“Sabe-se também que o duque Thomas Matthew
DeLonge fez com que dois de seus nobres pegassem em armas para disputar a mão
de sua filha, Ava. Charles Thomas Taylor contou com os estandartes de prata dos
Silverhawks sob seu comando, enquanto seu adversário, Matthew Walter Wachter, teve os Bruderschaft e seus
estandartes alvirrubros defendendo sua pretensão.
Ambos exércitos se encontraram numa das
colinas próximas a Tomhills em 2012: Dezerarth 22. A general dos Silverhawks, Meredith
Hagbard, foi pega de surpresa pelas armas de cerco dos adversários, algo até
então inédito nesse tipo de batalha aberta entre guildas mercenárias. Dizem que
pouco depois de decretar a disputa, o duque expressou sua preferência por
Wachter e cedeu as armas de cerco da cidade para a batalha. Os Silverhawks
foram massacrados, perdendo mais de três mil membros da guilda, quase se
desfazendo completamente. Esse tipo de disputa só mostra o quanto o duque
Thomas poderia ser cruel com seus súditos. ”
- Bethany Mhyrvielle, em “A Dinastia Estelar”.
Capítulo 1
A Canecada era só uma das várias tavernas da cidade
boêmia de Markham. Era uma taverna para pessoas com algum poder aquisitivo, mas
se você procura o melhor que o ouro pode pagar, há tavernas mais indicadas. De
qualquer forma, sua área se destacava perante as concorrentes, já que tinha
espaço suficiente para mais de uma centena de clientes em seu salão. Ainda
tinha alguns quartos disponíveis no andar superior. Era o local perfeito para o
encontro da guilda mercenária conhecida como Silverhawks em 2015: Janasys 8.
Os selecionados para a mesa seis do encontro da
guilda olharam com receio as pequenas filas que tomavam as portas da Canecada,
onde alguns oficiais tinham mesas para receber contratos e repassar
recompensas. Todos passaram por ali, alguns mais curiosos que os outros, mesmo
que isso não lhes rendesse qualquer informação concreta sobre o encontro. Cada
um recebeu algumas moedas de ouro pelo trabalho anterior à viagem para Markham.
Recolheram seu ouro e foram enviados para a mesa seis. Era quase hora do almoço
e uma barda tocava suaves melodias adequadas para o horário.
O primeiro a chegar havia sido Arthur. Não chamava
muita atenção, já que humanos existem por todas as partes. Sentou-se da maneira
mais confortável possível, acomodou suas armas na cintura e olhava em volta,
tentando captar alguma ideia do que deveria acontecer no salão daquela taverna.
O movimento ainda parecia tímido, graças ao tamanho amplo do ambiente.
Alanna, uma bela meio-elfa de cabelos louros
acobreados se aproximou da mesa e parou atrás de uma das cadeiras numa postura
arrogante que lhe era típica. Seus olhos iam do humano sentado ao lado para
toda dimensão do salão, curiosa com o evento. Sua alabarda era descansada nas
costas da cadeira para que tivesse as mãos livres.
No meio das pessoas que seguiam fluindo para dentro
da taverna surgia o eladrin Arannis Dortmund. Uma dupla de espadas era presa às
costas num cinturão que passava pelo ombro e cobria parte de sua armadura de
couro. Seu caminhar era confiante e altivo. Ao se aproximar da mesa e encontrar
os outros dois, cumprimentava-os com as mãos e se apresentando antes de sentar
numa das cadeiras.
A próxima a rumar para a mesa era Gwen Zharariel,
uma elfa com um capuz por sobre a cabeça e um arco grande às costas. A mão do
tiro era protegida por uma luva branca que se destacava no gibão de peles. Por
dentro do capuz era possível identificar que seus cabelos eram ruivos. Ao se
aproximar da mesa, um breve cumprimento foi dado antes de puxar uma das
cadeiras para se acomodar.
Então veio o drow Malaggar, todo de preto, exceto
pelo colete prata, honrando as cores da guilda. Capuz alto e expressão fechada,
sentou-se sem nenhuma palavra a alguma distância dos presentes, descansando seu
enorme machado na cadeira ao lado. Olhava impaciente à volta da mesa, não tinha
a mínima vontade de se socializar.
Foostus Ellow foi o próximo a chegar, este sim
chamando bastante atenção, já que não é todo dia que se vê um minotauro.
Protegia seu corpo coberto por pelugem avermelhada com uma armadura de peles e
a primeira coisa que fez ao se aproximar foi colocar o pesado malho no chão.
Então, solícito, se apresentou a todos.
A última a se sentar na mesa seis foi Shaisys, uma
halfling em robes. Cabelos longos negros, olhos vermelhos e uma cicatriz no
rosto, assim todos podiam vê-la ao olhar para baixo. Um pouco receosa, também
cumprimentou a todos e se aconchegou numa das cadeiras da mesa enquanto
observava os futuros companheiros, ainda que não tivesse sido informada.
- Alguém sabe o que vai acontecer hoje? – Iniciava
uma especulação um deles.
- Não gosto disso, da última vez que a guilda de
reuniu, deu tudo errado... – Dizia Arannis enquanto cruzava os braços em sua
cadeira.
- Você estava presente na derrota da guilda há dois
anos? – Perguntou a elfa.
- Sim. Não é uma lembrança agradável.
- Dessa vez vai ser diferente. – Alguns sussurraram
apreensivos.
