domingo, 28 de junho de 2015

Ato I: A Reconquista I

“Sabe-se também que o duque Thomas Matthew DeLonge fez com que dois de seus nobres pegassem em armas para disputar a mão de sua filha, Ava. Charles Thomas Taylor contou com os estandartes de prata dos Silverhawks sob seu comando, enquanto seu adversário, Matthew Walter Wachter, teve os Bruderschaft e seus estandartes alvirrubros defendendo sua pretensão.
Ambos exércitos se encontraram numa das colinas próximas a Tomhills em 2012: Dezerarth 22. A general dos Silverhawks, Meredith Hagbard, foi pega de surpresa pelas armas de cerco dos adversários, algo até então inédito nesse tipo de batalha aberta entre guildas mercenárias. Dizem que pouco depois de decretar a disputa, o duque expressou sua preferência por Wachter e cedeu as armas de cerco da cidade para a batalha. Os Silverhawks foram massacrados, perdendo mais de três mil membros da guilda, quase se desfazendo completamente. Esse tipo de disputa só mostra o quanto o duque Thomas poderia ser cruel com seus súditos. ”
- Bethany Mhyrvielle, em “A Dinastia Estelar”.

Capítulo 1

A Canecada era só uma das várias tavernas da cidade boêmia de Markham. Era uma taverna para pessoas com algum poder aquisitivo, mas se você procura o melhor que o ouro pode pagar, há tavernas mais indicadas. De qualquer forma, sua área se destacava perante as concorrentes, já que tinha espaço suficiente para mais de uma centena de clientes em seu salão. Ainda tinha alguns quartos disponíveis no andar superior. Era o local perfeito para o encontro da guilda mercenária conhecida como Silverhawks em 2015: Janasys 8.
Os selecionados para a mesa seis do encontro da guilda olharam com receio as pequenas filas que tomavam as portas da Canecada, onde alguns oficiais tinham mesas para receber contratos e repassar recompensas. Todos passaram por ali, alguns mais curiosos que os outros, mesmo que isso não lhes rendesse qualquer informação concreta sobre o encontro. Cada um recebeu algumas moedas de ouro pelo trabalho anterior à viagem para Markham. Recolheram seu ouro e foram enviados para a mesa seis. Era quase hora do almoço e uma barda tocava suaves melodias adequadas para o horário.
O primeiro a chegar havia sido Arthur. Não chamava muita atenção, já que humanos existem por todas as partes. Sentou-se da maneira mais confortável possível, acomodou suas armas na cintura e olhava em volta, tentando captar alguma ideia do que deveria acontecer no salão daquela taverna. O movimento ainda parecia tímido, graças ao tamanho amplo do ambiente.
Alanna, uma bela meio-elfa de cabelos louros acobreados se aproximou da mesa e parou atrás de uma das cadeiras numa postura arrogante que lhe era típica. Seus olhos iam do humano sentado ao lado para toda dimensão do salão, curiosa com o evento. Sua alabarda era descansada nas costas da cadeira para que tivesse as mãos livres.
No meio das pessoas que seguiam fluindo para dentro da taverna surgia o eladrin Arannis Dortmund. Uma dupla de espadas era presa às costas num cinturão que passava pelo ombro e cobria parte de sua armadura de couro. Seu caminhar era confiante e altivo. Ao se aproximar da mesa e encontrar os outros dois, cumprimentava-os com as mãos e se apresentando antes de sentar numa das cadeiras.
A próxima a rumar para a mesa era Gwen Zharariel, uma elfa com um capuz por sobre a cabeça e um arco grande às costas. A mão do tiro era protegida por uma luva branca que se destacava no gibão de peles. Por dentro do capuz era possível identificar que seus cabelos eram ruivos. Ao se aproximar da mesa, um breve cumprimento foi dado antes de puxar uma das cadeiras para se acomodar.
Então veio o drow Malaggar, todo de preto, exceto pelo colete prata, honrando as cores da guilda. Capuz alto e expressão fechada, sentou-se sem nenhuma palavra a alguma distância dos presentes, descansando seu enorme machado na cadeira ao lado. Olhava impaciente à volta da mesa, não tinha a mínima vontade de se socializar.
Foostus Ellow foi o próximo a chegar, este sim chamando bastante atenção, já que não é todo dia que se vê um minotauro. Protegia seu corpo coberto por pelugem avermelhada com uma armadura de peles e a primeira coisa que fez ao se aproximar foi colocar o pesado malho no chão. Então, solícito, se apresentou a todos.
A última a se sentar na mesa seis foi Shaisys, uma halfling em robes. Cabelos longos negros, olhos vermelhos e uma cicatriz no rosto, assim todos podiam vê-la ao olhar para baixo. Um pouco receosa, também cumprimentou a todos e se aconchegou numa das cadeiras da mesa enquanto observava os futuros companheiros, ainda que não tivesse sido informada.
- Alguém sabe o que vai acontecer hoje? – Iniciava uma especulação um deles.
- Não gosto disso, da última vez que a guilda de reuniu, deu tudo errado... – Dizia Arannis enquanto cruzava os braços em sua cadeira.
- Você estava presente na derrota da guilda há dois anos? – Perguntou a elfa.
- Sim. Não é uma lembrança agradável.
- Dessa vez vai ser diferente. – Alguns sussurraram apreensivos.
O grupo continuou debatendo por algum tempo, todos curiosos com o que viria em seguida. A taverna já estava com boa parte de sua capacidade preenchida. Um dos funcionários foi até a mesa anotar os pedidos, pagos pela guilda, e logo retornava com os comes e bebes. O almoço correu bem e quase todos na mesa falaram, conhecendo-se melhor. O drow era o único calado, impaciente e irritadiço, evitando que a maioria dos outros sequer cogitasse dirigir-lhe a palavra.

