domingo, 19 de julho de 2015

Ato I: A Reconquista II

“O caso do duque Mark Allan Hoppus é realmente incomum. Desde criança acostumado a perambular pela cidade e conviver com todo tipo de pessoa, ele logo se tornou popular e bem visto por todos em Markham. Seu bom humor e sua simplicidade sempre agradaram à população em geral e seu pai o vira como um substituto natural à frente da cidade.
Mark não foi o primeiro duque a se eleger no conselho sem que alguém se dispusesse a enfrenta-lo, apesar deste já ser um acontecimento muito incomum. O mais incrível e inédito na história é que Mark jamais foi confrontado. Enquanto é comum em outras dinastias que eventualmente outros nobres insatisfeitos forcem o conselho a convocar uma nova votação para a cadeira de duque, jamais alguém cogitou mostrar insatisfação com ele e seu lugar nunca foi questionado. Todos acreditam que ele foi o maior governante de toda história. ”
- Zachary Bartowski, em “Mandos e Desmandos”.

Capítulo 2

- Deveríamos levar as crianças para um passeio. – Sugeriu Arannis.
- Eu poderia leva-los. – Respondeu Gwen.
- Acho que não. – Interviu Alanna.
- E o motivo para isso seria?
- Não sei se seria saudável você sair com elas.
- Bom, comigo as crianças poderiam se passar por meus filhos, não é? – O eladrin ponderou enquanto as crianças permaneciam quietas.
- Isso é verdade. – Concordou a meio-elfa.
- Você poderia ser a mãe. – O soldado sorriu para a elfa.
- Até que seria um belo casal. – Riu a psiônica.
- De jeito nenhum!
- Uh, que elfa brava. – Debochou o arcano enquanto ia até as crianças.
- Vocês que se virem então. – A seeker deixou o quarto batendo os pés.
- Bom, vamos passear com as crianças então. – Alanna pegou na mão da garota enquanto Arannis fazia o mesmo com o garoto.

...

O dia de folga seguiu tranquilo para todos. Alanna e Arannis levaram os gêmeos para um passeio para cidade, onde compraram vários doces e visitaram vários locais. Numa das barracas de brinquedo, o eladrin foi pego de surpresa quando as duas crianças escolheram réplicas de espadas bastardas feitas de madeira como instrumento de diversão.

...

- Você não deve se aproximar das crianças. – Advertia Celi.
- Mas por que? São apenas crianças. – Arthur ponderava sentado em sua cama no alojamento vazio.
- O aviso está dado. Espero que seja esperto o suficiente para segui-lo dessa vez.
- Mas eu ainda não entendo...
O patrulheiro já estava acostumado a ter esse tipo de aviso sem qualquer explicação. Desde que se lembra, dividia seu corpo com essa outra entidade, mas jamais conseguiu ter certeza do que ela é. Alegando ser uma deusa, ela as vezes toma o controle de seu corpo ou sussurra pedidos em sua mente. A relação de ambos já foi muito pior, mas hoje toda estranheza que um dia existiu virou história.
- Seja um bom rapaz e me ouça. Aquelas crianças, elas são... – uma pausa que demonstrava uma insegurança incomum naquela entidade – Especiais.
- Especiais como?
- Especiais. Se aproximar delas pode trazer algumas consequências desastrosas devido à nossa situação de corpo e tudo mais. Não se aproxime demais.
- Certo, certo... – suspirou o rapaz antes de voltar à solidão física e agora também mental.

...

A noite chegou a o grupo se reuniu novamente no segundo andar da Canecada. Cansados, comeram no alojamento mesmo. As crianças mal chegaram e foram descansar, brincaram o tempo todo e já não aguentavam mais ficar de pé. O período na praia, principalmente, havia sido muito agitado para elas. Sem trocar muitas palavras o grupo repousou se preparando para o verdadeiro trabalho que se iniciaria dali algumas horas.

...

O sol nascia e o grupo já terminava os preparativos para ir ao porto. Apesar de não existir nenhum problema explícito entre eles, era notável que a atmosfera não era favorável. Simplesmente não se sentiam à vontade na presença uns dos outros ainda. E as crianças nem sempre conseguiam quebrar essa sensação.
- Levamos as crianças? – Questionava Gwen.
- Acho melhor. – Respondia Alanna.
- Não podemos deixar elas sozinhas aqui e precisamos ir trabalhar. É só a gente ficar de olho nelas. – Arannis ajeitava o cinturão das espadas no ombro.
- Que seja...
Então o grupo desceu as escadas, vendo a taverna ainda vazia. Do lado de fora o clima era gostoso, a temperatura era amena e a brisa era agradável. Mesmo ali num distrito de tavernas e diversão, o movimento era escasso nesse horário. Não tiveram problema para se locomover até o porto, do qual quanto mais se aproximavam, mais notavam movimento.