O grupo continuou debatendo por algum tempo, todos
curiosos com o que viria em seguida. A taverna já estava com boa parte de sua
capacidade preenchida. Um dos funcionários foi até a mesa anotar os pedidos,
pagos pela guilda, e logo retornava com os comes e bebes. O almoço correu bem e
quase todos na mesa falaram, conhecendo-se melhor. O drow era o único calado,
impaciente e irritadiço, evitando que a maioria dos outros sequer cogitasse
dirigir-lhe a palavra.
...
Enquanto terminavam a refeição, notaram que alguém
percorria as mesas e agora se aproximava deles. Era um gnomo de pele clara e
avermelhada, cabelos acinzentados bagunçados e curiosos olhos escuros. Tinha
uma tatuagem com símbolo arcano no rosto e usava um robe esvoaçante de cor
prata. Ele sentou-se na cadeira livre entre Malaggar e Gwen, sorrindo para
todos:
- Boa tarde, meus amigos! Erbencormorn Ronjin Quaros
Feltix Arifan Merziver, a seu dispor! – Fez uma leve mesura com a cabeça
enquanto todos lhe respondiam com educação, mas ainda assim atraindo os olhares
confusos de todos em volta da mesa. – Erben! – Completou, sorrindo. Não
entendia como as pessoas gostavam se simplificar os belos e longos nomes
gnomos.
- Hoh! Arthur! Como vão suas pesquisas? – Continua o
gnomo, olhando para o humano.
- Evoluíram bem, meu caro. E os estudos arcanos?
Seguem bem?
A pergunta de Arthur foi o suficiente para que Erben
começasse a falar pelos cotovelos. Ambos iniciaram uma longa conversa cheia de
termos intelectuais e complicados. O restante das pessoas na mesa apenas podia
exibir seus olhares estupefatos, sem entender absolutamente nada do que estava
sendo discutido. Arthur e Erben haviam cursado ao mesmo tempo uma das grandes
academias de Tomhills. Enquanto o primeiro focava seus estudos nas formas da
natureza, o que o levou à carreira de patrulheiro depois, o gnomo era um amante
das artes arcanas e gostava de estudar principalmente artefatos mágicos, o que
acabou levando-o a se tornar um mago posteriormente.
- Enfim, eu desconfio do que acontecerá aqui hoje...
– Provocou o gnomo depois da longa conversa científica com seu colega.
- E o que seria? – Indagaram os mais curiosos do
grupo.
- Acredito que vamos finalmente escolher um novo
líder. Como vocês sabem, nossa guilda está sem um líder desde a morte da antiga
na guerra de dois anos atrás.
- E você tem ideia de quem seriam os candidatos?
- Eu acredito que sejam os quatro que lideram as
repartições da guilda. Cada um cuida de uma área nesses dois anos, acredito que
todos estejam acostumados a tomar decisões. O problema é que a falta de uma
liderança centralizada tem tornado nossa guilda um verdadeiro caos. Vejo com
bons olhos essa eleição. – Completou o gnomo, com seu tom de professor.
- Quem seriam os quatro líderes? – Inquiriu Arthur.
- Vejamos... – Erben percorreu os olhos pela
taverna. - Olhem ali, a tiefling. – O pequenino apontava para uma estranha
mulher num dos cantos da taverna, que conversava e mexia nos cabelos. Apesar do
aspecto humano, sua pele era avermelhada e tinha uma cauda longa e grossa.
Ostentava chifres à frente de sua vasta cabeleira azul-escuro. Suas roupas eram
bastante chamativas.
O grupo inteiro ficou olhando para a mulher,
impressionados. Com a exceção de Arthur, que já lera em alguns livros sobre os
tieflings, ninguém era familiar com a raça. Quase ninguém era, na verdade. É
muito raro que sejam vistos, alguns sequer acreditam na existência de tais
seres.
- Aquela é Afhala, comandante da divisão urbana da
guilda. Ela geralmente lida com nobres, governantes, juízes e afins.
- O que ela é? – Perguntou um dos ouvintes.
- Uma tiefling. É muito difícil ver um deles. Ela é
a única que eu vi em toda minha vida, para falar a verdade... Mas isso não é
importante. A questão é que ela realmente se destaca onde vai, mas sabe como
ninguém lidar com diplomacia.
- E os outros candidatos? – Falaram em uníssono
alguns dos companheiros de mesa.
- Bom, tem também a comandante de nossa divisão
naval, Lizbeth Sigwald. Ali ela. – O gnomo apontava para uma belíssima humana
de pele bronzeada e longas tranças castanhas. Ela parecia à vontade em meio a
outras pessoas, todos com marcas do mar. – Ela passa mais tempo no mar que em
terra firme, teve uma vida conturbada, certamente está acostumada a liderar.
O grupo encarou a mulher por algum tempo,
examinando-a. Ela estava numa mesa com outros marujos, o grupo todo rindo
bastante e bebendo bem mais que a maioria das outras mesas. Sua armadura de
couro era simples e os detalhes em prata que remetem à guilda eram discretos.
Ficava claro que ela era muito próxima pelos seus comandados.
- Então temos nosso responsável pela divisão de
logística, Amgram Dulmar. É o que mais se mexe e mais faz baderna ali naquela
mesa só de anões. – Falou entediado o mago.
A atenção do grupo novamente se voltou para outra
mesa onde vários anões bebiam e faziam farra. Amgram era o que mais fazia barulho,
fosse falando ou mesmo mastigando. Seus cabelos e sua longa barba eram de um
tom castanho acobreado, mas o primeiro tinha várias mechas prateadas que
realmente chamavam a atenção. Seus olhos castanhos deixavam transparecer sua
perspicácia e sua experiência.
- E para finalizar, temos nosso líder da divisão de
recursos: o elfo Elran Caiwenys. Aquele sujo na outra mesa. – Apontou o gnomo.
– Sei que ele é um pouco, como eu diria? Ele é severo.
- Ruim?
- Severo.
A aparência do elfo não era das mais agradáveis.
Suas vestes eram sujas e velhas, tinha muitos apetrechos pendurados, cabelos
verde musgo muito embaraçados e a pele com o bronze daqueles que passam muito
tempo na natureza. Ele falava de maneira rígida e muito alto para um elfo, toos
pensaram, enquanto ele parecia dar uma bronca em um dos funcionários da
taverna.
- Eu espero que o anão não vença. – Comentou o
Arannis.
- Por que não? – Indagou o gnomo.
- Más lembranças. Ele comandava nosso destacamento
na guerra de dois anos atrás...
- Então você estava lá? Que pena, hein. Mas ele não
deve ser tão ruim assim, não é? Vocês sobreviveram, afinal...
- Mesmo assim, não me sentiria a vontade sendo
liderado por ele depois do que aconteceu lá. – Completou o eladrin, dando a
questão por encerrada.
- O elfo, talvez seja bom ter alguém com pulso firme
à frente da guilda. – Comentou Arthur.
- E ter um tirano na nossa liderança? – A mesa
questionou.
- Bom, um líder deve saber o que fazer, e rápido. –
Justificou o humano.
- De qualquer forma, obrigado pelo tempo de vocês.
Preciso ir em outras mesas. Até mais! – Despediu-se Erben, partindo em direção
a outras mesas para fazer o que mais gostava: falar.
O grupo gastou um bom tempo ponderando sobre os
candidatos. As opiniões eram muito divergentes e só o drow não sentia
necessidade de expressar as suas. Apesar de tanta discordância, o debate sempre
esteve amigável e ninguém erguia a voz. Todos se viam envolvidos na especulação
e começaram a tratar a eleição como algo certo.
...
Concentrados no debate, o grupo mal notou quando um
meio-orc se aproximava da mesa. Ele só foi notado ao se sentar entre Malaggar e
Gwen pois bateu o fundo da caneca na mesa, fazendo um barulho que cessou toda
conversa e tomou a atenção. Ele era alto e forte, como se espera de seus
semelhantes. Tinha um cabelo moicano e uma cicatriz que passava pelos lábios,
que já chamavam atenção com um piercing, até o queixo. Ele exalava a cerveja e
alguns se incomodaram com isso.
- Aqueles quatro, hein? Quem será que vai ganhar
essa droga? – Indagava com a fala um tanto quanto entorpecida.
- Você conhece eles? – Encarou o minotauro.
- Pessoalmente não. – Respondeu o meio-orc, sorvendo
mais um gole da cerveja. – Mas a gente ouve histórias, certo?
- Qual o seu nome? – Continuou Foostus.
- Ah, eu sou Urthaglar. – Bateu no peito.
- E que tipo de histórias são essas?
- Sobre o que fizeram antes da guilda. Alguns até
sobre família. Num sei se é tudo verdade, né?
- Ah, nos diga então. Sobre a Afhala, por exemplo. –
Sugeriu Alanna.
- Pouco se sabe dela. Parece que ela foi criada num
templo por umas... – Ele pareceu pensar um pouco antes de concluir. –
Sacerdotisas. Isso! – Completou atraindo um olhar de interesse do drow. – Dizem
que saiu por aí em busca de uma irmã, mas nunca ouvi falar de outra tiefling
que não fosse ela...
- E sobre a Lizbeth? – Perguntou a halfling.
- Ela? Bem, o que ouvi é que alguém destruiu a casa
dela e ela jurou vingança. Nessa busca ela acabou presa e escravizada. Lá ela
liderou uma rebelião e conseguiu escapar, ficando perdida nas florestas por
algum tempo. Então encontrou uma cidade e se alistou pra guilda.
- Liderou uma rebelião, hein? Parece uma boa líder.
– Completou Shaisys.
- O que mais você sabe? – Insistiu Arthur.
- O elfo, Elran. A história dele é interessante, se
for verdade. Dizem que ele é filho de uma maga tão ruim que acabou fugindo dela
com a irmã, haha. – Deu uma longa golada na cerveja restante na caneca. –
Depois parece que acabou salvando a mãe dele, mas virou um fugitivo. Foi
surrado por uma bandida, com quem ficou preso numa masmorra.
- Isso que é vida agitada...
- Então, depois que ele saiu, parece que se meteu
com umas criaturas das florestas e foi amaldiçoado, não podia mais sentir o
gosto de comida ou bebida, o que deve ser a razão pra ele ser tão mal humorado.
Mas depois que veio pra guilda ele conseguiu quebrar a maldição, pelo que sei.
- E por último vem o anão... – Suspirou o eladrin.
- Hey, você tava na luta de dois anos atrás, tava
não? – O brutamontes apontou o dedo para Arannis.
- Estava. Acho que me lembro de te ver por lá.
- Pois é! Você tava no destacamento do anão, não
tava? Do Amgram! Muita sorte a tua, né?
- Não acho. Inclusive não espero que ele vença a
eleição aqui hoje.
- E por quê? Quase toda a unidade dele sobreviveu aquela
luta! A minha não teve a mesma sorte...
- Conseguiu lá? – Gwen apontava a cicatriz no rosto
dele.
- Sim. Nada contra, mas aquela batalha foi
complicada. Se o Amgram não fosse tão bom nisso, provavelmente teriam morrido
todos, como aconteceu com a maioria dos outros destacamentos. – Seu olhar era
sombrio enquanto parecia revirar as memórias.
- O que sabe do anão? – Interrompeu a meio-elfa.
- Ah, ele era um mercador. Não era bem a dele, então
ele acabou entrando pra milícia e depois de se desentender com um superior,
ficou responsável por fazer escolta à caravanas de mercadores. Irônico, né?
- Eles querem colocar um mercador como nosso líder?
– Questionou o drow.
- Bom, mas ele sabe comandar, certo? – Ele encarou
Malaggar, até então em completo silêncio. – Enquanto escoltava uma caravana foi
atacado por um... Bulette. Criatura bizarra aquela, fez ele se perder nuns
túneis subterrâneos.
- Um anão que fica perdido no subterrâneo? Que
líder! – Debochou Alanna com um sorriso irônico no rosto.
- Você já viu um bicho desses? Ele ataca pelo chão,
faz buracos e te joga lá dentro... Não é fácil. – Justificou o meio-orc.
- Pelo visto ele é seu candidato. – Observou Arthur.
- Ele sabe beber, certo? – Bateu a caneca na mesa. –
Enfim, parece que nesse subterrâneo ele encontrou um mapa pra algum tesouro.
Desde que voltou de lá, só fala nisso.
- Um cara desses para liderar a guilda? – Pensava em
voz alta a halfling.
- Ele é o melhor! Vocês esperam o que? Que uma
dessas meninas lidere? – Caçoou o brutamontes.
- Qual o problema? Acha que mulheres não são
capazes? – A elfa se irritou.
- Hahahahaha! Fala sério!
- Se tivesse uma mulher na liderança antes, tenho
certeza que vocês não teriam perdido a guerra dois anos atrás! – Antecipou-se a
meio-elfa.
- A líder era uma mulher. – O eladrin falou com
tranquilidade enquanto levava sua caneca à boca.
- Hahahahaha! Tá aí alguém que sabe o que fala! – Zombou
o meio-orc. – Mas agora é melhor ir, minha cerveja acabou. Divirtam-se!
Urthaglar se levantou com alguma dificuldade e saiu
cambaleando pela taverna. O grupo se entreolhava e novamente debatia sobre as
possibilidades de liderança. A taverna já parecia uma grande bagunça. Enquanto
Arthur se levantava para ir até o outro lado da mesa tirar as cadeiras extras
na intenção de que ninguém mais se intrometesse, Gwen e Foostus notaram numa
mesa próxima uma drow afanando um saco de moedas de um colega distraído.
Visando disfarçar o ato, a garota se aproximou da mesa e sentou-se
discretamente na cadeira que pertencia ao humano.
- Boa tarde. – Ela acenou a todos sorrindo, sendo
cumprimentada de volta por todos.
- E você, quem é? – Perguntou a arqueira.
- Neerthrae.
- Ah, você! – Viram Shaisys se empolgar.
- Olá garota, como vão as coisas? – Sorriu a drow.
- Já deixei aquela vida para trás, as coisas estão
bem melhores.
- Muito bom, muito bom. – Neerthrae se ajeitou na
cadeira, jogando sua cabeleira clara para trás. Seus olhos escarlates passeavam
pelo grupo, medindo-os.
- Também tem algo a dizer sobre os candidatos à
liderança da guilda? – Alanna já parecia um pouco entediada, mexendo em sua
alabarda.
- Ah, sobre eles? Vejamos... – A drow ficou
pensativa por algum tempo. – De qualquer jeito, estamos perdidos. Afhala
simplesmente não é confiável. Ao primeiro sinal de problemas, tenho certeza que
ela viraria as costas e te largaria em apuros.
- Isso que é líder, hein... – Ironizou Arannis.
- Não melhora muito. Amgram é um chato com quase
todo mundo, além de paranoico. Ele sempre acha que tem alguém tentando tomar as
coisas dele. Isso é um absurdo! – Protestou.
- Absurdo, né? – Perguntou Foostus com um olhar
irônico.
- Imagina se alguém da guilda poderia roubar um
companheiro... – Entrou na ironia Gwen.
- Pois é, não faz sentido. – Conclui. – O elfo mal
sabe se comunicar, ele não pensaria duas vezes antes de trocar sua vida por um
conhecimento novo. Não tem como esperar algo bom de um cara desses.
- Eu meio que entendo ele... – Sussurrou Arthur,
recebendo um olhar de aprovação do minotauro.
- E para terminar, temos a Lizbeth. Ela gosta de
beber, ela coloca os navios dela acima da tripulação e é muito fácil de ser
provocada. Imagina esse tipo de pessoa com a vida de todos nós na mão, hein. –
Completou atraindo o olhar de todos na mesa, enquanto ela mesma olhava em
volta, se certificando de que já havia ganho o tempo que precisava. – Bom, se
me dão licença, preciso verificar algumas coisas por aí.
Neerthrae se levantou e se esgueiro por entre as
mesas, sempre atenta ao que poderia ver de útil. Gwen e Foostus só tiraram os
olhos dela depois que já tinha se distanciado bem. Arthur agora estava entre o
minotauro e Malaggar, numa das cadeiras que ele mesmo iria tirar da mesa antes
de ter seu lugar tomado pela ladina.
- Enquanto ela estiver por perto, cuidem bem de seus
pertences. – Avisou a elfa ajeitando seus pertences.
Após o breve espanto com o aviso da colega, o grupo
voltou novamente a debater sobre os rumos da eleição. Os relatos dos outros
membros da guilda trouxeram muitas informações novas para a questão, mas as
opiniões continuaram muito divididas. Alguns já haviam se decidido e tentavam influenciar
os colegas, enquanto outros ficavam em dúvida e faziam de tudo para não decidir
antes do tempo.
...
Em meio ao debate, o grupo percebeu que a música foi
parando. A barda, radiante no palco, interrompeu a música e espero até que
tivesse a atenção de todos. Ela era uma bela humana, tinha cabelos longos
louros e olhos verdes, seu corpo coberto por um vestido da mesma cor dos olhos.
Sua voz era agradável ao ouvido de todos, não demorou muito para que todos
estivessem com seus olhos nela, ansiosos pelo que viria.
- Boa tarde a todos. Faço uma pausa na música agora
para iniciar o processo de seleção do novo líder da guilda Silverhawkes. Sem
demoras, que subam ao palco os quatro candidatos: Afhala, Lizbeth Sigwald,
Amgram Dulmar e Elran Caiwenys.
Os quatro chamados subiram ao palco, com posturas
firmes e olhares de expectativa percorrendo o salão. Era difícil ter certeza,
mas nem todos pareciam confortáveis com a situação, seja pela disputa que
aconteceria em seguida ou por se tornar o centro das atenções. Eles se
perfilaram ao lado da barda aguardando.
- Pois bem, a votação será simples e aberta. Vamos
iniciar em breve. Você se levanta, se certifica de que não está interrompendo
ninguém e então declara seu voto. Façamos com civilidade, certo? – Seus grandes
olhos verdes buscando consentimento de todos presentes. – Então que comece!
Assim começou a votação para definir quem lideraria
os Silverhawks dali em diante. Espalhados pelos cantos da taverna, os oficiais,
pergaminho, pena e tinteiro a postos, marcavam todos os votos, trabalhando de
maneira frenética. A cada momento um novo membro da guilda se levantava e
gritava seu voto. Ninguém tentou fazer graça, ninguém tentou tumultuar, todos
sabiam o que estava em jogo.
Elran continuava sereno. Ele remexia em suas vestes
surradas, demonstrando um certo desinteresse no que acontecia. Afhala, em suas
roupas de cores brilhantes, brincava com o cabelo. Ela olhava diretamente nos
olhos de cada um que se levantava, sorrindo. Amgram tinha consigo uma caneca de
cerveja, sorvendo seu conteúdo de tempos em tempos. Apesar disso, seus olhos
estavam atentos aos votos. Lizbeth roía as unhas, nervosa. Ela ia de uma
posição à outra, desconfortável, as vezes parecia perdida nos próprios
pensamentos.
Foostus, assim como Urthaglar, esteve entre os treze
que optaram por votar no anão. Allana, assim como Erben, foi uma das quinze
pessoas a confiarem na tiefling. Arannis e outras vinte e três pessoas se viram
desapontados ao ver o elfo perder pela diferença de um único voto. Gwen e Shaisys
faziam parte dos vinte e cinco que deram a liderança da guilda à Lizbeth.
Arthur e Malaggar, a exemplo de Neerthrae, não votaram, como tantos outros
membros da guilda que não conseguiram se decidir.
...
- Pois bem, amigos, sou grata pela confiança. –
Iniciou seu discurso a bela Lizbeth. – Mas agora que o lugar na liderança é
meu, desejo parar com rodeios e partir logo ao que interessa: contrato novo.
Os poucos que não prestavam atenção à capitã, agora
se viraram para ela. Começavam a ter uma ideia de quem é sua nova líder. Um
novo contrato apresentado na frente da guilda inteira só poderia significar uma
ação total. A guilda inteira se envolveria, trabalharia unida em busca do
objetivo da missão. Alguns tinham medo disso, outros aguardavam ansiosamente
por esse momento.
- Temos um novo contrato e eu estou aqui para
anunciar do que se trata. A maioria de vocês já ouviu falar de Scottner, a
cidade que foi perdida há algumas décadas para tribos de orcs e goblins. A
nossa nova missão é simplesmente invadir e retomar a cidade.
Um homem chegou sabe-se lá de onde e ia subindo no
palco. Ele vestia-se como um nobre, tinha porte de nobre, mas não ostentava
brasão nenhum. Seu casaco era vermelho e sua calça branca, com luvas e longas
botas de couro. Vestia um chapéu escuro que foi tirado em uma breve saudação
perante a guilda. Todos puderam notar que carregava uma caneca numa das mãos.
- Boa tarde, meus amigos. Sou Scott William Raynor.
Serei seu patrono nesta missão mencionada pela sua nova líder, que aliás,
merece os meus parabéns pelo novo cargo. – Falou de maneira animada, apertando
a mão de Lizbeth, que aceitou o gesto um pouco contrariada.
- Há cerca de trinta anos, Scottner foi perdida.
Desde então minha família sonha com o dia em que poderemos adentrar novamente
nossa casa, ostentar nosso brasão nas ameias da cidade e providenciar para que
nosso povo não passe mais por dificuldades. Fomos os duques de Scottner por
muitas gerações, a perda da cidade foi uma grande tragédia que se acometeu
sobre meu avô.
Ele falava convicto e com propriedade. A todos
parecia sincero e determinado. Notava-se que não era tão velho quanto a maioria
dos aristocratas, tendo algo próximo de quatro décadas de vida. Fez uma breve
pausa para bebericar da caneca de cerveja.
- Meu pai viveu com grande pesar, buscando obter
recursos para um avanço na tentativa de retomada da cidade. Infelizmente os
deuses o tiraram de nós e eu assumi este fardo. Eu peço, por favor, me ajudem.
Aquela é minha casa. Não devemos deixa-las à mercê de criaturas bestiais como
as que habitam suas ruas nos dias atuais. Peço sua força para que possamos
retornar Scottner a seus tempos de glória! Porque eu sei que os Silverhawks são
capazes! Vocês são fortes! Acabemos com os malditos orcs!
O final do discurso foi inflamado, cheio de paixão.
A guilda se viu contagiada. Boa parte gritou apoio ao futuro duque, bateram
canecas em mesa e fizeram todo tipo de barulho. Os medos se foram e a
determinação para elevar novamente o nome da guilda levou a melhor. Lizbeth
olhava impressionada enquanto Scott terminava de esvaziar sua caneca. A guilda
iria para a guerra e parecia animada com isso. O ânimo de todos ficou ainda
maior quando foi dito que além da festa de hoje, teriam o próximo dia de folga
e só deveriam se apresentar na manhã do outro dia, no porto da cidade.
...
O grupo estava apreensivo e agitado. Todos falavam
com todos, até notarem que Lizbeth se aproximava. A beldade puxou uma das
cadeiras, virou as costas dela para a mesa e sentou com as pernas abertas e o
colo encostado na cadeira, abraçando-a.
- Pois bem mesa seis. Vocês são o grupo que
separaram. Por algum motivo acreditam que vocês serão uteis, então vocês serão
uma espécie de unidade singular da nossa força. Vocês vão trabalhar juntos
daqui pra frente. Tem quartos reservados aqui na Canecada até o início dos
preparativos pra viagem. Depois a gente vê como faz.
- E por que somos esse grupo especial?
- Vocês terão tarefas diferentes. Devem saber que
tem coisas que não dá pra fazer com um exército inteiro na nossa sola. Então
vocês vão agir. Depois terão mais detalhes, por enquanto a minha ordem é que
aproveitem o dia, descansem na folga e estejam prontos quando precisarmos. Se
conheçam.
Ela se levantou e partiu para outra mesa. O grupo
foi deixado para que se conhecesse e eles não se esforçaram muito para seguir
essa ordem.
...
- Acho que já está na hora de parar de beber. –
Sugeria Alanna.
- Mas o que? Sabe... – Arthur encarava a caneca de
cerveja, tentadora.
- Qual é? Vai pra lá, mulher! Deixa a gente beber em
paz! – Rugiu um dos vários anões que estavam na mesa com os dois membros
restantes do grupo ainda no salão da Canecada.
- Pois é, ainda tem cerveja... – Tentava apaziguar o
humano com a fala mole.
- Ah, eu vou subir também. Me dá aqui seu ouro,
antes que te roubem. – Se irritou a meio-elfa, levantando-se e pegando sua
alabarda.
- Aqui, aqui. – Entregou um dos sacos de moedas,
esquecendo-se do que acabara de receber.
- Agora sim! Beber! – Gritou Amgram ao ver a garota
subir as escadas, acompanhado por gritos de aprovação dos outros anões na mesa.
...
- Vai! Vai! Vai! Vai! – Repetiam os anões em volta
da mesa gritando.
Foostus, depois de um passeio pela cidade de Markham
retornava à taverna e via seu novo companheiro, Arthur, testando sua força
contra o meio-orc com quem falaram mais cedo. A disputa por um momento pareceu
que seria dura, mas num único movimento Urthaglar pôs fim à queda de braço. Ele
ainda teve tempo de ver o pedido de revanche do amigo ser aceito, mas ele não
teve chance nenhuma nela também.
O minotauro passou pelo salão da taverna observando
a baderna que se agitava por ali. Outras quedas de braço, jogos de carta,
pessoas se socando, havia de tudo. A noite se aproximava e o plano era
descansar depois da infrutífera caminhada que levou mais da metade da tarde. A
cidade era grande, mas não tinha tantas atrações que lhe agradassem.
Chegando no quarto do grupo, viu Malaggar orando em
silêncio num dos cantos. Shaisys dormitava numa das camas. Gwen parecia ter
chegado há pouco e estava ajeitando suas coisas próximas de sua cama e Arannis
parecia meditar. Alanna estava deitada, perdida em pensamentos. Ainda haviam
três camas livres: aquela que seria a sua, a de Arthur e uma que sobrava. A
maioria das tavernas que tinham quartos ofereciam de seis a dez camas em forma
de alojamento. O quarto era simples e, além das camas, só tinha uma cômoda num
dos cantos. Resolveu descansar também.
...
Nem todos estavam acordados quando os anões entraram
no quarto e deixaram Arthur mole em uma das camas livres. Aparentemente ele
bebeu tudo que aguentava e o que não aguentava. O drow se irritou com a
barulheira dos visitantes indesejados enquanto os outros não se importaram. Já
era noite e o barulho na taverna era bem menor. Provavelmente a maioria do
pessoal já tinha partido para descansar. Não demorou para que todos voltassem a
repousar depois do estardalhaço dos bêbados.
...
Dor. Todos sentiram uma dor absurda e acordaram
imediatamente, suando, sentindo uma dor até então inédita para todos. Alanna,
através de seus poderes psiônicos, captou o sentimento de algum agonizante e,
incapaz de segurar algo tão forte, deixou que escapasse para seus novos
companheiros. Todos se levantaram, confusos, tentando entender de onde vinha
aquela dor dilacerante no peito.
- Alguém. Alguém está morrendo. Eu consigo sentir
sua agonia, precisamos ajudar. – Dizia a meio-elfa enquanto procurava se
concentrar na origem da dor.
O grupo se entreolhava enquanto se recuperavam do
susto, alguns indecisos quanto ao curso de ação. Arthur tinha uma dor de cabeça
aguda, além de não estar entendendo nada do que se passava. Não demorou até que
todos concordassem em ajudar e o grupo partiu arrastando o patrulheiro consigo
depois de vestirem suas armaduras e pegarem suas armas. Desceram as escadas e
encontraram a taverna paralisada, apenas um ou outro bêbado jogado nas mesas
aguardando a manhã da vergonha.
Logo estavam nas ruas. Fazia frio e a manhã não
demoraria a chegar. Nas vielas por trás da própria taverna provavelmente
encontrariam o que procuravam, segundo os sentidos da ardent. Evitando fazer
barulho, se esgueiraram pelas passagens estreitas, evitando dejetos jogados
pela população, ratos e alguns gatos que aproveitavam o local para se
alimentar. Depois de algumas intersecções encontraram um pouco de sangue e
seguiram seu rastro.
Logo avistaram numa rara abertura um corpo enorme no
chão, as costas descansando na parede, rodeado de sangue. Ao se aproximarem
notaram que se tratava de um golias, uma raça nômade de quase gigantes que
costuma ser vista principalmente na região mais noroeste da ilha. Ele tinha um
ferimento gravíssimo no peito, provavelmente havia sido atravessado por uma
arma. Em cada um de seus braços estava uma criança envolta num manto grande.
Usando suas últimas forças, ele sussurrou ao grupo:
- Cuidem das crianças, não deixem que os peguem... –
Tosse forte acompanhada de sangue. – O medalhão delas. Nunca deixem tirar.
Nunca. – Sua boca continuava se movendo, cada vez mais devagar e agonizante,
mas nenhuma palavra saía mais dela. Não demorou muito para que estivesse morto.
Impressionado, o grupo se arrastou de volta à
taverna carregando as duas crianças. Pelo tamanho, aparentavam ter quatro ou
cinco anos humanos, eram um garoto e uma garota. Uma rápida inspeção constatou
que o sangue que sujava as crianças era do próprio golias e que elas estavam
bem, apesar de inconscientes. A chegava à taverna aconteceu rapidamente e o
grupo conseguiu ser discreto ao voltar para seu dormitório sem chamar nenhuma
atenção.
As crianças foram colocadas nas camas e o grupo se
apressou para inspecioná-las com maior cuidado. Eles pareciam elfos. Arannis
acreditava que eram eladrin. Ambos tinham cabelos tão brancos como a neve, pele
pálida e seus olhos de fato eram como os do soldado. No entanto, a cor dos
olhos se diferenciavam dos do Bladesinger: os olhos do garoto eram dourados,
enquanto os olhos da garota eram lilás. As crianças continuavam inconscientes.
...
Gwen, Arannis e Alanna estavam novamente saindo da
taverna na direção de onde deixaram o corpo do golias. Chegando na entrada para
as vielas, a elfa foi incrivelmente capaz de ouvir vozes, apesar de não
conseguir discernir o que era dito. Optando pela discrição, a ardent resolveu
ficar com sua armadura barulhenta enquanto o bladesinger e a seeker avançavam
pelas vielas em busca dos donos das vozes.
Apesar de conseguirem enxergar com o auxílio da luz
da lua, Gwen se distraiu com a procura pelo corpo e acabou tropeçando num gato
preto que se escondia muito bem nas sombras. Qualquer chance de surpresa foi
desfeita, por sua queda nos dejetos da viela causaram um grande barulho que
provavelmente alertou sua caça. Sem tempo a perder, Arannis decidiu aumentar o
ritmo e partiu no rastro dos perseguidos, chegando até a abertura.
O corpo não estava mais lá, mas era claro pelas
manchas de sangue no chão que ele estava sendo arrastado para fora dali. Não
era difícil seguir o rastro, mas ao conseguirem ouvir a quantidade de passos, a
dupla ficou na dúvida se deveria continuar a perseguição. Com certeza estavam
em desvantagem numérica, já haviam perdido o elemento surpresa e ainda não
tinham a menor ideia do que se tratava. Por isso abortaram sua busca e
retornaram cabisbaixos.
...
O sol tomava conta do céu e o grupo continuava em
volta das camas onde as crianças repousavam. Eles conferiam diversas vezes os
mesmos detalhes buscando respostas para as diversas dúvidas que tinham. Arannis
foi quem conseguiu algo mais concreto ao conseguir sentir magia misturada a
algum outro tipo de energia que ele não conhecia, perceptível apenas ao tocar seus
medalhões. Mesmo a um dedo de distância, era impossível sentir qualquer coisa
vinda do objeto, o que o deixou bastante impressionado.
O grupo seguia discutindo as mesmas questões desde
que se juntaram novamente no dormitório: quem seriam as crianças, o que fazer
com elas, contar a quem sobre elas, entre tantos outros problemas derivados
dessas questões. Os pequenos eladrin continuavam inconscientes apesar das
tentativas de acordá-los. Cada minuto deixava a situação ainda mais tensa e
aumentava as dúvidas em suas mentes.
...