...

Enquanto terminavam a refeição, notaram que alguém percorria as mesas e agora se aproximava deles. Era um gnomo de pele clara e avermelhada, cabelos acinzentados bagunçados e curiosos olhos escuros. Tinha uma tatuagem com símbolo arcano no rosto e usava um robe esvoaçante de cor prata. Ele sentou-se na cadeira livre entre Malaggar e Gwen, sorrindo para todos:
- Boa tarde, meus amigos! Erbencormorn Ronjin Quaros Feltix Arifan Merziver, a seu dispor! – Fez uma leve mesura com a cabeça enquanto todos lhe respondiam com educação, mas ainda assim atraindo os olhares confusos de todos em volta da mesa. – Erben! – Completou, sorrindo. Não entendia como as pessoas gostavam se simplificar os belos e longos nomes gnomos.
- Hoh! Arthur! Como vão suas pesquisas? – Continua o gnomo, olhando para o humano.
- Evoluíram bem, meu caro. E os estudos arcanos? Seguem bem?
A pergunta de Arthur foi o suficiente para que Erben começasse a falar pelos cotovelos. Ambos iniciaram uma longa conversa cheia de termos intelectuais e complicados. O restante das pessoas na mesa apenas podia exibir seus olhares estupefatos, sem entender absolutamente nada do que estava sendo discutido. Arthur e Erben haviam cursado ao mesmo tempo uma das grandes academias de Tomhills. Enquanto o primeiro focava seus estudos nas formas da natureza, o que o levou à carreira de patrulheiro depois, o gnomo era um amante das artes arcanas e gostava de estudar principalmente artefatos mágicos, o que acabou levando-o a se tornar um mago posteriormente.
- Enfim, eu desconfio do que acontecerá aqui hoje... – Provocou o gnomo depois da longa conversa científica com seu colega.
- E o que seria? – Indagaram os mais curiosos do grupo.
- Acredito que vamos finalmente escolher um novo líder. Como vocês sabem, nossa guilda está sem um líder desde a morte da antiga na guerra de dois anos atrás.
- E você tem ideia de quem seriam os candidatos?
- Eu acredito que sejam os quatro que lideram as repartições da guilda. Cada um cuida de uma área nesses dois anos, acredito que todos estejam acostumados a tomar decisões. O problema é que a falta de uma liderança centralizada tem tornado nossa guilda um verdadeiro caos. Vejo com bons olhos essa eleição. – Completou o gnomo, com seu tom de professor.
- Quem seriam os quatro líderes? – Inquiriu Arthur.
- Vejamos... – Erben percorreu os olhos pela taverna. - Olhem ali, a tiefling. – O pequenino apontava para uma estranha mulher num dos cantos da taverna, que conversava e mexia nos cabelos. Apesar do aspecto humano, sua pele era avermelhada e tinha uma cauda longa e grossa. Ostentava chifres à frente de sua vasta cabeleira azul-escuro. Suas roupas eram bastante chamativas.
O grupo inteiro ficou olhando para a mulher, impressionados. Com a exceção de Arthur, que já lera em alguns livros sobre os tieflings, ninguém era familiar com a raça. Quase ninguém era, na verdade. É muito raro que sejam vistos, alguns sequer acreditam na existência de tais seres.
- Aquela é Afhala, comandante da divisão urbana da guilda. Ela geralmente lida com nobres, governantes, juízes e afins.
- O que ela é? – Perguntou um dos ouvintes.
- Uma tiefling. É muito difícil ver um deles. Ela é a única que eu vi em toda minha vida, para falar a verdade... Mas isso não é importante. A questão é que ela realmente se destaca onde vai, mas sabe como ninguém lidar com diplomacia.
- E os outros candidatos? – Falaram em uníssono alguns dos companheiros de mesa.
- Bom, tem também a comandante de nossa divisão naval, Lizbeth Sigwald. Ali ela. – O gnomo apontava para uma belíssima humana de pele bronzeada e longas tranças castanhas. Ela parecia à vontade em meio a outras pessoas, todos com marcas do mar. – Ela passa mais tempo no mar que em terra firme, teve uma vida conturbada, certamente está acostumada a liderar.
O grupo encarou a mulher por algum tempo, examinando-a. Ela estava numa mesa com outros marujos, o grupo todo rindo bastante e bebendo bem mais que a maioria das outras mesas. Sua armadura de couro era simples e os detalhes em prata que remetem à guilda eram discretos. Ficava claro que ela era muito próxima pelos seus comandados.
- Então temos nosso responsável pela divisão de logística, Amgram Dulmar. É o que mais se mexe e mais faz baderna ali naquela mesa só de anões. – Falou entediado o mago.
A atenção do grupo novamente se voltou para outra mesa onde vários anões bebiam e faziam farra. Amgram era o que mais fazia barulho, fosse falando ou mesmo mastigando. Seus cabelos e sua longa barba eram de um tom castanho acobreado, mas o primeiro tinha várias mechas prateadas que realmente chamavam a atenção. Seus olhos castanhos deixavam transparecer sua perspicácia e sua experiência.
- E para finalizar, temos nosso líder da divisão de recursos: o elfo Elran Caiwenys. Aquele sujo na outra mesa. – Apontou o gnomo. – Sei que ele é um pouco, como eu diria? Ele é severo.
- Ruim?
- Severo.
A aparência do elfo não era das mais agradáveis. Suas vestes eram sujas e velhas, tinha muitos apetrechos pendurados, cabelos verde musgo muito embaraçados e a pele com o bronze daqueles que passam muito tempo na natureza. Ele falava de maneira rígida e muito alto para um elfo, toos pensaram, enquanto ele parecia dar uma bronca em um dos funcionários da taverna.
- Eu espero que o anão não vença. – Comentou o Arannis.
- Por que não? – Indagou o gnomo.
- Más lembranças. Ele comandava nosso destacamento na guerra de dois anos atrás...
- Então você estava lá? Que pena, hein. Mas ele não deve ser tão ruim assim, não é? Vocês sobreviveram, afinal...
- Mesmo assim, não me sentiria a vontade sendo liderado por ele depois do que aconteceu lá. – Completou o eladrin, dando a questão por encerrada.
- O elfo, talvez seja bom ter alguém com pulso firme à frente da guilda. – Comentou Arthur.
- E ter um tirano na nossa liderança? – A mesa questionou.
- Bom, um líder deve saber o que fazer, e rápido. – Justificou o humano.
- De qualquer forma, obrigado pelo tempo de vocês. Preciso ir em outras mesas. Até mais! – Despediu-se Erben, partindo em direção a outras mesas para fazer o que mais gostava: falar.
O grupo gastou um bom tempo ponderando sobre os candidatos. As opiniões eram muito divergentes e só o drow não sentia necessidade de expressar as suas. Apesar de tanta discordância, o debate sempre esteve amigável e ninguém erguia a voz. Todos se viam envolvidos na especulação e começaram a tratar a eleição como algo certo.