...

- Bom dia, mesa seis. – Cumprimentou um dos oficiais da guilda. – Vocês podem começar ajudando a levar algumas caixas daquela pilha até a escuna, a Vadia dos Mares. – Sinalizou de uma pilha de sacos e caixas para uma embarcação de médio porte, impecável.
Depois de rir do nome da escuna o grupo começou a transportar os suprimentos. O caminho era um pouco longo e eles se revezavam enquanto as crianças brincavam com suas espadas de madeira próximas à pilha de carga. Todos trabalharam em ritmo forte a manhã inteira e o tempo pareceu voar.
Eles conseguiram notar que iriam utilizar o galeão do duque, enorme e imponente, com velas de cor laranja. O galeão estava sendo modificado para receber os cavalos que seriam levados com as forças cedidas pelo próprio duque. Carpinteiros trabalhavam duro tentando montar uma espécie de estábulo no interior da embarcação. Esse trabalho era extremamente lento e tomaria quase todo o tempo de preparação para a viagem.
Passada a manhã, todos foram liberados para almoçar e descansar. Tinham de três a quatro horas livres e não houve nenhuma ordem muito específica no que se diz respeito a continuar o trabalho. O início fora lento e desajeitado, mas esperava-se que o ritmo se estabilizasse com o tempo e costume. Depois de almoçar na Canecada, todos subiram para o alojamento descansar e esperar um bom horário para retomar os trabalhos.

...

Quatro horas depois da dispensa, Alanna, Gwen, Arannis e Foostus retornaram ao trabalho, enquanto Arthur, Shaisys e Malaggar permaneceram no alojamento. As crianças foram para o porto também. Logo notaram que nem todos retornaram para o trabalho e o ritmo seria lento novamente. Os oficiais pareciam não se importar, visto que assim talvez conseguissem organizar melhor.
- Então, é nessa escuna que iremos, mesa seis. – Comentou Lizbeth, se aproximado do quarteto e crianças.
- Nós vamos com você? – Gwen perguntava.
- Sim. Iremos com o mais rápido. Chegaremos antes a Travisen e iniciaremos os preparativos até que o restante chegue. Isso vai nos poupar algum tempo.
- Certo.
Lizbeth se afastou para tratar de algo com os oficiais enquanto o grupo começava a ajudar a descarregar materiais que seriam usados na reforma do galeão. Ao se aproximarem da embarcação, ouviram uma música sendo cantada por várias vozes ali no interior.

É, minha mulher
Me leva pra casa quanto tô bêbado demais pra chegar lá
E ela não fica toda ciumenta
Quando saio com os amigos
Ela ri das minhas piadas mais idiotas
Quando ninguém mais ri

A música sumiu com o barulho de algumas caixas despencando numa pilha que era montada no convés, seguidas de muitas risadas escada abaixo. Um rapaz ia subindo as escadarias dando risada e caminhando levemente enquanto um senhor de expressão séria o acompanhava bem de perto.

E ela é tão esperta e inteligente
Eu não acho que ela precisa de mim
Nem metade do quanto sei que preciso dela
E eu imagino porque não tem outro cara
Com quem ela prefira estar

A dupla se aproximava e a cantoria ficava em segundo plano conforme o homem grisalho parecia repreender o mais jovem. Ambos vestiam roupas de tecido nobre e corte sofisticado, apesar de serem simples comparadas às de alguns nobres. O mais velho tinha uma expressão severa e cabelos curtos e bem aparados. O mais jovem, aparentando estar entre os trinta e quarenta anos, tinha cabelos negros bagunçados e olhos azuis, além de manter um sorriso genuíno no rosto.
- Não é assim que se espera que você aja!
- Tá certo, tá certo... – O jovem tentava se livrar do sermão.
- Você precisa agir de acordo com quem você é, não pode sair cantando e bebendo com qualquer pessoa!
- Qual é? Ninguém deveria se levar tão a sério com tantos anos à frente pra entrar na linha! Por que você exige isso de mim?
- Mas senhor! – Protestava o mais velho enquanto eles já haviam passado pelo grupo, que olhava com surpresa.
A dupla eventualmente se reuniu com Lizbeth longe dos ouvidos deles, que ficaram olhando curiosos. Não demorou muito para que um dos marinheiros se juntasse a eles para dizer do quão divertido era o duque Mark, o homem de cabelos negros e olhos azuis que acabou de passar por eles. Isso pegou o pessoal de surpresa, mas logo retornaram suas atenções ao trabalho.

...