A metade da manhã se aproximava quando as crianças
deram sinais de estar despertando. A expectativa de todos crescia. Alanna se
colocava ao lado deles esperando para trocar as primeiras palavras, Gwen já
havia buscado comida, Arannis observava apreensivo, Shaisys com os cotovelos na
cama, Malaggar considerava as possibilidades a favor de sua ordem, Foostus se
afastava para evitar deixar uma má impressão, enquanto Arthur continuava a
dormir. O humano era o único que não havia participado do debate, logo que voltara
ao dormitório cai na cama e dormiu como uma pedra devido ao efeito da cerveja
de mais cedo.
Os pequenos acordaram assustados, como era de se
esperar. A meio-elfa fez de tudo para tranquiliza-los, eventualmente
conseguindo. Receosos, eles comeram o que lhe deram e beberam o leite com
gosto. Não demorou muito para perceber que eram, ou estavam mudos. Nem a
leitura labial conseguiu fazer com que fossem entendidos quando as crianças
tentaram expressar alguma coisa. Som nenhum deixava suas gargantas. O eladrin
desconfiou de magia.
Quando as crianças começaram se sentir mais à
vontade, algumas informações foram surgindo. Aparentemente elas não conheciam o
céu, o que explicava sua pele pálida. Eles mostraram ter convivido com eladrin,
meio-elfos e humanos. O garoto mostrou interesse em armas, enquanto a garota
deixou que arrumassem seu cabelo, vaidosa. Seus olhares denotavam inteligência,
passando por cada detalhe dos presentes e da sala. Tinham uma atitude até certo
ponto desafiadora e positiva. O resto da manhã passou muito rápido.
...
Enquanto alguns se aproximaram das crianças, outros
passaram a manhã buscando por Lizbeth, sem sucesso. Eles chegaram e encontrar a
escuna da capitã, mas não conseguiram qualquer notícia sobre seu paradeiro.
Eles esperavam que a líder da guilda pudesse dar alguma direção sobre o que
fazer sobre as crianças. Vendo que as buscas eram infrutíferas, se juntaram aos
outros em seu quarto na taverna depois de algumas horas.
Depois de mais um tempo discutindo os próximos
passos, resolveram descer para uma nova busca, então viram a capitã numa das
mesas almoçando e negociando com dois homens. Um deles era o líder dos Raynor,
seu atual contratante. O outro se vestia de laranja, cor do brasão da casa do
duque de Markham. A conversa parecia séria. Notando que o grupo a esperava,
Lizbeth pediu licença e se aproximou deles.
- Hoje é folga, lembram?
- Mas nós precisamos falar com a senhora...
- Pois bem, peguei uma mesa e almocem. Terminando de
tratar de algumas coisas aqui, vou ver vocês.
...
O grupo se deliciou com um banquete enquanto
esperava pela capitã. Algumas questões voltaram a ser levantadas, mas todos
pareciam aliviados por encontrar uma figura de liderança. Eles olhavam ansiosos
para a mesa onde a negociação acontecia, esperando sua chance de finalmente
chegar a uma conclusão. Alguns iam se apegando às crianças, outros traçavam
planos para elas e havia até quem não se importasse nem um pouco.
- Pois bem, podem falar. – Se aproximou Lizbeth,
girando uma cadeira e encostando as costas da cadeira na mesa, sentando-se de
maneira bem informal, braços cruzados na mesa.
- Nós temos algo incomum para reportar. Nessa
madrugada...
...
- E vocês esperam o que? Que eu diminua as forças da
guilda pra montar uma guarda pra essas crianças?? – Provocou com ultraje a
capitã.
- Não, mas elas podem ser especiais, não sei. A
situação é toda incomum. – Argumentou Alanna.
- Especiais? E se não forem? Vejam, o que cada um
faz na sua vida pessoal não é problema da guilda. Não vou proibir que vocês
fiquem com essas crianças ou qualquer outra decisão que tomem. Mas a guilda não
pode se envolver.
- Vocês não podem nos ajudar? – Arannis questionava.
- E como? São crianças! Talvez até sejam crianças de
alguém poderoso, mas e se não forem? Não posso agir às cegas. Temos uma guerra
pela frente!
- Você poderia pelo menos vê-los, certo? – Apelou o
patrulheiro.
- Certo, vamos lá.
O grupo acompanhou sua líder subindo as escadarias
até chegar ao seu dormitório. Lá as crianças estavam sob os cuidados de Shaisys.
Lizbeth se aproximou delas, encarou-as por algum tempo, então se virou e desceu
novamente, seguida por alguns membros do grupo, enquanto os outros se olhavam
em confusão no quarto.
- Vejam... São crianças bonitas, saudáveis. E só.
Não entendo de magia pra falar dos medalhões, mas minha posição continua a
mesma. A guilda pode ajudar na medida do possível, se não atrapalhar ou for
custoso. No mais, vocês fazem o que bem entenderem. Não posso comprometer nossa
missão para designar gente para cuidar delas. Sinto muito.
A capitã desceu as escadarias em passos apressados.
Ela parecia querer ajudar, mas deixou a razão falar mais alto. O grupo teria
que lidar com a questão por iniciativa própria, não deveriam contar com mais
ninguém.
Ta legal o blog e a historia tambem! as frases parecem mesmo que tao 100% iguais ao que foi dito, fico bem daora e tomara q esse grupo nao morra facil hahahha
ResponderExcluirRealmente Rick, como vc consegue memorizar as falas de todos?😰
ResponderExcluirEu não memorizo, haha. Tento lembrar os rumos de cada conversa que vale a pena e elaboro indo pelo óbvio.
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