...

Concentrados no debate, o grupo mal notou quando um meio-orc se aproximava da mesa. Ele só foi notado ao se sentar entre Malaggar e Gwen pois bateu o fundo da caneca na mesa, fazendo um barulho que cessou toda conversa e tomou a atenção. Ele era alto e forte, como se espera de seus semelhantes. Tinha um cabelo moicano e uma cicatriz que passava pelos lábios, que já chamavam atenção com um piercing, até o queixo. Ele exalava a cerveja e alguns se incomodaram com isso.
- Aqueles quatro, hein? Quem será que vai ganhar essa droga? – Indagava com a fala um tanto quanto entorpecida.
- Você conhece eles? – Encarou o minotauro.
- Pessoalmente não. – Respondeu o meio-orc, sorvendo mais um gole da cerveja. – Mas a gente ouve histórias, certo?
- Qual o seu nome? – Continuou Foostus.
- Ah, eu sou Urthaglar. – Bateu no peito.
- E que tipo de histórias são essas?
- Sobre o que fizeram antes da guilda. Alguns até sobre família. Num sei se é tudo verdade, né?
- Ah, nos diga então. Sobre a Afhala, por exemplo. – Sugeriu Alanna.
- Pouco se sabe dela. Parece que ela foi criada num templo por umas... – Ele pareceu pensar um pouco antes de concluir. – Sacerdotisas. Isso! – Completou atraindo um olhar de interesse do drow. – Dizem que saiu por aí em busca de uma irmã, mas nunca ouvi falar de outra tiefling que não fosse ela...
- E sobre a Lizbeth? – Perguntou a halfling.
- Ela? Bem, o que ouvi é que alguém destruiu a casa dela e ela jurou vingança. Nessa busca ela acabou presa e escravizada. Lá ela liderou uma rebelião e conseguiu escapar, ficando perdida nas florestas por algum tempo. Então encontrou uma cidade e se alistou pra guilda.
- Liderou uma rebelião, hein? Parece uma boa líder. – Completou Shaisys.
- O que mais você sabe? – Insistiu Arthur.
- O elfo, Elran. A história dele é interessante, se for verdade. Dizem que ele é filho de uma maga tão ruim que acabou fugindo dela com a irmã, haha. – Deu uma longa golada na cerveja restante na caneca. – Depois parece que acabou salvando a mãe dele, mas virou um fugitivo. Foi surrado por uma bandida, com quem ficou preso numa masmorra.
- Isso que é vida agitada...
- Então, depois que ele saiu, parece que se meteu com umas criaturas das florestas e foi amaldiçoado, não podia mais sentir o gosto de comida ou bebida, o que deve ser a razão pra ele ser tão mal humorado. Mas depois que veio pra guilda ele conseguiu quebrar a maldição, pelo que sei.
- E por último vem o anão... – Suspirou o eladrin.
- Hey, você tava na luta de dois anos atrás, tava não? – O brutamontes apontou o dedo para Arannis.
- Estava. Acho que me lembro de te ver por lá.
- Pois é! Você tava no destacamento do anão, não tava? Do Amgram! Muita sorte a tua, né?
- Não acho. Inclusive não espero que ele vença a eleição aqui hoje.
- E por quê? Quase toda a unidade dele sobreviveu aquela luta! A minha não teve a mesma sorte...
- Conseguiu lá? – Gwen apontava a cicatriz no rosto dele.
- Sim. Nada contra, mas aquela batalha foi complicada. Se o Amgram não fosse tão bom nisso, provavelmente teriam morrido todos, como aconteceu com a maioria dos outros destacamentos. – Seu olhar era sombrio enquanto parecia revirar as memórias.
- O que sabe do anão? – Interrompeu a meio-elfa.
- Ah, ele era um mercador. Não era bem a dele, então ele acabou entrando pra milícia e depois de se desentender com um superior, ficou responsável por fazer escolta à caravanas de mercadores. Irônico, né?
- Eles querem colocar um mercador como nosso líder? – Questionou o drow.
- Bom, mas ele sabe comandar, certo? – Ele encarou Malaggar, até então em completo silêncio. – Enquanto escoltava uma caravana foi atacado por um... Bulette. Criatura bizarra aquela, fez ele se perder nuns túneis subterrâneos.
- Um anão que fica perdido no subterrâneo? Que líder! – Debochou Alanna com um sorriso irônico no rosto.
- Você já viu um bicho desses? Ele ataca pelo chão, faz buracos e te joga lá dentro... Não é fácil. – Justificou o meio-orc.
- Pelo visto ele é seu candidato. – Observou Arthur.
