na história, imortalizados em pedra.
Não é
minha Última Canção
Dhrak
Zokharinn
Eu estou olhando ao redor, deitado
no meu caixão
Vejo rostos com lágrimas em seus
olhos
Mas, hey não é aquela garota?
E não vejo também o cara que me
odiava tanto?
E eu não preciso de luto e lamentos
Para ser sincero, você pode é beijar
minha bunda!
Se você tivesse algo a me dizer,
Eu não posso fazer nada, agora já morri
Estou cantando orgulhoso minha
última canção
Dedicada aos que ainda vivem
Cantando bem alto minha última
canção
Para aqueles que tem ouvidos
Você não acha que isso é sarcástico?
Você é considerado respeitável
Mas ninguém aperta sua mão?
Eu não quero acabar como aqueles
que morrem
Sem saber no que se tornaram
Então escute, eu não quero suas
lágrimas quando eu me for
Por favor, sorria para mim enquanto
ainda sou amável
Me chame de cínico, passei de todos
os limites
Mas agora eu estou aqui...
Cantando orgulhoso minha última
canção
Dedicada aos que ainda vivem
Cantando alto minha última canção
Para aqueles que tem ouvidos
Esta não é minha última canção
Mais palavras e cartas estão em meus
bolsos
Esta não é minha última canção
Há mais histórias para contar
A vida oferece inúmeras surreais
circunstâncias
Um teatro de almas, um circo de
danças
Tudo acontece por uma razão real
Eu não sei ao certo, sou vítima da
traição
Essa marcha funeral começou a ficar
chata
Este caixão é estreito, este traje
é muito sóbrio
Passe meu chapéu e meu alaúde
quebrado
E cante comigo esta canção final bizarra
- “As Maravilhas de Cefteros”, Joshua
Michael Homme III
Música Original: “Not My Final Song”
Álbum: "Two Tragedy Poets (...And A Caravan Of Weird
Figures)", Elvenking (2008)
Compositor: Aydan (Federico Baston)
Não detenho quaisquer direitos sobre a música.
Li tudo... põe um acento em sabia no terceiro parágrafo, porque faltou... a rainha é sábia...
ResponderExcluirNão, é sabia do verbo saber mesmo. Ela tinha consciência da falta de confiança do povo no príncipe. =P
ExcluirBem louco assim qnd jogadores chegarem a Lozzun....e notarem aquela estatua, ja terão bagagem local....bom modo de aprofundar os enredos de uma localidade
Excluir