segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Ato II: A Assembleia I

Capítulo 9

Já é 2016: Janasys 8, a reconquista de Scottner já ficou bem para trás e a reorganização da cidade segue num ritmo muito forte. Scott Raynor não poderia esperar mais de sua empreitada. Estava certo de que escolhera a guilda certa para tal. Do alto da sacada de seu quarto na mansão oficial da cidade, o novo duque restituído observava as pessoas terminando os trabalhos do dia conforme a noite ia chegando. O que antes parecia uma cidade em ruínas agora já parecia a base de algo que poderia ser grandioso num futuro não tão distante.

...

Agora devidamente construída, apesar de ainda humilde, a taverna e seu dono já haviam se estabelecido como o grande centro de reunião dos trabalhadores. Boa parte deles pelo menos passava por lá ao final do expediente para encontrar conforto na boa cerveja que ali era servida. Não era diferente com o grupo Mesa 6. Alanna, Arannis, Gwen, Malaggar e Shaisys estavam com as crianças gêmeas rodeando uma das mesas enquanto esperavam seus pedidos quando Arthur passou pela porta do estabelecimento.
Enquanto o agora paladino se dirigia até a mesa dos amigos, todos o encaravam com curiosidade. Armadura nova, padrão de cores diferente, cabelos de cor diferente, muita coisa havia mudado no companheiro desde que ele havia partido para o sul. Todos o receberam bem e alguns comentários foram feitos sobre a mudança no visual, logo levando o grupo à velha atmosfera com a qual já estavam habituados.
A comida foi entregue junto das cervejas e vinho. O cheiro era agradável e todos, principalmente Arthur, se sentiram renovados em poder comer algo tão bem preparado. Alguns estavam mais acostumados que outros, mas ninguém escondia o quanto detestavam a ração de viagem, tão prática quanto ofensiva ao paladar.
Depois que todos haviam comido o suficiente, a conversa voltou entre uns goles e outros. As crianças, já maiores, pareciam ter uma noção melhor do que era dito, apesar de seguirem sem falar. Não durou muito para que o grupo começasse a especular sobre seu futuro. Eles acreditavam que logo teriam que ir ao norte. Já haviam vários rumores entre os trabalhadores de que Scott almejava as minas abandonadas para iniciar uma produção própria de metais.
Gwen então contou ao grupo sobre o sonho musical profético. Tentando esconder, sem sucesso, do grupo que tinha esse tipo de profecia com frequência, ela passou suas teorias sobre a mais recente. Ela sentia que a cidade estava ameaçada, que as minas ou alguém poderiam envenenar a água dos rios próximos e atingir toda a população de trabalhadores da cidade.
A ideia foi debatida com grande afinco, então Alanna contou do sonho que também teve, apesar das várias interrupções que sofreu, uma até gerando um conflito mais acalorado. Todos ali tentavam juntar ambos acontecimentos em busca de uma clarificação, mas tudo que puderam fazer foi especular. Era tudo ainda muito vago e no final das contas todos concordaram em manter a atenção com tais perigos.
A noite seguiu agradável, Arannis tentava o tempo todo se aproximar mais de Alanna, que escapava de cada uma de suas investidas com humor e tato. Outros membros do grupo, juntamente com as crianças, se divertiam com a situação. Gwen já havia deixado a taverna contrariada quando um dos emissários da guilda se fez presente.
- Vocês estão sendo chamados para a tenda da liderança. Apressem-se.

...