- Ele sabe beber, certo? – Bateu a caneca na mesa. – Enfim, parece que nesse subterrâneo ele encontrou um mapa pra algum tesouro. Desde que voltou de lá, só fala nisso.
- Um cara desses para liderar a guilda? – Pensava em voz alta a halfling.
- Ele é o melhor! Vocês esperam o que? Que uma dessas meninas lidere? – Caçoou o brutamontes.
- Qual o problema? Acha que mulheres não são capazes? – A elfa se irritou.
- Hahahahaha! Fala sério!
- Se tivesse uma mulher na liderança antes, tenho certeza que vocês não teriam perdido a guerra dois anos atrás! – Antecipou-se a meio-elfa.
- A líder era uma mulher. – O eladrin falou com tranquilidade enquanto levava sua caneca à boca.
- Hahahahaha! Tá aí alguém que sabe o que fala! – Zombou o meio-orc. – Mas agora é melhor ir, minha cerveja acabou. Divirtam-se!
Urthaglar se levantou com alguma dificuldade e saiu cambaleando pela taverna. O grupo se entreolhava e novamente debatia sobre as possibilidades de liderança. A taverna já parecia uma grande bagunça. Enquanto Arthur se levantava para ir até o outro lado da mesa tirar as cadeiras extras na intenção de que ninguém mais se intrometesse, Gwen e Foostus notaram numa mesa próxima uma drow afanando um saco de moedas de um colega distraído. Visando disfarçar o ato, a garota se aproximou da mesa e sentou-se discretamente na cadeira que pertencia ao humano.
- Boa tarde. – Ela acenou a todos sorrindo, sendo cumprimentada de volta por todos.
- E você, quem é? – Perguntou a arqueira.
- Neerthrae.
- Ah, você! – Viram Shaisys se empolgar.
- Olá garota, como vão as coisas? – Sorriu a drow.
- Já deixei aquela vida para trás, as coisas estão bem melhores.
- Muito bom, muito bom. – Neerthrae se ajeitou na cadeira, jogando sua cabeleira clara para trás. Seus olhos escarlates passeavam pelo grupo, medindo-os.
- Também tem algo a dizer sobre os candidatos à liderança da guilda? – Alanna já parecia um pouco entediada, mexendo em sua alabarda.
- Ah, sobre eles? Vejamos... – A drow ficou pensativa por algum tempo. – De qualquer jeito, estamos perdidos. Afhala simplesmente não é confiável. Ao primeiro sinal de problemas, tenho certeza que ela viraria as costas e te largaria em apuros.
- Isso que é líder, hein... – Ironizou Arannis.
- Não melhora muito. Amgram é um chato com quase todo mundo, além de paranoico. Ele sempre acha que tem alguém tentando tomar as coisas dele. Isso é um absurdo! – Protestou.
- Absurdo, né? – Perguntou Foostus com um olhar irônico.
- Imagina se alguém da guilda poderia roubar um companheiro... – Entrou na ironia Gwen.
- Pois é, não faz sentido. – Conclui. – O elfo mal sabe se comunicar, ele não pensaria duas vezes antes de trocar sua vida por um conhecimento novo. Não tem como esperar algo bom de um cara desses.
- Eu meio que entendo ele... – Sussurrou Arthur, recebendo um olhar de aprovação do minotauro.
- E para terminar, temos a Lizbeth. Ela gosta de beber, ela coloca os navios dela acima da tripulação e é muito fácil de ser provocada. Imagina esse tipo de pessoa com a vida de todos nós na mão, hein. – Completou atraindo o olhar de todos na mesa, enquanto ela mesma olhava em volta, se certificando de que já havia ganho o tempo que precisava. – Bom, se me dão licença, preciso verificar algumas coisas por aí.
Neerthrae se levantou e se esgueiro por entre as mesas, sempre atenta ao que poderia ver de útil. Gwen e Foostus só tiraram os olhos dela depois que já tinha se distanciado bem. Arthur agora estava entre o minotauro e Malaggar, numa das cadeiras que ele mesmo iria tirar da mesa antes de ter seu lugar tomado pela ladina.
- Enquanto ela estiver por perto, cuidem bem de seus pertences. – Avisou a elfa ajeitando seus pertences.
Após o breve espanto com o aviso da colega, o grupo voltou novamente a debater sobre os rumos da eleição. Os relatos dos outros membros da guilda trouxeram muitas informações novas para a questão, mas as opiniões continuaram muito divididas. Alguns já haviam se decidido e tentavam influenciar os colegas, enquanto outros ficavam em dúvida e faziam de tudo para não decidir antes do tempo.

...

Em meio ao debate, o grupo percebeu que a música foi parando. A barda, radiante no palco, interrompeu a música e espero até que tivesse a atenção de todos. Ela era uma bela humana, tinha cabelos longos louros e olhos verdes, seu corpo coberto por um vestido da mesma cor dos olhos. Sua voz era agradável ao ouvido de todos, não demorou muito para que todos estivessem com seus olhos nela, ansiosos pelo que viria.
- Boa tarde a todos. Faço uma pausa na música agora para iniciar o processo de seleção do novo líder da guilda Silverhawkes. Sem demoras, que subam ao palco os quatro candidatos: Afhala, Lizbeth Sigwald, Amgram Dulmar e Elran Caiwenys.
Os quatro chamados subiram ao palco, com posturas firmes e olhares de expectativa percorrendo o salão. Era difícil ter certeza, mas nem todos pareciam confortáveis com a situação, seja pela disputa que aconteceria em seguida ou por se tornar o centro das atenções. Eles se perfilaram ao lado da barda aguardando.
- Pois bem, a votação será simples e aberta. Vamos iniciar em breve. Você se levanta, se certifica de que não está interrompendo ninguém e então declara seu voto. Façamos com civilidade, certo? – Seus grandes olhos verdes buscando consentimento de todos presentes. – Então que comece!
Assim começou a votação para definir quem lideraria os Silverhawks dali em diante. Espalhados pelos cantos da taverna, os oficiais, pergaminho, pena e tinteiro a postos, marcavam todos os votos, trabalhando de maneira frenética. A cada momento um novo membro da guilda se levantava e gritava seu voto. Ninguém tentou fazer graça, ninguém tentou tumultuar, todos sabiam o que estava em jogo.
Elran continuava sereno. Ele remexia em suas vestes surradas, demonstrando um certo desinteresse no que acontecia. Afhala, em suas roupas de cores brilhantes, brincava com o cabelo. Ela olhava diretamente nos olhos de cada um que se levantava, sorrindo. Amgram tinha consigo uma caneca de cerveja, sorvendo seu conteúdo de tempos em tempos. Apesar disso, seus olhos estavam atentos aos votos. Lizbeth roía as unhas, nervosa. Ela ia de uma posição à outra, desconfortável, as vezes parecia perdida nos próprios pensamentos.
Foostus, assim como Urthaglar, esteve entre os treze que optaram por votar no anão. Allana, assim como Erben, foi uma das quinze pessoas a confiarem na tiefling. Arannis e outras vinte e três pessoas se viram desapontados ao ver o elfo perder pela diferença de um único voto. Gwen e Shaisys faziam parte dos vinte e cinco que deram a liderança da guilda à Lizbeth. Arthur e Malaggar, a exemplo de Neerthrae, não votaram, como tantos outros membros da guilda que não conseguiram se decidir.

...

- Pois bem, amigos, sou grata pela confiança. – Iniciou seu discurso a bela Lizbeth. – Mas agora que o lugar na liderança é meu, desejo parar com rodeios e partir logo ao que interessa: contrato novo.
Os poucos que não prestavam atenção à capitã, agora se viraram para ela. Começavam a ter uma ideia de quem é sua nova líder. Um novo contrato apresentado na frente da guilda inteira só poderia significar uma ação total. A guilda inteira se envolveria, trabalharia unida em busca do objetivo da missão. Alguns tinham medo disso, outros aguardavam ansiosamente por esse momento.
- Temos um novo contrato e eu estou aqui para anunciar do que se trata. A maioria de vocês já ouviu falar de Scottner, a cidade que foi perdida há algumas décadas para tribos de orcs e goblins. A nossa nova missão é simplesmente invadir e retomar a cidade.
Um homem chegou sabe-se lá de onde e ia subindo no palco. Ele vestia-se como um nobre, tinha porte de nobre, mas não ostentava brasão nenhum. Seu casaco era vermelho e sua calça branca, com luvas e longas botas de couro. Vestia um chapéu escuro que foi tirado em uma breve saudação perante a guilda. Todos puderam notar que carregava uma caneca numa das mãos.
- Boa tarde, meus amigos. Sou Scott William Raynor. Serei seu patrono nesta missão mencionada pela sua nova líder, que aliás, merece os meus parabéns pelo novo cargo. – Falou de maneira animada, apertando a mão de Lizbeth, que aceitou o gesto um pouco contrariada.
- Há cerca de trinta anos, Scottner foi perdida. Desde então minha família sonha com o dia em que poderemos adentrar novamente nossa casa, ostentar nosso brasão nas ameias da cidade e providenciar para que nosso povo não passe mais por dificuldades. Fomos os duques de Scottner por muitas gerações, a perda da cidade foi uma grande tragédia que se acometeu sobre meu avô.
Ele falava convicto e com propriedade. A todos parecia sincero e determinado. Notava-se que não era tão velho quanto a maioria dos aristocratas, tendo algo próximo de quatro décadas de vida. Fez uma breve pausa para bebericar da caneca de cerveja.
- Meu pai viveu com grande pesar, buscando obter recursos para um avanço na tentativa de retomada da cidade. Infelizmente os deuses o tiraram de nós e eu assumi este fardo. Eu peço, por favor, me ajudem. Aquela é minha casa. Não devemos deixa-las à mercê de criaturas bestiais como as que habitam suas ruas nos dias atuais. Peço sua força para que possamos retornar Scottner a seus tempos de glória! Porque eu sei que os Silverhawks são capazes! Vocês são fortes! Acabemos com os malditos orcs!
O final do discurso foi inflamado, cheio de paixão. A guilda se viu contagiada. Boa parte gritou apoio ao futuro duque, bateram canecas em mesa e fizeram todo tipo de barulho. Os medos se foram e a determinação para elevar novamente o nome da guilda levou a melhor. Lizbeth olhava impressionada enquanto Scott terminava de esvaziar sua caneca. A guilda iria para a guerra e parecia animada com isso. O ânimo de todos ficou ainda maior quando foi dito que além da festa de hoje, teriam o próximo dia de folga e só deveriam se apresentar na manhã do outro dia, no porto da cidade.