Os dias foram passando enquanto os ajustes eram feitos no galeão. O grupo da mesa seis seguia trabalhando nas docas todos os dias, alguns com mais, outros com menos disposição, mas todos eventualmente ajudaram. Arannis aproveitava o tempo livre que tinha para ensinar as crianças a usarem a espada e elas demonstravam grande interesse nas lições e treinamentos, praticando entre si enquanto o grupo trabalhava.
Eventualmente Lizbeth e o próprio duque se aproximaram das crianças, conversando e brincando com eles. No início o grupo ficou apreensivo, mas logo se acostumaram. Apesar dos cargos que tinham, ambos pareciam boas pessoas. Mark ria muito com as crianças, foi realmente surpreendente a maneira como ele conseguia diverti-las, pelo menos até que seu assistente, o homem grisalho, o encontrava.
Em Feberays 10 todos os procedimentos haviam sido completados. O galeão já comportava os sessenta cavalos da maneira mais confortável possível, todas embarcações tinham seus suprimentos e os membros da guilda já haviam resolvido todas as pendências que tinham. Enfim os navios partiram para Travisen numa longa viagem pelo mar.

...

Depois de duas semanas de viagem tranquila, Lizbeth alertou a todos que se aproximavam de uma zona perigosa. A viagem era longa pois eles navegavam contornando a costa, que era o meio mais seguro conhecido de se navegar. Todos sabiam de como poderia ser perigoso se afastar demais.
Em algumas horas eles adentraram a zona de perigo. Ventos fortes e ondas enormes se tornaram comuns. O céu estava escuro e carregado, uma chuva se iniciou com uma média intensidade e ia ficando mais forte com o passar do tempo. Relâmpagos assustavam as crianças, que foram para o interior da escuna com Shaisys.
Não demorou muito para que a tempestade se iniciasse e atingisse a Vadia dos Mares com força. O convés ficou agitado, com todos trabalhando com afinco pela sobrevivência. As ondas batiam como aríetes no casco da escuna e o mastro parecia que iria ceder a qualquer momento. Lizbeth gritava as ordens furiosa enquanto seus braços pareciam queimar com o esforço para manter o leme no curso pretendido.
O grupo corria contra o tempo, embolado em cordas, tirando a água do convés e ajudando os outros tripulantes nas tarefas mais árduas. Ensopados e com frio, viam a Vadia ser jogada de onda a onda. O mar era implacável e eles só podiam torcer para que conseguissem sair dali vivos. Os esforços eram grandes e a tempestade era impiedosa.

...

Na parte inferior da escuna, Shaisys estava sentada abraçada às crianças num canto. O garoto até tentava não demonstrar medo, mas suas pernas o traíram. A garota sequer tentava fingir. Era possível sentir os solavancos da embarcação, madeira rangendo com o impacto das ondas e o sopro do vento quase abafando todos os gritos vindos do convés.
No silêncio dos três ali no canto escuro, a halfling conseguiu reconhecer uma sensação familiar que tomava conta de seu corpo, um calor quase maternal. Cansada da vida difícil nas ruas, teve que fazer um pacto com uma entidade para garantir os poderes que acabaram tirando-a daquela situação. Essa entidade lhe contatava eventualmente e cá vinha ela novamente.
- Situação atribulada, minha menina. Situação atribulada, sim? – Debochou a voz espectral que parecia ecoar no fundo de sua mente.
- Estas crianças são deveras interessantes, sim.... Não disponho de tempo para explanar a razão ou meus motivos, mas mantenha-as a salvo, sim? O que elas são ainda me escapa, mas hei de acreditar que com o tempo posso descobrir a verdade acerca delas. Sim, hei de descobrir, minha criança.
- Por enquanto é só. Sabeis que sois de extrema importância para meus objetivos e motivações. Não me decepciones, pequena criança. Um dia hei de proporcionar mais informações a ti. Até lá, cuidai dos pequenos.
A bruxa sentiu-se como se saísse de um transe depois do contato. Aquela entidade a tratava de uma forma bastante peculiar, mas fora um bom preço a pagar por suas habilidades. As crianças pareciam mais tranquilas diante de seu quase transe e o frio voltou de maneira brusca, fazendo com seu corpo tremesse. Manter as crianças a salvo não era uma tarefa da qual discordasse, mas parecia bem pouco oportuna no momento atual.

...

A tempestade eventualmente cedeu. A tripulação passou horas lutando por suas vidas, até que a calmaria retornou e o trecho turbulento ficou para trás. Infelizmente, a escuna foi seriamente avariada, então a capitã resolveu guiar o barco para a costa com a finalidade de fazer os reparos necessários. Era um pequeno, mas necessário desvio.

...