Depois de informar ao emissário da ausência da elfa, o grupo acertou a conta com o taverneiro e se dirigiu até a tenda. No mesmo lugar há muitos meses, a tenda era razoavelmente grande e chamava alguma atenção nos dias atuais, quando várias casas foram construídas ou restauradas. Dois soldados faziam guarda na entrada da tenda, mas o grupo já era esperado. Todos, exceto as crianças, adentraram quando a permissão foi dada. Gwen logo se juntou a eles.
Lizbeth e Elran estavam na tenda esperando por todos. Próxima à parede oposta à entrada ficava uma mesa com um mapa surrado aberto, cheio de livros e peças de madeira espalhados por toda sua extensão. Para quem acabava de chegar aquilo parecia uma grande bagunça e quase ninguém se preocupou em tentar entender o que acontecia por ali.
- Boa noite, meus caros. – Iniciou a morena.
- Boa noite. – Educadamente respondeu o grupo.
- Pois bem, agora que o grupo está novamente reunido, temos uma missão em mente. Na costa oeste, indo até o norte, temos os Picos Trovejantes. Um pouco ao norte daqui havia uma cadeia de minas de extração de metais que, naturalmente, foi abandonada juntamente com a cidade.
- E o duque Raynor almeja a retomada dessas minas, é claro. – Completou o elfo com a mesma expressão séria de sempre.
- Então – continuou Lizbeth – contamos com vocês para fazer este trabalho.
- Nós? Nós seis?
- Sim. Acima de tudo, precisamos de um reconhecimento das minas. Não temos informação de seu interior, nossos batedores no máximo chegaram até os arredores. Em se tratando de uma investigação mais meticulosa, acreditamos que vocês seriam mais indicados.
- Parece perigoso...
O grupo então ouviu uma barulheira vinda do lado de fora da tenda. Alguém gritava, batia algo com força e continuava a gritar. O assunto foi interrompido quando todos voltaram suas atenções para a comoção. Não demorou muito e Amgram adentrou a tenda gritando impropérios por sobre o ombro, irritado com os soldados da guarda.
- Boa noite! – Vociferou o anão, apressado.
- Boa noite. – Todos responderam curiosos.
- Olha o que chegou!
O anão jogou o que parecia ser uma carta em cima da mesa. Todos puderam ver que se tratava de um papel fino com um selo negro. Ao reconhecer o brasão impresso no selo, Alanna prendeu a respiração por um momento, os olhos arregalados chamando a atenção de outros membros do grupo. Passada a surpresa, Lizbeth pegou a carta em suas mãos e começou a ler em silêncio. Elran fazia o mesmo por cima do ombro da humana enquanto Amgram encostava na mesa tentando recuperar seu fôlego.
- Uma carta de Tomhills. – O elfo disse ao terminar de ler.
- Pois é. Eles me querem lá! – O anão se agitou novamente.
- Tomhills? O que querem com você? – Uma voz do grupo questionou.
- Ele está sendo convocado para a Quinquagésima Terceira Assembleia Democrática de Tomhills. – Lizbeth respondeu enquanto baixava a carta de volta à mesa.
- Você está intimado a depor sobre os acontecimentos de três anos atrás. Curioso.
- Qual evento?
- O Massacre nas Colinas. Nossa derrota que quase extinguiu a guilda. – Respondeu friamente o elfo, fazendo a espinha de Arannis congelar com as lembranças daquela batalha.
Aquilo fazia sentido para a ardent. A Assembleia sempre era convocada quando havia uma tentativa de tomada de poder. Os relatos do massacre poderiam pesar contra o duque se conseguissem provar que ele interferiu numa disputa justa que ele mesmo iniciou. Mesmo não estando envolvida com a guilda naquela época, até ela havia ficado sabendo do ocorrido.
- Mande-os comigo. – Solicitou Amgram, quebrando o súbito silêncio da tenda.
- Eu os estava instruindo sobre a nova missão agora. – Cortou a morena.
- Não importa. Você conhece aquela cidade, sabe que não posso ir sozinho. É a nossa chance de dar o troco naquele duque maldito. – Insistiu de maneira agressiva o anão, socando a mesa.
Lizbeth parecia ponderar sobre o curso de ação. O grupo se entreolhava na expectativa, esperançoso por algo valioso. Se a perspectiva de se enfiar no subterrâneo para um reconhecimento parecia desagradável, ir até uma cidade parecia vantajoso. Exceto para Alanna. Ela não via com bons olhos uma volta para sua cidade natal tão cedo. Arthur tentava imaginar como a cidade estaria agora e Shaisys não conseguia se decidir sobre o que pensar de uma volta à cidade que tanto a maltratou, mas também acabou dando uma grande oportunidade de melhora.
- Pois bem. Vocês vão para Tomhills. – Concluiu a capitã, recebendo um aceno positivo do druida logo em seguida.
- Vamos precisar comprar roupas novas. – Comentou a meio-elfa.

...

Depois de pegarem as crianças na saída da tenda, o grupo retornou até a casa onde estavam se alojando. Alguns olhavam para Arthur ansiosos por seus movimentos estranhos que vinham de seus sonhos, mas ficaram decepcionados ao ver que aquilo não se repetia. Não demorou para que todos estivessem descansando para a jornada que se iniciaria ao nascer do sol.
Os primeiros a despertar, Arannis e Malaggar se retiraram dos quartos, seguidos pelas crianças. O eladrin foi treinar os gêmeos e aproveitou para lhes falar sobre a viagem e como deveriam se comportar na ausência do grupo. Não que ele duvidasse que elas fossem se dar bem, hoje em dia boa parte do povo que trabalhava na cidade tinha estima pelas levadas crianças. Alanna fez o mesmo antes de o grupo partir e as crianças, como sempre, ouviram com atenção.

...

Todos haviam comprado ração de viagem, entre outros pequenos itens que esperavam usar na viagem. Não queriam surpresa dessa vez. Amgram havia lhes avisado que estimava a viagem em cerca de vinte dias, pois fora mercador e conhecia os caminhos mais rápidos pelo coração da ilha. Alguns haviam ficado contrariados, desejando ir a cavalo, mas o anão foi teimoso e no final era ele quem dava a última palavra.
Quando todos se encontraram na saída da cidade, o sol já estava totalmente exposto, clareando um dia que nascia amistoso em seu clima. A primavera havia começado há pouco tempo e os dias se tornavam cada vez mais agradáveis em Scottner. O anão parecia animado com a jornada, caminhando de maneira descontraída enquanto guiava o grupo por uma trilha na floresta. Além do equipamento comum de viagem, ele carregava dois barris, aparentemente de cerveja.