...

O grupo estava apreensivo e agitado. Todos falavam com todos, até notarem que Lizbeth se aproximava. A beldade puxou uma das cadeiras, virou as costas dela para a mesa e sentou com as pernas abertas e o colo encostado na cadeira, abraçando-a.
- Pois bem mesa seis. Vocês são o grupo que separaram. Por algum motivo acreditam que vocês serão uteis, então vocês serão uma espécie de unidade singular da nossa força. Vocês vão trabalhar juntos daqui pra frente. Tem quartos reservados aqui na Canecada até o início dos preparativos pra viagem. Depois a gente vê como faz.
- E por que somos esse grupo especial?
- Vocês terão tarefas diferentes. Devem saber que tem coisas que não dá pra fazer com um exército inteiro na nossa sola. Então vocês vão agir. Depois terão mais detalhes, por enquanto a minha ordem é que aproveitem o dia, descansem na folga e estejam prontos quando precisarmos. Se conheçam.
Ela se levantou e partiu para outra mesa. O grupo foi deixado para que se conhecesse e eles não se esforçaram muito para seguir essa ordem.

...

- Acho que já está na hora de parar de beber. – Sugeria Alanna.
- Mas o que? Sabe... – Arthur encarava a caneca de cerveja, tentadora.
- Qual é? Vai pra lá, mulher! Deixa a gente beber em paz! – Rugiu um dos vários anões que estavam na mesa com os dois membros restantes do grupo ainda no salão da Canecada.
- Pois é, ainda tem cerveja... – Tentava apaziguar o humano com a fala mole.
- Ah, eu vou subir também. Me dá aqui seu ouro, antes que te roubem. – Se irritou a meio-elfa, levantando-se e pegando sua alabarda.
- Aqui, aqui. – Entregou um dos sacos de moedas, esquecendo-se do que acabara de receber.
- Agora sim! Beber! – Gritou Amgram ao ver a garota subir as escadas, acompanhado por gritos de aprovação dos outros anões na mesa.

...

- Vai! Vai! Vai! Vai! – Repetiam os anões em volta da mesa gritando.
Foostus, depois de um passeio pela cidade de Markham retornava à taverna e via seu novo companheiro, Arthur, testando sua força contra o meio-orc com quem falaram mais cedo. A disputa por um momento pareceu que seria dura, mas num único movimento Urthaglar pôs fim à queda de braço. Ele ainda teve tempo de ver o pedido de revanche do amigo ser aceito, mas ele não teve chance nenhuma nela também.
O minotauro passou pelo salão da taverna observando a baderna que se agitava por ali. Outras quedas de braço, jogos de carta, pessoas se socando, havia de tudo. A noite se aproximava e o plano era descansar depois da infrutífera caminhada que levou mais da metade da tarde. A cidade era grande, mas não tinha tantas atrações que lhe agradassem.
Chegando no quarto do grupo, viu Malaggar orando em silêncio num dos cantos. Shaisys dormitava numa das camas. Gwen parecia ter chegado há pouco e estava ajeitando suas coisas próximas de sua cama e Arannis parecia meditar. Alanna estava deitada, perdida em pensamentos. Ainda haviam três camas livres: aquela que seria a sua, a de Arthur e uma que sobrava. A maioria das tavernas que tinham quartos ofereciam de seis a dez camas em forma de alojamento. O quarto era simples e, além das camas, só tinha uma cômoda num dos cantos. Resolveu descansar também.

...

Nem todos estavam acordados quando os anões entraram no quarto e deixaram Arthur mole em uma das camas livres. Aparentemente ele bebeu tudo que aguentava e o que não aguentava. O drow se irritou com a barulheira dos visitantes indesejados enquanto os outros não se importaram. Já era noite e o barulho na taverna era bem menor. Provavelmente a maioria do pessoal já tinha partido para descansar. Não demorou para que todos voltassem a repousar depois do estardalhaço dos bêbados.

...

Dor. Todos sentiram uma dor absurda e acordaram imediatamente, suando, sentindo uma dor até então inédita para todos. Alanna, através de seus poderes psiônicos, captou o sentimento de algum agonizante e, incapaz de segurar algo tão forte, deixou que escapasse para seus novos companheiros. Todos se levantaram, confusos, tentando entender de onde vinha aquela dor dilacerante no peito.
- Alguém. Alguém está morrendo. Eu consigo sentir sua agonia, precisamos ajudar. – Dizia a meio-elfa enquanto procurava se concentrar na origem da dor.
O grupo se entreolhava enquanto se recuperavam do susto, alguns indecisos quanto ao curso de ação. Arthur tinha uma dor de cabeça aguda, além de não estar entendendo nada do que se passava. Não demorou até que todos concordassem em ajudar e o grupo partiu arrastando o patrulheiro consigo depois de vestirem suas armaduras e pegarem suas armas. Desceram as escadas e encontraram a taverna paralisada, apenas um ou outro bêbado jogado nas mesas aguardando a manhã da vergonha.
Logo estavam nas ruas. Fazia frio e a manhã não demoraria a chegar. Nas vielas por trás da própria taverna provavelmente encontrariam o que procuravam, segundo os sentidos da ardent. Evitando fazer barulho, se esgueiraram pelas passagens estreitas, evitando dejetos jogados pela população, ratos e alguns gatos que aproveitavam o local para se alimentar. Depois de algumas intersecções encontraram um pouco de sangue e seguiram seu rastro.
Logo avistaram numa rara abertura um corpo enorme no chão, as costas descansando na parede, rodeado de sangue. Ao se aproximarem notaram que se tratava de um golias, uma raça nômade de quase gigantes que costuma ser vista principalmente na região mais noroeste da ilha. Ele tinha um ferimento gravíssimo no peito, provavelmente havia sido atravessado por uma arma. Em cada um de seus braços estava uma criança envolta num manto grande. Usando suas últimas forças, ele sussurrou ao grupo:
- Cuidem das crianças, não deixem que os peguem... – Tosse forte acompanhada de sangue. – O medalhão delas. Nunca deixem tirar. Nunca. – Sua boca continuava se movendo, cada vez mais devagar e agonizante, mas nenhuma palavra saía mais dela. Não demorou muito para que estivesse morto.
Impressionado, o grupo se arrastou de volta à taverna carregando as duas crianças. Pelo tamanho, aparentavam ter quatro ou cinco anos humanos, eram um garoto e uma garota. Uma rápida inspeção constatou que o sangue que sujava as crianças era do próprio golias e que elas estavam bem, apesar de inconscientes. A chegava à taverna aconteceu rapidamente e o grupo conseguiu ser discreto ao voltar para seu dormitório sem chamar nenhuma atenção.
As crianças foram colocadas nas camas e o grupo se apressou para inspecioná-las com maior cuidado. Eles pareciam elfos. Arannis acreditava que eram eladrin. Ambos tinham cabelos tão brancos como a neve, pele pálida e seus olhos de fato eram como os do soldado. No entanto, a cor dos olhos se diferenciavam dos do Bladesinger: os olhos do garoto eram dourados, enquanto os olhos da garota eram lilás. As crianças continuavam inconscientes.

...

Gwen, Arannis e Alanna estavam novamente saindo da taverna na direção de onde deixaram o corpo do golias. Chegando na entrada para as vielas, a elfa foi incrivelmente capaz de ouvir vozes, apesar de não conseguir discernir o que era dito. Optando pela discrição, a ardent resolveu ficar com sua armadura barulhenta enquanto o bladesinger e a seeker avançavam pelas vielas em busca dos donos das vozes.
Apesar de conseguirem enxergar com o auxílio da luz da lua, Gwen se distraiu com a procura pelo corpo e acabou tropeçando num gato preto que se escondia muito bem nas sombras. Qualquer chance de surpresa foi desfeita, por sua queda nos dejetos da viela causaram um grande barulho que provavelmente alertou sua caça. Sem tempo a perder, Arannis decidiu aumentar o ritmo e partiu no rastro dos perseguidos, chegando até a abertura.
O corpo não estava mais lá, mas era claro pelas manchas de sangue no chão que ele estava sendo arrastado para fora dali. Não era difícil seguir o rastro, mas ao conseguirem ouvir a quantidade de passos, a dupla ficou na dúvida se deveria continuar a perseguição. Com certeza estavam em desvantagem numérica, já haviam perdido o elemento surpresa e ainda não tinham a menor ideia do que se tratava. Por isso abortaram sua busca e retornaram cabisbaixos.

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O sol tomava conta do céu e o grupo continuava em volta das camas onde as crianças repousavam. Eles conferiam diversas vezes os mesmos detalhes buscando respostas para as diversas dúvidas que tinham. Arannis foi quem conseguiu algo mais concreto ao conseguir sentir magia misturada a algum outro tipo de energia que ele não conhecia, perceptível apenas ao tocar seus medalhões. Mesmo a um dedo de distância, era impossível sentir qualquer coisa vinda do objeto, o que o deixou bastante impressionado.
O grupo seguia discutindo as mesmas questões desde que se juntaram novamente no dormitório: quem seriam as crianças, o que fazer com elas, contar a quem sobre elas, entre tantos outros problemas derivados dessas questões. Os pequenos eladrin continuavam inconscientes apesar das tentativas de acordá-los. Cada minuto deixava a situação ainda mais tensa e aumentava as dúvidas em suas mentes.

...

A metade da manhã se aproximava quando as crianças deram sinais de estar despertando. A expectativa de todos crescia. Alanna se colocava ao lado deles esperando para trocar as primeiras palavras, Gwen já havia buscado comida, Arannis observava apreensivo, Shaisys com os cotovelos na cama, Malaggar considerava as possibilidades a favor de sua ordem, Foostus se afastava para evitar deixar uma má impressão, enquanto Arthur continuava a dormir. O humano era o único que não havia participado do debate, logo que voltara ao dormitório cai na cama e dormiu como uma pedra devido ao efeito da cerveja de mais cedo.
Os pequenos acordaram assustados, como era de se esperar. A meio-elfa fez de tudo para tranquiliza-los, eventualmente conseguindo. Receosos, eles comeram o que lhe deram e beberam o leite com gosto. Não demorou muito para perceber que eram, ou estavam mudos. Nem a leitura labial conseguiu fazer com que fossem entendidos quando as crianças tentaram expressar alguma coisa. Som nenhum deixava suas gargantas. O eladrin desconfiou de magia.
Quando as crianças começaram se sentir mais à vontade, algumas informações foram surgindo. Aparentemente elas não conheciam o céu, o que explicava sua pele pálida. Eles mostraram ter convivido com eladrin, meio-elfos e humanos. O garoto mostrou interesse em armas, enquanto a garota deixou que arrumassem seu cabelo, vaidosa. Seus olhares denotavam inteligência, passando por cada detalhe dos presentes e da sala. Tinham uma atitude até certo ponto desafiadora e positiva. O resto da manhã passou muito rápido.

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Enquanto alguns se aproximaram das crianças, outros passaram a manhã buscando por Lizbeth, sem sucesso. Eles chegaram e encontrar a escuna da capitã, mas não conseguiram qualquer notícia sobre seu paradeiro. Eles esperavam que a líder da guilda pudesse dar alguma direção sobre o que fazer sobre as crianças. Vendo que as buscas eram infrutíferas, se juntaram aos outros em seu quarto na taverna depois de algumas horas.
Depois de mais um tempo discutindo os próximos passos, resolveram descer para uma nova busca, então viram a capitã numa das mesas almoçando e negociando com dois homens. Um deles era o líder dos Raynor, seu atual contratante. O outro se vestia de laranja, cor do brasão da casa do duque de Markham. A conversa parecia séria. Notando que o grupo a esperava, Lizbeth pediu licença e se aproximou deles.
- Hoje é folga, lembram?
- Mas nós precisamos falar com a senhora...
- Pois bem, peguei uma mesa e almocem. Terminando de tratar de algumas coisas aqui, vou ver vocês.

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O grupo se deliciou com um banquete enquanto esperava pela capitã. Algumas questões voltaram a ser levantadas, mas todos pareciam aliviados por encontrar uma figura de liderança. Eles olhavam ansiosos para a mesa onde a negociação acontecia, esperando sua chance de finalmente chegar a uma conclusão. Alguns iam se apegando às crianças, outros traçavam planos para elas e havia até quem não se importasse nem um pouco.
- Pois bem, podem falar. – Se aproximou Lizbeth, girando uma cadeira e encostando as costas da cadeira na mesa, sentando-se de maneira bem informal, braços cruzados na mesa.
- Nós temos algo incomum para reportar. Nessa madrugada...

...

- E vocês esperam o que? Que eu diminua as forças da guilda pra montar uma guarda pra essas crianças?? – Provocou com ultraje a capitã.
- Não, mas elas podem ser especiais, não sei. A situação é toda incomum. – Argumentou Alanna.
- Especiais? E se não forem? Vejam, o que cada um faz na sua vida pessoal não é problema da guilda. Não vou proibir que vocês fiquem com essas crianças ou qualquer outra decisão que tomem. Mas a guilda não pode se envolver.
- Vocês não podem nos ajudar? – Arannis questionava.
- E como? São crianças! Talvez até sejam crianças de alguém poderoso, mas e se não forem? Não posso agir às cegas. Temos uma guerra pela frente!
- Você poderia pelo menos vê-los, certo? – Apelou o patrulheiro.
- Certo, vamos lá.
O grupo acompanhou sua líder subindo as escadarias até chegar ao seu dormitório. Lá as crianças estavam sob os cuidados de Shaisys. Lizbeth se aproximou delas, encarou-as por algum tempo, então se virou e desceu novamente, seguida por alguns membros do grupo, enquanto os outros se olhavam em confusão no quarto.
- Vejam... São crianças bonitas, saudáveis. E só. Não entendo de magia pra falar dos medalhões, mas minha posição continua a mesma. A guilda pode ajudar na medida do possível, se não atrapalhar ou for custoso. No mais, vocês fazem o que bem entenderem. Não posso comprometer nossa missão para designar gente para cuidar delas. Sinto muito.

A capitã desceu as escadarias em passos apressados. Ela parecia querer ajudar, mas deixou a razão falar mais alto. O grupo teria que lidar com a questão por iniciativa própria, não deveriam contar com mais ninguém.

3 comentários:

  1. Ta legal o blog e a historia tambem! as frases parecem mesmo que tao 100% iguais ao que foi dito, fico bem daora e tomara q esse grupo nao morra facil hahahha

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  2. Realmente Rick, como vc consegue memorizar as falas de todos?😰

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    1. Eu não memorizo, haha. Tento lembrar os rumos de cada conversa que vale a pena e elaboro indo pelo óbvio.

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