quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Criação

Vou aproveitar e criar uma sessão diferente no blog pra falar tanto do processo de criação, opinião sobre alguns elementos práticos de campanha e talvez até postar alguns contos não-relacionados ao cenário. O primeiro post vem com a compilação de respostas pra algumas perguntas que me foram feitas no fórum da Jambo sobre a criação do cenário, inspiração, planos, etc.

Sobre as divindades
Eu tenho em mente usar um conceito de divindade parecido com o da mitologia nórdica, onde os deuses existiam, viviam, comiam, respiravam e andavam entre os mortais. Os deuses não dão poderes, como é de praxe na 4ª edição (e é algo que eu sempre esperava ver). Os deuses na verdade dividiram uma espécie de fórmula pra fazer com que mortais consigam acessar a mesma energia que eles (a conhecida fonte de poder divino da 4E), portando as classes divinas são muito mais ligadas aos deuses por seus dogmas que pela pura devoção (ainda assim, isso é um conhecimento restrito aos personagens divinos e suas ordens, a maioria das pessoas acredita que o poder de fato vem dos deuses e ninguém tenta clarificar a questão, pois é bem conveniente). Eu quis fazer a religião mais humana e mais afastada do estereótipo da alta fantasia, por isso não atribuo tendência aos deuses e dou vários aspectos em seu portfólio. A ideia é que não haja UMA igreja central, mas várias igrejas/ordens que venerem um mesmo deus, abraçando um ou mais aspectos deste mas tendo seus próprios métodos cerimoniais e objetivos. Portanto, seria comum ver duas ordens devotas ao mesmo deus, mas inimigas, por exemplo. Assim como seria comum ver ordens de deuses distintos trabalhando juntas (pelo menos até que isso lhes fosse benéfico). Então, como os deuses são criaturas que vivem, eles têm tendência (a grande maioria vai ser imparcial mesmo). Mas a religião deles não, pois é apenas um reflexo do que eles representam. 
Os deuses eu comecei a desenvolver a partir do elemento deles. Como podem ver, temos fogo, água, terra, sombra, tempo e vento. Esse foi o ponto de partida. Depois pensei em atribuir cores. Todos sacerdotes de Fleara, deusa do fogo (entre outras coisas) usam vermelho como cor predominante. No nosso grupo temos um vingador devoto de Emnos, ele usa preto como cor predominante. O resto dos aspectos dos deuses, além dos elementos, foram vindo com aspectos geralmente ligados aos elementos. Houve uma inspiração no panteão de Pillars of Eternity, pois era o que eu lia enquanto rabiscava os deuses. A ideia de guerra e renovação veio da deusa deste jogo, onde os fiéis dela têm que passar por provações absurdas pra se reencontrarem no mundo, é uma religião que vive pela renovação, mas a renovação que destrói tudo que havia antes pra refazer do zero, não é só uma questão de redescobrimento e consciência, é bem mais brutal. O resto foi meio estereotipado mesmo, seguindo o que normalmente se atribui aos elementos.

Ideias e referências
Eu costumava desenhar, RPG sempre foi meu escape e como hoje tenho muito tempo livre, vivo tendo lampejos de criatividade e guardando cada coisinha nas minhas tralhas. Eu to sempre lendo cenários como Forgotten Realms, Dragon Age, Pillars of Eternity, já acompanhei bastante Tormenta (mas hoje em dia acho que estou bem desatualizado, conforme o grupo com quem eu jogava Tormenta se desfez). Eu também leio quase tudo de fantasia/ficção histórica que encontro: As Crônicas de Gelo e Fogo, O Senhor dos Anéis, Elfos (de Bernhard Hennen, muito bom), os livros de The Witcher, Dragon Age, Bernard Cornwell, entre tantos outros. Pra finalizar, também leio bastante comics e mangás, sempre surge uma ou outra coisa que acaba me dando uma ideia aplicável, sabe...
Então esse cenário tem um pouco de cada um desses outros cenários e obras que fui gostando ao longo do tempo. Tem ideias que eu uso hoje que encontrei em desenhos e cadernos meus de 10, 15 anos atrás. Tem ideias que eu vim reciclando ao longo dos anos, testando de um jeito, testando de outro depois de alguns anos, e assim as coisas vão se integrando. Muito pouco, mas vez ou outra eu escrevia alguns contos, então um deles, que nasceu por acaso numa tarde, já me deu uma base pra essa campanha que estou narrando também, mas só vou poder mostrar pra valer mais pra frente.

As ordens divinas e aplicações no jogo
Os personagens são treinados por suas ordens, portanto é delas que ele aprende tudo que sabe. Eles têm que trabalhar pelos interesses da ordem. Se ele se afasta demais do caminho e vira uma vergonha pra ordem, a ordem vai reagir e com severidade. Os deuses não punem, mas os superiores do personagem estarão de olho e farão isso por eles. Como se houvesse uma Inquisição em cada igreja, vigiando cada membro dela e julgando o que ele tem feito com o que lhe foi ensinado.
Eu só substituí os dogmas dos deuses pelas ordens. Eu muitas vezes nessa vida vi jogadores deixarem de fazer personagens divinos por causa de obrigações e restrições. Com as ordens religiosas eu posso ser mais maleável e flexível nesse aspecto, tendo um leque muito maior de opções. O nosso vingador, por exemplo, eu o convidei a desenvolver a ordem dele, mas ele disse pra eu fazer. Depois de conversarmos um pouco e verificar como ele gosta de jogar (ele é um jogador iniciante ainda), eu decidi fazer dele membro de uma ordem que aborda mais os aspectos do segredo, sombras e ilusão de Emnos. Essa ordem tem espiões em conselhos (o deus tem a alcunha de guia por causa das estrelas) e em locais de grande poder simplesmente para coleta de informações. E existem membros da ordem como o nosso amigo vingador, que são incentivados a sair pelo mundo em aventura sem jamais deixar de reportar o que descobre para a ordem, pois de um dia para outro uma informação que parecia não ser nada pode ganhar uma importância muito maior.

Inspiração para o mapa
As cidades da ilha são algo curioso, hehe. Eu fiz o mapa inteiro da ilha baseado na minha banda preferida, o blink-182. As metrópoles - Markham, Tomhills e Travisen - e a cidade perdida de Scottner são baseados nos integrantes da banda: Mark, Tom e Travis, sendo Scott o antigo baterista que deixou a banda, se não me engano, em 97. Atualmente o Tom foi chutado da banda também e isso deve refletir em missões futuras do grupo (visto que os duques de cada cidade tem o mesmo nome dos integrante das bandas). Pra pensar no funcionamento delas eu tentei usar a interpretação da personalidade de cada um deles. 
Markham é o centro cultural da ilha, visto que o Mark é um cara preso às raízes, que gosta e vive música, se envolve em projetos underground, já teve programa de TV e tudo mais. Assim como o baixista, o duque, de mesmo nome, é uma pessoa simples, bem humorada e adorada pelo povo. Eu conheço gente que já teve contato com o Mark e ele é um cara nesse estilo, convidou um rapaz daqui do Brasil pra assistir um programa dele na TV americana e tratou o cara como VIP e tal. Ele é muito divertido.
O Tom é o cara que tem teorias sobre aliens, meio megalomaníaco (que sempre fala em formar a melhor banda do mundo) e que agora se engaja em trocentos projetos, tendo sido chutado por deixar o blink-182 de lado (além de nunca ter sido o mesmo desde que a banda retornou em 2009, depois de um hiato de quase 5 anos). Por isso Tomhills pra mim é a cidade mais isolada das outras, tem um povo mais sóbrio, tem academias, bibliotecas, sempre na busca por elucidação. E o duque é um cara meio misterioso, mas cheio de peculiaridades, que os outros tem que se virar pra dar conta e agradar.
Já o Travis é o baterista doidão, que se mistura com os rappers, namora famosas e faz coleção de carros. Ele é o cara que quase nunca tirava férias, enquanto o Mark se afastou da banda pelo nascimento do filho, formou uma banda com o Tom e outros caras, aí nasceu o filho do Tom e o mesmo também se afastou, aí o Travis juntou mais uma galera e formou uma terceira banda. Travisen reflete isso, é a cidade que nunca para, onde todo mundo trabalha e tem boas condições pra isso. O duque é dono do cassino de lá, pega no pesado com os trabalhadores comuns e tem a mesma aparência exótica, quase coberto de tatuagens.
O Scott Raynor era o cara mais normal da banda, quieto, quase invisível. Ele saiu da banda quando viu que o estrelato exigia sacrifícios (ou pelo menos é o que ele alega - há uma música, "Man Overboard", em que os caras dão a entender que chutaram o Scott por problemas com alcoolismo e confiança perdida). É a cidade que foi perdida, que hoje não representa mais nada, mas algumas pessoas acham que seria melhor resgatar antes que desapareça por completo (como a atitude da banda, que era bem mais punk na época do Scott). O duque é o cara invisível que quer recuperar a cidade dos antepassados e trabalhar pra conquistar o espaço, mas na sombra das metrópoles.

Música?
Sim. Música é a base de quase tudo que tenho feito. Personagens, história de nações, lendas... Eu venho tendo várias ideias me baseando em músicas que gosto e costumo ouvir. É um processo bem divertido, você tá ali ouvindo a música, prestando atenção à letra, então percebe que ela tá narrando ou deixando a entender alguma questão que ficaria muito legal num RPG. Então eu começo a trabalhar nisso, as vezes até uso mais de uma música pra mesma questão. As bandas TÝR e Elvenking tem sido um prato cheio.

5 comentários:

  1. Nada, como musica pra trazer inspiração, sobre o cenário montado pela influencia da banda, achar a idéia muito boa alem de original, se eu soubesse que seria montado assim, faria meu personagem baseado em um dos meus cantores preferidos e sua personalidade através de suas músicas. Sobre as religiões e igrejas muito bom isso dos deuses não afetarem em nada, vc segue e não tem que ficar falando nele toda hora, anima fazer algo assim. Outro ponto interessante é o de reportar uma determinada informação. No antigo jogo tive uma função assim e adorava faz com que vc preste mais atenção no jogo. Esse blog esta muito bom. Parabéns Rick vc é o cara!

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  2. HUAHUAHAUHAU interessante!
    Já vi muita criação de cenário nesta vida de mestrinho de garagem. Mas música com certeza superou todas elas!! Ponto positivo pra criatividade ai fióte!!!! O elo a intenção de ligar cidades sedes de seu cenário a personalidade de integrantes de uma única banda foi a grande sacada.
    Ao meu ver é comum, quando alguém se mete a '"criar" algo, seja lá o que for, rondar inicialmente seu próprio quintal. É mais pratico, rápido e quase certeiro.
    Mas assim como incentivo e ajuda mesmo, nada de botar bedelho, aconselhamento puro mesmo....Indicaria sempre que possível abrir a mente em outras direções, mesmo que elas não lhe pareçam grande coisa...Pois o que aprendi nesta vida de dados rolando desde 1992 é que esse papel de criar e instalar suas idéias em um ponto comum,num local reconhecido e de fácil acesso, fere o "principio ativo" do RPG em si.... Divertir-se!!!
    Quando dei uma de louco e tentei fechar um mundinho só meu, muito mais motivado pela falta de grana para adquirir suplementos e livros pertinentes, (afinal era tudo em inglês na época ....IMPORTADO e muito raroooooo aqui em Patópolis), acabei buscando um pouco daquilo que atraia a própria leva de jogadores que me rodeavam.
    Não foi fácil mesclar minhas idéias, referencias clássicas, como a era Hiboriana de Conan, e o desejo de ver ali palpável, "jogável" os animes e filmes que a galera gostava...Francamente até hoje isso está em aberto. E sempre será assim pra mim .... Mundo em constante mudança...
    Quem jogou comigo sabe. É a única dica que eu posso dar.... Que você abra a mente para possibilidades diversas , inclusive no panteão, na religião e modo de devoção aplicada. Afinal outros jogarão e nem todos simpatizam, e nem há o porquê disso, somente com a cultura Nórdica....
    É bem possível que alguém que se interesse “em seu cenário” por adorar um Deus único e mais “inalcançável” até para justificar o caminho a que se engaja e suas ações desastrosas, ou assertivas, ou não, vai saber... O interessante é ter, mesmo que não for usado, do que nem sequer existir a possibilidade. A maioria dos jogos MMO, ou de mesa, literatura fantástica, ou de ficção e até mesmo o mundo em que vivemos classificam o panteão local em ordem de poder. Varias culturas foram criadas assim. Politeístas ou não. É mais ou menos por ai.
    Me lembro de como me foi útil o conhecimento de um jogador sobre a cultura oriental e como tais conselhos me fizeram por desenvolver duas das culturas mais ricas e disponíveis á jogadores no cenário que criei. ;)-

    Opções são meios diferentes de chegar sempre a um único resultado!
    Parabéns pelo Blog. Como se esperava, algo clean, pratico e de fácil incursão. E mesmo claramente notando tratar-se de um inicio, se vê que a idéia tem tudo para dar certo! ... vou continuar lendo....

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    1. Valeu mano.

      Sobre as divindades, é uma questão aberta. Como eu disse, as classes divindas são treinadas em ordens e tal. A mitologia nórdica é um exemplo, a grega também serve. As pessoas acreditavam em várias ou em uma divindade e era comum ouvir histórias e lendas de pessoas que se encontraram com esses deuses e tal. Eu fiz desse jeito pra dar total liberdade ao jogador pra ter essa escolha, eu deixo o pessoal criar as ordens da qual participa, etc.

      Pode ter ordem que se aproveita da fé das pessoas pra prosperar, como pode ter ordens que são extremamente fanáticas por sua divindade a ponto de perseguir gente de ordens diferentes. Assim como pode acontecer de uma ordem simplesmente desconsiderar aquela criatura que muitos acreditam ser tal divindade. A ideia é que o mundo saiba que eles existem, apesar de não serem disponíveis.

      E tudo que eu tenho postado aqui no blog, por enquanto se trata daquela ilha ali na sessão de Lore. Eu não gosto muito de falar sobre o futuro da campanha, mas provavelmente eles vão deixar essa ilha e descobrir que são parte de um mundo bem maior (na ilha mesmo, a existência dos deuses não é física, ninguém pode afirmar se eles existem mesmo ou não, por exemplo). E eu estou fazendo o mundo da maneira mais rasa e aberta possível, já falei pros jogadores que se alguém trouxer alguma ideia, a gente pode pensar num jeito de fazer funcionar. Enquanto ninguém traz nada eu vou me virando com o que tenho...

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  3. Gostei da ideia das divindades... mas criar ordens é uma coisa muito louca...Não sei nada sobre mitologia nórdica, só assisti uma vez, um filme do Thor e só!!! Sou sem criatividade, não posso ajudar muito...

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    1. Mitologia nórdica é um exemplo. =P
      Eles acreditavam nas divindades, que elas viviam em outro mundo, etc. Mas existiam lendas e histórias de encontros deles com seres mortais, de jornadas pelo nosso mundo, etc. Como se fosse algo físico e palpável.

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