...

No terceiro dia, um pouco depois do almoço, o grupo seguia a viagem dentro da floresta que rodeava a cidade. Os ânimos ainda eram bons, todos conseguiam perceber como a jornada rendia. Amgram realmente tinha uma ótima noção de direção e sabia de caminhos que nem Gwen havia encontrado, apesar de seu período pelos postos de observação na floresta. Então o anão se abaixou, sinalizando para que o grupo prestasse atenção.
- Ali. – Ele apontou para a direção à qual se dirigiam, cheia de árvores e arbustos.
Mesmo os mais atentos levaram alguns segundos para conseguir distinguir as formas entre a vegetação. O grupo seguiu avançando e conforme se aproximavam, podiam ver melhor o motivo de alarde do anão. Eram criaturas com o tamanho próximo dos humanos, mas percebiam pelas silhuetas que não eram humanos. Provavelmente alguma raça tribal que habita a floresta. Conseguiram contar cinco formas.
As criaturas caminhavam na direção do grupo também, cautelosas. Após algum tempo puderam ver que se tratavam de gnolls, avançando e farejando os aventureiros. Todos eles estavam com arcos longos em suas mãos e pelo menos uma flecha já sacada. O grupo também tinha suas armas em punho, todos preparados para o combate que logo chegaria.
Um súbito barulho ao lado e uma forma enorme saiu de um arbusto à esquerda do grupo. Perplexos, ninguém conseguiu reagir enquanto o que parecia ser um monstro bem maior que os gnolls apanhou o anão, à frente do grupo. Lutando contra a criatura, Amgram acabou fazendo com que Shaisys também fosse envolvida numa confusão de membros que rolou pelo terreno íngreme, caindo longe à direita do grupo.
Com esse sinal, as assaltantes prepararam os arcos e se aproximaram de maneira decidida querendo dar início ao derramamento de sangue. Gwen já estava pronta para disparar também e avançou com cautela, contornando uma grande pedra que jazia à frente do campo de batalha, apenas para ser alvejada em seguida por alguns dos gnolls. O desafio inicial do grupo era conseguir diminuir a distância dos arqueiros, que se mantinham disparando sem qualquer misericórdia.
Malaggar e Arthur corriam à frente do grupo, atraindo os disparos das criaturas. A elfa logo começou a rebater os ataques, assim como Arannis, que através de magia conseguia criar incômodos para eles. Todos avançavam determinados, tentando aproveitar ao máximo os obstáculos da floresta para dificultar os disparos inimigos. Os gnolls seguiam atirando e vibrando cada vez que viam suas flechas acertarem algum dos alvos.
Os ferimentos foram grandes para alguns deles, mas o grupo enfim alcançou os inimigos, que por mais que tentassem se reposicionar, não podiam fugir de maneira ordenada sem perder também a condição de continuar alvejando seus algozes. O agora paladino usava de seu escudo para tentar evitar as flechas e, assim que se aproximou o suficiente, começou a lançar seu desafio divino enquanto usava seu machado para procurar por sangue.
Malaggar logo tratou de usar suas técnicas de combate para afastar um dos gnolls do resto do bando, brandindo seu machado gigantesco com força enquanto encurralava seu alvo. Suas habilidades de drow foram muito úteis para tirar a combatividade da criatura, deixando-a desorientada enquanto recebia mais e mais golpes. Alanna havia se aproximado também e, depois de cuidar dos ferimentos causados pelas flechas, tirava proveito do alcance de sua alabarda para ameaçar os inimigos. Seus golpes eram pensados na própria defesa e traziam grande benefício quando bem encaixados.
Gwen, depois de uma pausa para se esconder e recuperar-se atrás de uma pedra, voltou a atirar com determinação nos arqueiros inimigos, nublando suas vistas com nuvens de espíritos, diminuindo sua efetividade nos contra-ataques. Arannis foi o que mais demorou para chegar até o grupo de gnolls, usando sua magia para melhorar sua postura de combate através da espada longa.
As criaturas logo largavam seus arcos ao chão e sacavam suas machadinhas para o combate corpo a corpo. Suas armaduras feitas de couro, caçados por eles próprios, estavam todas encharcadas de sangue, geralmente deles mesmos. Não demorou para estarem em desvantagem e começarem a agir por desespero. O grupo foi impiedoso e começou a eliminar seus alvos, um a um.
Depois de dizimar todos os gnolls, o grupo se reuniu num trecho menos acidentado do campo de batalha e se sentou para descansar. Logo ouviram Amgram gritar enquanto subia o declive tropeçando em raízes e arbustos, seus braços e martelo cheios de sangue. Shaisys vinha atrás com apenas arranhões, mas com as roupas bem limpas, ou pelo menos tanto quanto a viagem permitia. Eles se sentaram com o restante do grupo para renovar suas energias enquanto o êxtase da batalha os deixava.
- Estamos vivos. – Riu o anão. 

2 comentários: