“Travisen é o maior centro de comércio da
ilha. Próxima a Mutt, uma cadeia de montanhas a oeste, a cidade extrai de suas
minas muitos metais preciosos. Além disso, dona de uma frota invejável de dracares,
fornece aos seus habitantes as melhores condições possíveis para que prosperem
nos negócios, comercializando seus bens em Markham ou Tomhills com mercadores
itinerantes, filiais das guildas dos mais variados tipos de comércio e impostos
razoáveis.
Travis Landon Barker é um duque sem igual.
Empolgado e ousado, o duque é visto no ambiente de trabalho dos habitantes com
grande frequência. Seja a bordo de um dracar para pesca ou acompanhando um
carregamento de metais de Mutt, ele e seu grupo de conselheiros estão sempre em
contato com os mercadores, que acabam sustentando a cidade. No entanto, é
sabido que o duque tem grande fortuna como dono do maior cassino da cidade.
Nomeado Famous, o cassino recebe centenas de jogadores diariamente, tão embriagados
pela perspectiva de enriquecimento rápido que nem percebem o quanto ficam cada
vez mais longe de tal objetivo.
- Oghren Thorgaard, em “A Era Moderna”.
Capítulo 3
O pessoal seguia trabalhando nos reparos da Vadia
dos Mares quando o trio de caça chegou arrastando os cadáveres dos lobos
abatidos. Alguns ficaram inseguros, mas eventualmente cederam à vontade de
finalmente comer alguma carne. Gwen, Foostus e Arthur se dedicaram a preparar o
almoço enquanto o restante ajudava nos reparos. Na hora que tudo ficou pronto,
todos se reuniram num círculo e comeram com gosto. A disputa pelas lebres foi
grande e nem todos conseguiram um pedaço, tendo que se contentar com a carne de
lobo.
- Você já navegou para longe da costa, Lizbeth? – A
pergunta surgiu no círculo.
- Sim, já.
- E o que aconteceu? – Arthur, curioso.
- É desagradável. Você está navegando numa direção,
então tem uma névoa que ia ficando cada vez mais densa. – Ela fez uma pausa,
buscando as palavras. – Então de repente você tá navegando na direção
contrária, de encontro à costa de novo.
- Simplesmente assim? – A psiônica se espantou.
- Simplesmente assim. Mas não é só. Você sai do
nevoeiro meio desnorteado, confuso. Leva alguns dias até estar normal de novo.
É uma sensação muito ruim. – Alguns marinheiros assentiram com a cabeça
confirmando as palavras da mulher.
- Isso é muito estranho. – Todos concordaram, sem
insistir mais no assunto.
...
- Vejam, acho que estamos aqui. – Lizbeth
desenrolara um mapa surrado e velho numa das plataformas de madeira onde
trabalhavam.
- Então essa floresta que pegaram os lobos é
Dumpwood?
- Sim, a borda sudeste dela. Ainda teremos mais umas
três semanas até chegarmos a Travisen, se nada mais acontecer.
- Três semanas em alto mar ainda... – O grupo
lamentou.
...
Os reparos foram terminados dentro do prazo. Na
manhã seguinte ao término dos trabalhos a Vadia estava cortando as ondas
novamente e o ânimo da tripulação estava renovado. O restante da viagem
aconteceu sem grandes problemas. A rotina tomou conta de todos nas semanas que
se seguiram e o único da mesa seis que parecia se divertir era Arannis, quando
treinava os pequenos com a espada. O balanço do mar se tornou um grande aliado
nos treinos de equilíbrio e as crianças realmente gostavam daquilo.
Em treze dias eles avistaram um pequeno porto logo
na foz onde o rio Baixo, que desce de além de Travisen, deságua no mar. Navios
de pesca podem ser observados, bem como alguns dracares e suas cabeças de
serpente. Estas famosas embarcações, estreitas e rasas, eram conhecidas, acima
de tudo, por sua velocidade sem igual. Lizbeth tratou de explicar ao grupo que
os dracares se locomoviam com facilidade pelo curso dos rios, ao passo que
embarcações maiores e mais fundas não conseguiam navegar onde a água era tão
rasa.
Mais alguns dias se passaram até o grupo ancorar no
porto de Travisen em Markeus 9. A capitã tratou de confirmar que seus marujos
ficariam na Vadia dos Mares e conduziu o grupo até uma taverna conhecida, a
Lula Cantante. Era uma taverna de médio porte e destinada aos marinheiros e
viajantes do mar, tendo todo tipo de pessoa como sua clientela sem fazer
julgamentos.
Deixados pela general da guilda logo que os contatos
foram feitos e um alojamento foi alugado, como já era horário propício para o
almoço, o grupo se deliciou com um grande e farto banquete. Exceto por Foostus
e Malaggar, que tomaram uma mesa isolada onde comeram refeições mais modestas
acompanhadas dos melhores destilados da casa, que chegavam a custar até mais
que um banquete.
...
Após terminar o almoço, Foostus, Arthur, Shaysis e Gwen
foram parar no Famous, o maior cassino da cidade. O lugar era grande e exalava
sofisticação. Apesar de estarem sujos e maltratados, ninguém interrompeu sua
entrada. O cassino tinha um movimento razoável nesse horário e logo avistaram
algumas mesas de jogo vazias.
O jogo escolhido para apostar foi o Dicepoker. O
desafiante e um dos jogadores da casa fariam sua aposta de no mínimo 5 peças de
ouro e lançariam cinco dados cada, podendo substituir até dois na segunda
rodada de dados. No final da jogada de dados, os valores são comparados para
definir o vencedor de acordo com suas combinações, que são, do maior para o
menor valor:
-
Quíntuplo: cinco dados com o mesmo valor.
-
Quádruplo: quatro dados com o mesmo valor.
-
Full House: um par e um triplo.
-
Sequência Alta: dados com 2, 3, 4, 5 e 6.
-
Sequência Baixa: dados com 1, 2, 3, 4 e 5.
-
Triplo: três dados com o mesmo valor.
-
Dois Pares: dois pares.
-
Par: dois dados com o mesmo valor.
(Em
caso de empate, as combinações com maiores valores nos dados levam a vitória.
Se forem iguais, uma nova jogada acontece.)
O minotauro foi o primeiro a apostar, perdendo as
três rodadas que disputou, até desistir, já inconformado. O humano foi em
seguida e, apesar de em alguns momentos parecer que ganharia, acabou perdendo também
nas três rodadas que disputou. A elfa foi quem teve mais sorte, ganhando duas e
perdendo outras duas rodadas. As reviravoltas do jogo agitaram o cassino e
muita gente acompanhava e vibrava com cada rodada disputada. Quando todos
haviam jogado o suficiente já era início de noite.
...
Arannis resolveu dar algumas voltas pela cidade por
conta própria. Disposto a ter novas sensações e experimentar novidades, gastou
algumas peças de ouro, indo de barraca em barraca no mercado público e nas
cervejarias. Pôde sentir o gosto de iguarias exóticas que nunca havia ouvido
falar e beber o trabalho de mestres cervejeiros bastante renomados da cidade.
Apesar do ouro gasto, não teve do que reclamar.
...
Com um gêmeo segurando cada uma das mãos, Alanna
visitou todo tipo de lojas e barracas de doces. As crianças se sentiam muito
mais à vontade com ela e tinham bem menos vergonha de pedir pelas coisas que
chamavam sua atenção. A tarde passou voando enquanto as crianças se divertiam e
experimentavam os diferentes sabores de doces oferecidos no mercado público de
Travisen. Algumas moedas de ouro depois, as crianças estavam mais do que
satisfeitas.
...
Todos dormiam tranquilos no alojamento quando voltou
a acontecer. Gwen acordou de súbito com a música que invadia seus ouvidos e
tomava conta de sua mente. Havia anos que esse tipo de coisa acontecia com ela.
Quando criança era mais frequente, mas jamais deixou de acontecer.
Eventualmente ela conseguia ouvir alguma música que ninguém mais ouvia. E o
conteúdo dessas músicas, ou pelo menos parte dele, quase sempre funcionava como
algum tipo de profecia. A elfa tratou de se recompor do susto inicial e,
controlando a respiração, se concentrou na melodia e na letra da música. Idioma
antigo.
O idioma antigo é um dos mistérios do mundo: ninguém
sabe quem o falava, nem de que civilização ele veio. Não há qualquer sinal em
lugar algum de sua aplicação. Não existem dicionários, no máximo alguns livros
de estudo que tem quase todo seu material oriundo de suposições e chutes. É de
se estranhar que existam músicas em língua antiga enraizadas na cultura, no
entanto. Vários pesquisadores dedicaram vidas inteiras a esses mistérios, sem
jamais chegar a algum resultado palpável.
So
young, so brazen, so unholy
I
come to you in painted skies
Your
broken saint, your ancient story
The
living challenge to their lies
Trapped
in the cold outside
There
ain't no shelter
And
they wanna to force my hand
Until
I take what I wanted
And
break all the lies
And
defeat the fucking liars
Smash
all the temples
And
crawl through the rubble
And
cry to the fallen
I'm
the last of my kind still standing
I'm
the last of my kind still standing down the law...
A
wolf alone upon the hillside
I
live on what they throw away
I
go to sleep behind the eight ball
I
live to fight for one more day
Trapped
in the cold outside
There
ain't no shelter
And
they wanna to force my hand
Until
I take what I wanted
And
break all the lies
And
defeat the fucking liars
Smash
all the temples
And
crawl through the rubble
And
cry to the fallen
I'm
the last of my kind still standing
I'm
the last of my kind still standing down the law...
Ao se certificar de que entendia perfeitamente a
música, estava segura de que poderia trabalhar para desvenda-la, já que sempre
que isto ocorreu bastava se concentrar para ouvi-las novamente como se fosse a
primeira vez. Muitas vezes esse tipo de profecia está escondido na letra, essa
era a primeira vez que ela ouvia no idioma antigo. Torcia para que tivesse
tempo para estuda-la e se preparar adequadamente para o que quer que viesse. Em
todos os dias seguintes era comum que a elfa deixasse a taverna para longas
consultas na biblioteca de Travisen.
...
Já era Markeus 17. O sol havia se posto e a lua
assumira seu lugar quando o grupo se reuniu novamente na Lula Cantante. Um
bardo dava as boas-vindas aos clientes com as notas agradáveis de seu alaúde e
o timbre harmonioso de sua voz. Desta vez ninguém se isolou e uma das maiores
mesas foi tomada pelo grupo para que todos pudessem estar confortáveis. Lizbeth
logo se juntou a eles.
- Bom, tudo parece encaminhado. Agora é só esperar o
restante chegar. – A capitã se recostava na cadeira, visivelmente cansada.
- Então era nisso que esteve trabalhando?
- Sim. O duque é bem favorável a essa operação.
Estou tentando conseguir mais alguns soldados, quem sabe...
A conversa foi interrompida com a entrada de um
grupo de marinheiros na taverna. Eles vestiam roupas simples, surradas, tinham
várias tatuagens no corpo e eram barulhentos. Entraram fazendo baderna e
tomaram uma das mesas, onde fizeram seus pedidos em voz alta: cerveja. Lizbeth
olhava um pouco intrigada, enquanto a maioria do grupo já se colocava alerta,
esperando algum tipo de problema.
A conversa foi retomada, mas não demorou para que um
dos marinheiros se aproximasse. Ele tinha uma bandana enrolada na cabeça, olhos
azuis e uma expressão de deboche. As roupas deixavam suas canelas, seus braços
e parte do peito à mostra, todos cobertos com tatuagens dos mais variados
tipos. Ele andava desinibido e confiante, trazendo consigo uma cadeira, que
depositou de frente para a capitã.
- Boa noite, pessoal.
- Boa noite. – Resposta seca em uníssono.
- E então, será que conseguem? – Apoiou os cotovelos
na mesa e vendo que ninguém respondia, insistiu. – Scottner. Será possível
mesmo?
- É o que veremos. – Respondeu Arthur.
- Entendo. Bom, todos preparativos estão feitos para
a chegada dos outros, então só lhes resta esperar. – Comentou o marinheiro,
levando sua caneca de cerveja à boca.
- Precisamos ver se conseguimos apoio do duque. –
Comentou Arannis.
- Ah é, que tipo de apoio? – Sorriu o homem.
- Não sei, qualquer coisa que ajude. Acha que ele
ajudaria? – Emendou Gwen.
- Ajudaria, claro. – Riu enquanto encarava Lizbeth, que
revirou os olhos. incomodada.
- Ah, não me diga que você é o duque? – Alanna
perguntou ao reparar em algumas joias que o tatuado usava.
- Pois é. – Respondeu enquanto sorvia longamente a
cerveja da caneca. – Travis London Barker, prazer. – Fez uma mesura discreta
com a cabeça, recebendo um gesto parecido como resposta.
- Então você vai ajudar a gente? – Arthur insistiu.
- Ajudo. Alguns soldados. Veremos até a partida.
- Muito bom saber. – Se animou Shaisys.
- Também tenho batedores enviados para Scottner.
Espero que consigam informações úteis. Assim que tivermos algo concreto, os
responsáveis serão devidamente alertados.
- Bom, cada vez fica mais provável... – Comentou
casualmente o eladrin.
- Eu torço para que aconteça. Mas vou voltar à minha
mesa. Até mais. – Se despediu o duque.
- Pois é. Ele é duque, mas trabalha no meio do povo.
Sempre. Não parece um duque, não é?
Todos assentiram com a cabeça. Os dois duques que
haviam conhecido até agora eram muito estranhos perto do que se esperava da
mais alta nobreza, mas todos acharam por melhor não dar voz a tais opiniões num
local público.
...
Abellas havia chegado, já estavam em seu 6º dia
quando alguns membros da guilda começaram a aparecer na taverna. Curioso e
impaciente, o grupo logo procurou coletar informações. Erben tratou de
deixá-los a par da situação: o galeão havia chegado e a cavalaria se movia para
a cidade. Logo estariam prontos para partir. Os mercenários da mesa seis
ficaram ainda mais ansiosos. O solstício de verão passara desapercebido pelo
grupo e as temperaturas subiam cada vez mais.
...
Em Abellas 12 todos estavam se movendo ao primeiro
raio de sol. Enquanto alguns membros da guilda subiam o rio nos dracares
carregados de suprimentos, o grupo caminhava junto ao corpo das forças dos
Silverhawks, acompanhados por 30 cavaleiros de Markham e outros 40 cavaleiros
de Travisen. Neste tempo todo juntos, quase todos aproveitaram para se afeiçoar
às crianças. Quietas, mas sempre interessadas em tudo que lhes aparecia pela
frente, elas continuavam seu treinamento com Arannis, conseguindo enfim
reproduzir alguns dos golpes mais básicos com suas espadas de madeira.
Foram sete dias de caminhada forçada, quase sem
descanso. O ânimo do grupo ia baixando conforme a jornada exigia mais e mais
dos seus corpos. Alguns revezavam para carregar as crianças quando elas se
cansavam, nas no final das contas o eladrin viu que acabava sendo um bom
treinamento para aumentar sua resistência. Poucas palavras foram trocadas
durante a viagem, todos concentrados e se preparando para o que estava por vir.
Ao chegarem na nascente do rio Baixo, um acampamento
estava sendo improvisado. Algumas tendas estavam espalhadas por um campo aberto
um pouco ao norte do rio, onde os suprimentos eram organizados e servos andavam
para lá e para cá com seus afazeres. Escudeiros poliam armaduras, mercenários
afiavam armas e os recém-chegados se deitavam no primeiro canto vago com sombra
que encontravam, na esperança de ter finalmente algum tempo de descanso. A
maioria ficou satisfeita em saber que teriam o dia todo livre para recuperar
suas forças. Os cavalos eram alimentados e escovados por pajens enquanto seus
donos dormiam como pedra no meio do mar de mercenários que tomava o campo,
excepcionalmente mais prata que verde.
Quando o sol já concluía sua partida, os integrantes
do grupo apelidado de mesa seis foram chamados à tenda dos comandantes. Ao
chegarem, encontraram debruçada sobre um mapa sua general Lizbeth. Seus três
comandantes, Amgram, Afhala e Elran, estavam à volta da pequena mesa improvisada,
lanternas os cercando para que a noite não os atrapalhasse. As vozes eram altas
e ríspidas, mas logo que o primeiro da comitiva colocou de lado o véu que
tapava a entrada para a tenda todos se silenciaram e assumiram uma postura mais
digna, aguardando com seriedade que todo grupo estivesse presente.
- Mesa seis. Sejam bem-vindos. – Soou cordial a
general.
- Boa noite. – Seguiram os três comandantes,
recebendo a mesma saudação do grupo.
- Venham, vou lhes explicar o que precisam fazer. –
Chamou a bela humana, ajeitando uma mecha do cabelo que insistia em cair no
rosto.
- A tarefa de vocês não será fácil, mas acreditamos
que conseguirão. – Alertava o anão.
- Vejam o mapa, feito com base nos relatos dos
batedores do duque.
Todos se aproximaram, notando os desenhos
improvisados que mostravam de maneira rústica a cidade, seus portões e alguns
pontos que talvez tivessem importância, tanto dentro como fora dela. Enquanto
observavam o mapa, Scott, seu contratante, adentrou a tenda, um pouco ansioso.
- Boa noite. Já explicaram a eles? – O nobre
questionou enquanto se posicionava ao lado dos comandantes, do lado oposto da
mesa.
- Estamos fazendo isso agora. – Respondeu secamente
Elran.
- Vamos do começo então. O nosso nobre amigo, senhor
Raynor, alega que em sua mansão, na cidade, havia uma rota de fuga escondida
para que fosse usada em caso de alguma emergência.
- Sim. Ela fica mais ou menos por aqui. – O humano
circulou uma parte do mapa com o indicador. – Havia uma torre, ela pertencia a
um mago amigo da família. Ela estava ligada à nossa mansão pelo subterrâneo.
- É muito importante que encontrem esta torre. Vocês
irão à frente da força. Vocês vão se infiltrar na cidade através dessa
passagem. – Explicou Lizbeth, encarando o grupo.
- Mesmo que os orcs estejam a par dela, vocês terão
uma chance de luta, visto que são túneis. Não seria possível para eles
colocarem todos os seus lá dentro. – Explicou Angram.
- Sim, os túneis são perfeitos para uma força
pequena, pois são bem estreitos. – Explicou o nobre.
- Certo. E o que mais? – Questionou Gwen.
- Vejam no mapa, aqui é a mansão onde vocês estarão
ao deixar os túneis. – A general continuou explicando, indicador no mapa. – Ao sair
de lá, vocês terão duas tarefas de grande importância.
- Ali é a ponte levadiça do portão leste da cidade. –
Apontou Afhala, até então em silêncio. – Vocês precisam chegar até ela e descer
a ponte. Façam o que for preciso para que não consigam levantá-la mais.
Destruam o mecanismo, sei lá!
- A cavalaria cedida pelos duques estará nesse
portão. Eles vão invadir a cidade e a mobilidade vai permitir que eles causem o
caos por lá. – Completou o elfo carrancudo.
- Soem este chifre. – A humana entregou a Arannis um
chifre bem polido e de tamanho razoável. Ao toque foi possível perceber que
haviam propriedades mágicas no mesmo. – E então a cavalaria irá investir pela
ponte.
- Então vocês vão aproveitar a distração que a
cavalaria vai proporcionar e vão correr ao portão sudoeste. Ali vocês vão abri-lo
e mantê-lo aberto. – Instruiu o guerreiro anão.
- O corpo das nossas forças estará lá, atraídas pelo
chifre. Assim que o portão for aberto, elas marcharão pela cidade e vocês só
precisarão garantir que o portão continue aberto. De resto, o exército vai
cuidar. – Concluiu a tiefling.
- Só isso? – Foi irônico Arthur.
- Só isso. – Riu Amgram. – Depois que todos
estivermos lá dentro, vocês podem até dar uma cochilada que nós acabaremos com
os orcs.
- Bom, plano entendido. – Se pronunciou Malaggar,
surpreendo a maioria dos presentes.
- Vão descansar. Vocês partirão pela manhã. Vocês
devem iniciar o ataque ao anoitecer, daqui sete dias. É o tempo que
precisaremos para ter todas unidades em posição.
- Sete dias... – Memorizou Foostus.
- Sete dias. – Confirmou Lizbeth. – Mesmo que
cheguem até a entrada antes, esperem o tempo certo.
- É muito provável que cheguem antes. Terão um tempo
para se preparar melhor. – Scott, otimista.
- Entendido.
- Vão descansar. – Concluiu a general, dispensando-os
com um gesto.
A ansiedade do grupo voltou a atacar. Eles
caminharam lado a lado após saírem da tenda de comando, em direção à própria
tenda, conseguida no decorrer da tarde. As crianças estavam sentadas num dos
cantos com uma das serviçais, que as observava de perto. Alanna se aproximou dos
pequeninos.
- Amanhã nós vamos ter que sair. Vocês se comportem.
– Ela pediu, recebendo um gesto positivo de ambas crianças.
- Nós nos encontraremos em alguns dias, aqui ou lá
na cidade, de novo. Você, – ela falou com a serviçal – fique de olho neles. Não
deixe que se afastem daqui e se o pessoal for deixar o acampamento, leva-as com
você. Quando retornarmos, estaremos na Lula Cantante.
A mulher sinalizou positivamente com a cabeça. As
crianças, próximas, olhavam a todos com repreensão. Seus olhos davam a
impressão de que tinham noção do que acontecia. Por momento, alguns chegaram a
suspeitar que talvez as crianças soubessem muito mais do que aparentava, mas
logo passou quando elas voltaram a brincar.
- Nós temos dinheiro. Cuide bem delas e nós
pagaremos bem. – Completou a meio-elfa.
A mulher se retirou da tenda animada com a perspectiva
de ouro simplesmente por cuidar de crianças. O grupo se ajeitou da maneira mais
confortável que cada um conseguiu encontrar e voltaram a relaxar, aproveitando
o jantar e esperando pela próxima manhã. Finalmente a invasão se iniciaria.
Depois de tanto tempo parados, alguns clamavam por alguma ação.
...
O sol nasceu e o grupo já estava pronto para partir.
Depois de uma rápida despedida das crianças, encontraram Lizbeth e Scott na
saída do acampamento, que trataram de desejar boa sorte e incentivar o sucesso
deles. Determinados, iniciaram a jornada em procura da tal torre abandonada. Os
ânimos estavam em alta novamente e alguns apertavam suas armas ansiando por uma
chance de usá-las.
...
Dois dias de avanço e o grupo chegava na entrada
para a floresta que cercava a cidade. Gwen e Arthur trabalharam na busca por
rastros e constataram que há vida ativa por ali, mas por enquanto nada
alarmante. Sem grande esforço a comitiva foi capaz de traçar uma trilha por
meio da vegetação um pouco mais densa do novo ambiente. Sabiam que deveriam
ficar mais alertas a partir de agora, pois a floresta é local de muitos
predadores.
Já era tarde quando o grupo avistou ao longe os
restos de uma torre se destacando entre a copa das árvores. A elfa novamente se
colocou a procurar por traços de vida e encontrou. Alarmados pelos possíveis
perigos que espreitavam no verde, eles seguiram cautelosos, constatando que a
torre realmente estava em estado deplorável. Os tropeços e as peças de armadura
de alguns foram o suficiente para alertar aqueles que agora ocupavam o
esqueleto da torre.
Das ruínas e arredores, surgiram quatro goblins,
suas peles verdes cobertas por malha, com adereços feitos de pele ou ossos de
animais. Todos os quatro carregavam machados em suas mãos e encaram o grupo com
ferocidade. Atrás deles estavam outros dois goblins, ambos vestindo trapos de
couro animal, suas cabeças adornadas com penas e ossos além de um bastão de
osso nas mãos de cada um, para que lançassem suas mandingas. Eles deixaram
clara a intenção de eliminar os invasores e o embate teve início.
Arthur tomou a dianteira do combate, disparando na
direção de um dos goblins com machado, mas sem conseguir atingi-lo. Já com a
corda do arco flexionada antes que qualquer um pudesse agir estava Gwen. Sua
flecha, carregada de energia primitiva, atingiu um dos goblins mandingueiros ao
mesmo tempo que ele disparara uma esfera de energia negra. Ambos foram
atingidos ao mesmo tempo. Enquanto a elfa perdeu a visão, o goblin ficou
confuso e desnorteado, atacando seu aliado próximo com o bastão. O golpe surtiu
efeito, deixando ambos sem reação.
O outro mandingueiro disparou a mesma energia negra na
direção dos restantes, sem atingir a ninguém, já desequilibrado por ter que se
esquivar da energia flamejante invocada por Shaisys. Alanna se moveu agilmente,
atingindo um dos goblins da linha de frente num rápido golpe de sua alabarda
carregada de energia psiônica. Recuperados do susto, três dos seres verdes
avançaram contornando os arbustos. A ardente teve um machado lhe cortando o
braço, penetrando fundo na carne, enquanto o patrulheiro conseguiu com suas
lâminas evitar o machado do seu oponente. O último do trio apenas se aproximou
do combate, sem conseguir engajar na batalha.
O quarto goblin, aturdido com o golpe recebido do
próprio companheiro, apenas cambaleou na direção da elfa, se posicionando para ataca-la
assim que se recuperasse completamente. Malaggar, à distância, canalizava sua
energia, encontrando o corpo de um dos inimigos, ferindo-o com alguma
severidade. Arannis avançou então, mas sem conseguir fazer com que sua espada
atingisse o primeiro mandingueiro no interior das ruínas. Foostus se moveu para
a parte mais movimentada do campo de batalha, desafiando mais um dos goblins e
esmagando carne e osso com seu martelo.
Arthur contornou o goblin mais próximo e numa dança
de lâminas abriu cortes nas costas de um inimigo com ambas espadas. Com
esforço, a seeker conseguiu se desfazer da nuvem negra, recuperando a visão e
encontrando um inimigo à sua frente. Shaisys disparou uma pequena rajada de
energia que atingiu o mandingueiro em cheio, enquanto o mesmo repetia seu golpe
anterior e tirava a visão do patrulheiro. A exemplo do companheiro, o
mandingueiro da ruína, após se recuperar da distração causada pela elfa, tratou
de dificultar a vida do eladrin, tirando-lhe a visão também para então se
afastar, passando por um dos enormes buracos que as pedras das paredes da ruína
já não conseguiam mais esconder.
A meio-elfa mais uma vez usava o alcance privilegiado
para tentar causar dano aos oponentes, agora sem sucesso. Os goblins desafiados
flanquearam o minotauro e colocaram seus machados a trabalhar, arrancando
sangue dos cortes profundos causados com seus golpes. Malaggar mais uma vez
disparava à distância, acertando um dos inimigos e desequilibrando-o, antes de
se aproximar. O eladrin se recuperou rapidamente da cegueira e partiu nos
calcanhares do mandingueiro, estocando com a espada e arrancando-lhe sangue
antes de atingi-lo com energia negativa, derrubando-o. Em apuros, o guardião
apelava para os espíritos, assumindo a forma do arauto do inverno, cobrindo sua
pele e o solo próximo de gelo.
Arthur tentava atacar às cegas, suas lâminas
passando a apenas alguns dedos de seus aliados numa tentativa desesperada e
quase trágica de ser útil. Esquivando-se do goblin próximo, Gwen se afastava,
atirando no mandingueiro que estava mais próximo no campo de batalha,
imobilizando-o com os espíritos imbuídos em suas flechas. A bruxa com sucesso
invocara garras de fogo, que queimaram o mandingueiro e o deixava a mercê do
grupo, esgotado. Tentando fugir de Arannis, o outro goblin mandingueiro usou
seus poderes para lançar uma névoa traiçoeira no campo de batalha, enquanto seu
companheiro retirava a visão da psiônica.
Captando o espírito de luta dos aliados, Alanna
cobriu o corpo de energia positiva, se livrando do cansaço e dúvidas, novamente
pronta para o combate. Os goblins de machado fecharam o cerco em volta do
minotauro, derrubando-o a machadadas. O até então perseguidor da elfa agora se
juntava ao aglomerado de combatentes, atingindo o drow, que devolveu o golpe
cravando seu machado na cabeça do ser verde, tirando-o de cena. Do outro lado
da batalha, num esforço heroico, a lâmina cantante do mago penetrou o tórax do
mandingueiro com quem duelava, passando por pele, carne e osso como se cortasse
papel. O corpo sem vida foi ao chão, enquanto o eladrin se virava para o foco
do combate na procura pela próxima vítima. Foostus lutava para se levantar, sem
sucesso.
O humano continuava sem enxergar, golpeando o ar
frustrado. A halfling, atrapalhada pela névoa que tomava o centro do combate,
não conseguira finalizar o mandingueiro restante com sua magia. Gwen disparou
dessa vez contra um dos goblins de machado, ferindo-o e levando-o a um estado
de frenesi. O mandingueiro, prevendo seu final iminente, fez uma tentativa
desesperada de melhorar sua sorte no combate, mas sem sucesso. A ardent,
recuperada da cegueira, usou seus poderes para imbuir o minotauro com a mesma
energia positiva que usara anteriormente em si, incentivando-o a se erguer e
continuar o combate, enquanto Malaggar se afastava para recuperar a visão.
O goblin furioso atingiu Alanna com força, abrindo
um corte profundo e largo em suas costas, para depois ser eliminado pelo
martelo do guardião, agora recuperado. Arannis se aproximou, finalizando o
mandingueiro que restava separando sua cabeça do corpo num rápido giro de
espada. O patrulheiro, enxergando novamente, chegou até o penúltimo goblin
pelas costas, fincando sua espada maior na região da axila e cortando o pescoço
da criatura com a menor. Os disparos de Gwen e Shaisys na direção do goblin
restante foram evitados.
A meio-elfa tentava se levantar depois do duro
golpe, mal conseguindo ver quando o vingador lançou uma nuvem negra no campo de
batalha, envolvendo ao goblin e a si na escuridão que simboliza seu deus. O
restante do grupo nada pode fazer enquanto a criatura atacava às cegas antes de
ser finalizado pelo drow num rápido giro do pesado machado, que rachou sua
coluna e espirrou sangue para todos os lados.
Exausto, o grupo desabou no mato que envolvia as
ruínas, tentando recuperar o fôlego. Alguns com mais dificuldades que os
outros, só depois de alguns minutos, conseguiram se recompor. Levantando-se uns
apoiados nos outros, olharam em volta para conferir a matança que fizeram. Os
restos dos goblins espalhados, vermelho manchando o verde do mato e do musgo
que cobria o que sobrava das paredes da ruína. Se encarando por alguns segundos
o grupo pensava no próximo passo ainda em silêncio.
Realmente, ficar um longo tempo em um barco sem ter o que fazer é complicado, as crianças e seus treinos caíram do céu. As lutas Arannis esta de mais as explicações de suas ações durante o combate são impecáveis!!
ResponderExcluirsou uma vergonha nas batalhas...
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