- Vamos descansar essa noite a amanhã começamos os reparos. – Ordenou Lizbeth já na praia enquanto começavam a armar um acampamento improvisado.
- Acha que vai levar muito tempo? – Indagou Alanna.
- Acredito que em dois dias conseguimos. Temos uma floresta aqui perto, conseguir madeira não vai ser difícil. E por sorte não perdemos ninguém, meus marujos sabem como cuidar da Vadia.
- Vadia, hein? – Brincou um dos marujos, especulando com a reação do grupo.
- Muitas pessoas não acreditam que uma mulher pode comandar qualquer coisa, quanto mais uma embarcação. Um nome vulgar coloca alguns deles no seu devido lugar, sabe como é. – Se justificou gesticulando para o grupo.
Depois de comerem de novo a ração que traziam, todos se reuniram em volta da fogueira para dormir. Arannis ficava em transe ao lado dos pequenos, que começavam a aprender a fazer o mesmo. Entravam e saíam do transe com o soldado, iniciando logo em seguida seu treinamento com espada, como vinha sendo rotina há algumas semanas.

...

Os trabalhos iniciaram com o nascer do sol. Todos tiveram que ajudar, exceto por Arannis, Alanna e Gwen, que receberam a tarefa de ir até a floresta em busca de algo para comer que não fosse ração. A perspectiva de comer algo diferente animou a todos e o trio logo partiu em busca da desejada caça.
Não demorou muito para que estivessem caminhando pela floresta. O clima era ameno e a vegetação não era tão fechada ali nas bordas, então conseguiam se locomover sem maiores problemas. Com o arco em mãos, a elfa logo abateu duas lebres, prontamente coletadas pelos companheiros de caça. Iam avançando cada vez mais floresta adentro, até que o grupo ouviu pegadas e notou que estava sendo cercado.
Buscando distrair o que quer que estivesse em seus rastros, Arannis utilizou uma de suas magias para criar um som ilusório na direção contrária à qual se dirigiam, tomando rumo de uma clareira visível na vegetação. Ali acreditavam que poderiam ao menos ver o que se aproximava deles.
Ao chegarem na clareira, puderam se posicionar em seu centro, costas com costas. Então viram que a tentativa do mago não fora muito bem-sucedida, já que cinco lobos se aproximavam rosnando e com cautela, agora que estavam expostos pelo campo aberto. Sem hesitar e com armas já em mãos, o grupo começou a orquestrar sua ofensiva na tentativa de terminar com os animais sem que recebessem muitos ferimentos.
A elfa iniciou a batalha disparando suas flechas na direção do lobo mais próximo, envolvendo-o com forças espirituais, visando frear seu avanço. A vantagem numérica tirava qualquer inibição das criaturas, que avançavam com voracidade. Utilizando suas habilidades mistas, Arannis atacou um lobo que se dirigia na direção do grupo com um corte de sua espada, seguido de um disparo energético que jogou o lobo para trás. Alanna cortava outro lobo com sua alabarda quando o mesmo investia contra o grupo.
Os outros lobos conseguiram se aproximar apesar dos esforços do trio. A meio-elfa acabou levando uma mordida na coxa, enquanto o eladrin conseguiu se esquivar das mandíbulas da quinta fera. A seeker continuava seu bombardeio, lançando desta vez um enxame de insetos espirituais que picavam seu alvo, dificultando sua visão. Arannis se engajava com outra fera próxima ativando suas habilidades com a espada, fazendo com que a mesma cantasse a cada movimento, disparando fogo pela mão livre. Alanna continuava a golpear com a alabarda enquanto dois lobos conseguiram flanqueá-la e leva-la ao chão com suas mordidas.
Sufocada e sendo alvo fácil, a ardent se encontrou aliviada quando viu Gwen matar um dos lobos que a cercava num disparo preciso. Arannis seguia implacável em sua dança da morte, combinando espada e magia para destruir as feras. Depois de se recuperar, a meio-elfa se concentrou em estimular seus companheiros através de seus poderes psiônicos enquanto dividia um dos lobos ao meio com um corte de vertical de sua arma.
Em alguns segundos, os lobos haviam sido derrotados. Alanna havia sofrido os maiores ferimentos quando foi lançada ao chão, mas concentrando-se após o combate conseguiu recuperar-se enquanto sua energia psiônica percorria seu corpo, revigorando-o. O eladrin juntava as carcaças dos animais abatidos, enquanto a elfa se mantinha em prontidão para evitar uma nova surpresa.

Após alguns minutos parados e recuperando seu fôlego, o trio se deu conta de que não havia mais nenhuma ameaça e, juntando os cadáveres, partiu de volta para o acampamento. Animados com a luta da qual saíram vencedores, os pequenos ferimentos persistentes não pareciam incomodar nenhum deles.

2 comentários:

  1. A parte do Arthur e da Shaisys ficaram legais e macabras, ai me pergunto cada um teve essa conversa em seus pensamentos?
    As partes do combate que envolve meu personagem Arannis ficou muito bem descrita deu um ar de imponência peguei mais vontade de eleva-lo a niveis mais altos agora!!!

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  2. A minha má-sorte nos dados está sendo lançada na internet!!!

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